uma análise crítica da tv no metrô
Há algum tempo há televisores dentro dos vagões do metrô de São Paulo. São vários monitores LCD por trem, ligados o tempo todo, sincronizados na propagação muda do conteúdo da “TV Minuto” (ainda não possuem site). Numa notícia-release publicada em dezembro de 2007 no portal do Governo de SP, afirma-se que ela “informa, educa, diverte e entretém”.
Ora, permitam-me discordar, item por item.
1. “Informa”: Seria, creio, a função básica de um veículo como esse. Incrível como falham miseravelmente. Há notícias, mas geralmentes atrasadas, incompletas ou desatualizadas. Em alguns momentos, simplesmente falaciosas. Um exemplo: estudo divulgado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica afirma que 95% das músicas baixadas pela internet são ilegais. A “TV Minuto” optou por retirar a origem da afirmação e tascou: “95% das músicas baixadas na internet são ilegais” (cito de memória, mas era próximo disso). Sem a fonte da estatística, cria-se uma perspectiva enganosa. É pura desinformação. Não há desculpas para isso. Não há falta de espaço - alguns caracteres a mais resolveriam a situação; poderiam até montar a notícia em 2 frames, já que as famigeradas “dicas de saúde” geralmente tomam 3. Também não é aceitável argumentar que é da natureza do veículo ser breve e superficial. Todo veículo pretensamente jornalístico, qualquer que seja sua linha editorial, tem responsabilidade de informar corretamente.
2. “Educa”: As únicas mensagens realmente úteis que vi dizem respeito a instruções de uso do metrô e de suas instalações. As “dicas de saúde” oscilam entre a obviedade e, claro, a superficialidade incompleta do veículo. Além do mais, qualquer veículo com intenções educativas merece o fracasso.
3. “Diverte”: Apego-me ao significado “fazer esquecer, distrair a atenção” do verbo. Para os que consideram propaganda uma fonte de diversão, a “TV Minuto”, nesse ponto, alcança êxito. Até porque as propagandas não são feitas por eles e, em sua maioria, possuem muito mais poder de síntese e de transmissão de mensagem do que as notícias preparadas pela “TV Minuto”, que acha graça em noticiar o lançamento de um produto “curioso” sem se dar ao trabalho de dizer ao menos o nome do fabricante.
4. “Entretém”: Nesse ponto a “TV Minuto” se sai muito bem. Lembro-me como se fosse hoje da vez em que um velho num terno puído entusiasmou-se com a propaganda de uma peça de teatro veiculada no monitor. Sentava-me ao lado dele. Cutucou-me e disse que por 20 anos trabalhara como ator e, por coincidência, havia interpretado o personagem principal daquela mesma peça de um conhecido autor canadense. Eu, de fones de ouvido pendurado nas orelhas, ouvi a história simulando atenção. Na tela, surge uma imagem do elenco. O velho cerra os punhos e abre a boca, como se gritasse. Apontando para o monitor, sussurra, sem ar: “sou eu nessa foto!”. Olho para a tela e vejo o rosto rejuvenescido do velho na expressão do ator. “SOU EU”, o velho grita. As portas se abrem na estação Brás e o velho corre para fora do trem, corre na direção contrária da entrada dos passageiros, entre empurrões e cotoveladas, posta-se na beira da mureta da plataforma e se atira, de braços abertos em direção ao solo da praça do Largo da Concórdia. Esse fato entreteu-me bastante, graças à “TV Minuto”.
De modo geral, preferiria vagões com o mínimo possível de poluição visual. Às vezes, inadvertidamente, me pego observando os monitores de LCD e seu carrossel de imagens. Minha mente vaga; meus olhos focam-se no vazio. O apito da porta automática me traz de volta à realidade.
- delírio, surrealismo | Time: 11:23 pm (UTC+8) Comments (4)






