Apesar da fama de inacessível, o Screaming Gentlemen revela-se bastante comunicativo quando cortejado do jeito certo. O vocalista, guitarrista e compositor Scott Henderson aceitou conceder a seguinte entrevista – via Skype. Perguntado sobre a escolha, Scott mostrou um lado sensível pouco conhecido: “Achei que seria mais barato pra você, caralho”. De Chicago, onde mora, o músico falou sobre como o novo álbum, Dirty Dawns, foi recebido pelo público e discutiu os rumos da música do grupo.
generico: Acho que a primeira coisa que todo mundo pergunta pra vocês é sobre a mudança musical do primeiro disco para o segundo. Que tipo de reações vocês esperavam do público e dos críticos?
Scott Henderson: Pra falar a verdade, nem ligamos pra isso. Não gosto de fazer música como se manufaturasse um produto, seguindo normas, respeitando o consumidor, sabe, fazendo o que o público espera. Não gosto dessa postura por parte de artista nenhum. Fizemos do jeito que nos pareceu bom.
Mas você esperava algum tipo de reação?
Sim, esperava esse tipo de pergunta dos jornalistas também. (risos) Sabia que muitos fãs torceriam o nariz, mas não quero fãs tapados que gostem de nossa música sem realmente ouvi-la. O ideal é quando existe espontaneidade dos dois lados: de nós, músicos, que devem criar livremente, e do público, que, a cada disco, julga se gosta ou não. Não espero fidelidade canina de ninguém.
Imagino que tenha então certa aversão a fã-clubes.
(risos) Um pouco. Mas há muita gente inteligente ouvindo nossa banda.
Como andam as vendas dos álbuns?
Muito ruins. Nada inesperado. Mas compensamos fazendo alguns shows por aí.
Quantas guitarras destruiu esse ano?
Cara, só três… Descobri que esse tipo de hábito custa dinheiro demais. Nem todo mundo pode ser Pete Townshend, por vários motivos.
Cite alguns.
Bem, o cara realmente sabia tocar guitarra. Hoje não sei, toca mais violão do que qualquer outra coisa, o que é bem triste. Mas talvez seja um problema meu, que sente saudade do vigor e da violência dele e do Who dos anos 60 e 70. Envelhecer é uma merda.
Isso significa que os dois anos entre o primeiro disco e Dirty Dawns pesou para que a brutalidade desse espaço à psicodelia?
Depois de uma breve discussão sobre se deveríamos incluir palavrões nas letras por causa de nossos filhos, que já estão na idade de entender o que cantamos, isso só pode ser verdade. Mas essa mudança de foco não significa necessariamente enfraquecimento. Ainda saímos cheios de hematomas e cortes superficiais dos shows.
O que acha das recentes comparações com o Flaming Lips?
Porra, o sangue do Wayne Coyne [vocalista do Flaming Lips] é de mentira. Isso deveria ser levado em consideração! (risos) Adoro o som dos caras, mas todos aqueles sintetizadores não me atraem muito. Gosto da idéia de criar com elementos mínimos. No caso, bateria, baixo, voz e guitarra. Desde o início eu quis trabalhar com esses instrumentos e fazer o máximo possível com eles. Fico pelo menos três horas por dia experimentando timbres, efeitos e outros tipos de maluquice com minhas guitarras, pedais e amplificadores em casa.
Mas boa parte do rock foi feito com esses mesmos instrumentos. O Screaming Gentlemen quer realmente soar diferente de tudo? Você descobriu algum tipo de terreno inexplorado por todos os outros grupos?
Sim, é uma pretensão que gosto de admitir. A guitarra elétrica tem, o que, sessenta anos? Acho pouquíssimo tempo para desenvolver toda a capacidade de uma ferramenta tão complexa. E isso deve valer para os outros instrumentos também. Não estou dizendo que vamos fazer diferente, mas estamos conscientemente tentando inovar. Minha idéia, a princípio, é transformar a banda em uma espécie de mini-orquestra. Em algumas faixas, temos oito canais com guitarras, cada uma tocada de um jeito diferente. Quero levar isso pro palco.
Quantos músicos adicionais seriam necessários?
Uns dez, mais ou menos. Não é muito viável, mas viver também não é.
Estranho otimismo.
Pode crer que essa declaração consumiu toda minha cota semanal. (risos)
As letras do novo disco estão cada vez mais niilistas…
(interrompendo) Ah, sim. Sim.
Por quê?
Simplesmente saem assim. Sabe, gostaria muito de ver algum tipo de esperança na raça humana, mas sou diariamente desencorajado quando leio jornais ou vou ao supermercado. Quase todo dia perguntam pra alguém da banda se somos malucos ou doentes por escrevermos essas letras absurdas… Mas há duas semanas descobriram, a menos de duas quadras de onde moro, um casal que adotou uma criança só para comê-la. A princípio fiquei chocado, mas depois cheguei à conclusão que o mundo inteiro parece estar se ajustando a essa mesma freqüência de pensamento, de nível de insanidade. Não dá pra usar o termo “loucura coletiva” porque loucura é desvio, e o que temos agora parece ser a nova norma do milênio. Ninguém vai se salvar. Nem nós e nossa música. Só estou registrando o clima à minha volta.