April 20, 2008

sobre o abandono

Entro no metrô Vila Madalena às 0h55 do domingo, cinco minutos antes do encerramento de suas operações de sábado. Além de mim, não há ninguém na plataforma. Desço no Paraíso e não vejo alma viva na estação. Nerd ligeiramente bêbado se anima com pouco, e me animo. A plataforma vazia. Cenário do pós-apocalipse, uma das imagens que mais me divertem. Não só a mim; todo mundo que viu Extermínio ou Dia dos Mortos lembra em detalhes das cenas das ruas vazias.

Óbvio que o cenário de desolação e vazio em São Paulo justifica-se com poucas informações a título de contextualização: é um final de semana atípico, enxertado num feriado de segunda, e o horário, no metrô, é notadamente incomum; funciona uns 45 minutos a mais no sábado, fato talvez pouco conhecido. Além do mais, madrugadas são tipicamente desertas. Não há surpresa nisso.

A plataforma vazia, no entanto, tem um charme indiscutível. É o fascínio pelo abandono da cidade. Abandono pressupõe rompimento de relação de posse ou controle. É justamente isso. A cidade abandonada é a cidade sem seus criadores, os homens. É a metáfora da ausência de Deus. Por que perturba? Talvez porque sintamos com mais essa ausência, provavelmente verdadeira…

Seria a experiência religiosa simplesmente a necessidade de presença? De companhia no mundo. Se sim, Deus torna-se contingência. E criação humana, como as cidades.

Ah, vou dormir.

April 15, 2008

revisão de conceitos

Os Beatles não fizeram tudo que havia para ser feito no rock. Isso seria impraticável em termos quantitativos. Eles esgotaram, sim, as formas de reformular e recombinar o rock, seja consigo mesmo ou com outros gêneros. Ou seja: ainda podem surgir novidades, mas nenhuma que os Beatles não tenham antecipado.

March 30, 2008

a magia episódica do futebol

Uma diferença fundamental do futebol para grande parte dos outros esportes: a maioria das partidas é entediante pra diabo. E isso é excelente.

Diferente do basquete, por exemplo, em que todas partidas são um espetáculo de indução à dormência pelo seguido virar do placar, o futebol investe na potência do clímax. É como a questão da compressão e da dynamic range na música: cada vez mais, nivelam a experiência e jogam fora a nuance. Sem silêncio não há como apreciar o refrão emotivo e catártico. No futebol, há justamente esse senso de nuance.

A maioria dos jogos não é lá muito digna de nota. Mas quando há um jogo realmente bom, os entusiastas rapidamente o reconhecem como tal. E falam sobre ele, e discutem minúcias, e reproduzem jogadas com as mãos e os pés. O extraordinário se destaca. Resta a nós agradecer pelo jogo de canela e pelo beque pedreiro, nossos instrumentos de calibragem da alegria.

March 26, 2006

‘de volta para o futuro’ e a sci-fi

Numa bela coincidência, ao mesmo tempo em que eu vinha estudando a ficção científica para um trabalho, topei com a edição em DVD desse belo exemplar do gênero. Por mais que possam haver críticas sobre a falta de rigor teórico e lógico em relação às causas e efeitos das viagens no tempo de Marty McFly, esse filme realiza exatamente o que se propõe (divertir), com um nível de imaginação, senso de humor e técnica incomuns até hoje.

Vale dizer que uma das discussões mais recorrentes e polêmicas sobre a sci-fi é o caráter científico de suas histórias. O próprio nome do gênero entra em xeque. Alguns defendem a alternativa “ficção de especulação”, com a qual concordo: na sci-fi, em geral, o foco não está na ciência e nos pormenores tecnológicos, mas no exercício de imaginação e reflexão sobre a realidade humana.

De Volta Para o Futuro ignora o lado anal-retentivo desse debate e usa os elementos científicos só até o ponto em que eles não interfiram no roteiro e na fluidez da narrativa. O mais evidente paradoxo está no fato de Marty influir diretamente nos eventos que levaram ao início da relação de seus pais, inclusive alterando-os radicalmente. Esse problema até é mencionado e usado na trama, mas nunca ultrapassando os limites do inteligível.

Talvez a maior contribuição do filme para o gênero seja justamente essa liberdade teórica a serviço do efeito final na tela. Os personagens e as modificações que sofrem ao longo das indas e vindas temporais são o foco do filme, e não as hipotéticas possibilidades científicas da viagem no tempo. Não interessa examinar a lógica do gradual sumiço da mão de Marty na cena do baile, ou o real propósito de um “capacitor de fluxo” (?). Francamente, qual é a graça de se questionar isso?

October 19, 2005

pecado


Rodrigo Santoro será o rei persa Xerxes na adaptação para o cinema de 300 de Esparta, HQ do Frank Miller. Escolha inesperada, mas que deverá render várias sessões de bronzeamento artificial no cara. Já Gerard Butler como Leônidas, só vendo.

Considerações sobre elenco à parte, estou curioso para ver como Zack Snyder, diretor do maravilhoso remake de Madrugada dos Mortos, vai lidar com esse material. Pretendendo usar a mesma técnica de cenários digitais de Sin City e baseando-se em obra do mesmo autor, meu medo é que o cara caia no mesmo tipo de bobeira em que o Robert Rodriguez caiu, na minha opinião, que é a imbecilizante proposta de “tradução para a tela” do que está nas HQs.

Em Sin City, a idéia realmente funciona em termos visuais, de enquadramento, mas falha horrivelmente quanto ao ritmo. A impressão que tenho é que, tanto na tentativa de espremer em duas horas três tramas diferentes quanto pela falaciosa idéia de transpor fielmente a HQ para o cinema, o andamento das histórias fica rápido demais, entulhado, freneticamente burro. Com meia hora de filme já sentia meu cérebro dormente.

Algo que não acontece nas HQs por uma particularidade do meio: o tempo da história é controlado pelo leitor. O ato de folhear a página na revista obedece à necessidade de quem lê. Claro que essa necessidade parte de um estímulo: o bom autor (e Miller é) sabe lidar com as espectativas do leitor e contrapõe páginas agitadas, cheias de ação narrativa, a outras de contemplação, com painéis de página inteira.

Sin City, a graphic novel, funciona tão bem porque há, entre coisas como o fabuloso clima noir sem tons de cinza e os personagens deliciosamente irreais (elementos presentes no filme), essa equação entre ação e contemplação, que é justamente o que não banaliza as histórias.

Espero que o Zack Wylder deixe de lado essa bobagem do Rodriguez e adapte com boa infidelidade o material do Miller.

September 29, 2005

level up

No início dos jogos de RPG, a idéia era simular uma realidade de fantasia a partir de regras sociais cotidianas. Hoje em dia, parece que é o contrário. As pessoas continuam adquirindo experiência, mas só faltam contabilizá-la por pontos. Você deve se enquadrar em determinado perfil para ser sistematizado e absorvido com mais facilidade pelo jogo. Deve fazer “contatos”: mais ou menos como naquelas fases dos RPGs em que você tem que falar com todos os personagens da tela porque os programadores decidiram que é esse o gatilho para determinado evento mais relevante. Também possuem habilidades (menos fabulosas do que dotar suas flechas com poder congelante etc). Deve ser esse o futuro: relações cada vez mais mediadas pela tecnologia (e não pelo corpo) e definidas por designers de jogos e sistemas de informação.

September 25, 2005

teólogos não sabem nada sobre minha alma

É maravilhoso como, prestando um pouco de atenção, é possível reconhecer padrões ocultos perdidos no ar (preciso ler o tal livro do William Gibson, aliás).

Em uma longa conversa com uma amiga Bianca, uma das pessoas que mais amo nesse planeta, falamos sobre como é importante termos paixões na vida - seja por outras pessoas como por atividades, artes etc; mais tarde, eu lia o seguinte trecho da entrevista do Henfil:

“Eu acho que o cara tem que ser rico interiormente, gostar de fazer, no mínimo, umas seis ou sete coisas. O cara que diz: ‘Eu me realizo fazendo jornalismo’, pô, esse cara é um pobre, é um cara atrofiado.”

Horas atrás, dou de cara com o artigo sobre o fim da monogamia e um novo paradigma de relações afetivas. Tudo isso parece se ligar pra mim. Não consigo imaginar minha vida restrita a uma só paixão. Cinema, música, literatura, chocolate, HQs, instrumentos musicais, culinária italiana, tecnologia, só pra citar coisas facilmente identificáveis, são assuntos pelos quais sou apaixonado. Um tipo muito particular de poligamia: as diferentes amantes conversam entre si, criam laços de amizade, apaixonam-se mutuamente.

September 24, 2005

dona flor e seus dois maridos

Numa série de artigos da Foreign Policy que discutem conceitos que podem desaparecer nos próximos 35 anos, o que mais me chamou a atenção foi um em que Jacques Attali prevê o fim da monogamia.

“I do not believe that society will return to polygamy. Instead, we will move toward a radically new conception of sentimental and love relationships. Nothing forbids a person from being in love with a few people at the same time. Society rejects this possibility today primarily for economic reasons”

Para ele, o aumento da liberdade individual, o avanço dos métodos contraceptivos e o enfraquecimento da hipocrisia da sociedade revelarão algo que sempre esteve conosco, mas costuma ser combatido: a possibilidade de amar (no sentido romântico, imagino) mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

O que me deixou mais fascinado foi como fatores como tecnologia, política e mídia podem contribuir para acabar com um pilar aparentemente sólido da sociedade (branca e ocidental, pelo menos). Fomos orientados desde o berço a encontrar uma pessoa com quem viver o resto da vida. Cada vez mais incapazes disso, o divórcio surgiu como instrumento mais ou menos aceitável de rotatividade nos relacionamentos. Mas até mesmo essa fórmula deve caminhar para o desgaste.

Como serão as canções românticas com o fim da monogamia? Mais longas, talvez.