Depois de ler o Mate-me, Por Favor, livro-reportagem-depoimento sobre o surgimento do punk, de Velvet Underground e Stooges a Sex Pistols, fica a dúvida: entre tantas drogas, onde ficava a música? É um puta livro, mas fica a impressão de que as pessoas apenas subiam no palco e faziam barulho. Tá certo que ler sobre Sid Vicious injetando heroína misturada com água de privada é morbidamente interessante, mas não é possível que só existisse destruição e auto-destruição. Os caras construiram obras, de uma forma ou outra. Ou será que Iggy Pop era “deus” apenas porque rolava sobre cacos de vidro?
Como venho enfatizando ocasionalmente, os anos 1980 foram até bem legais em termos de música. Claro que as atrocidades perduram mais tempo e causam mais discussão, mas as maravilhas continuam lá: Minutemen, Hüsker Dü, Mission of Burma, Black Flag, Bad Brains, Minor Threat, o insuperável começo de carreira do Metallica, Smiths, o Guns ‘n Roses e seu sensacional disco de estréia. E muitos outros até, que esqueço.
Mas uma banda especial era o Replacements.
The Replacements - Bastards of Young
Pena que há pouca coisa deles espalhada no You Tube. Merecia mais registros. Uma grande banda de rock, com um líder carismático e algumas das composições mais honestas e emocionantes de toda a década, como Hold My Life, Bastards of Young, Seen Your Video, Kiss Me on the Bus e muitas outras.
Os Beatles não fizeram tudo que havia para ser feito no rock. Isso seria impraticável em termos quantitativos. Eles esgotaram, sim, as formas de reformular e recombinar o rock, seja consigo mesmo ou com outros gêneros. Ou seja: ainda podem surgir novidades, mas nenhuma que os Beatles não tenham antecipado.
Por falar em Minutemen, um bom ponto de partida pra quem quer conhecer a banda é o ótimo documentário We Jam Econo - The Story of The Minutemen. Recomendo, até porque é minha banda-fetiche do momento. Os caras não só eram músicos muito acima da média, especialmente para o cenário punk-hardcore americano dos anos 80, como tinham uma postura política e estética muito pessoal.
O guitarrista, D. Boon, veio com a idéia de igualdade no som da banda e a resolveu de forma inteligente: quase nunca usava distorção ou power chords e tirava os graves e os médios da guitarra, deixando espaço livre para o baixo de Mike Watt. Cabia ao MONSTRO George Hurley costurar tudo com a bateria. O resultado era uma mistura inclassificável de punk, jazz e funk aplicada em doses ultraconcentradas - as músicas raramente passavam de 2 minutos.
O melhor exemplo é o álbum duplo Double Nickels on the Dime, clássico absoluto, com 45 faixas. Para eles, o que interessava era a essência das músicas e o fluir delas no disco. Impressionismo punk da melhor qualidade. E muito bem tocado. E criativo pra diabo.
Se a busca pela originalidade musical fosse uma longa corrida de obstáculos, o Dillinger Escape Plan estaria ligeiramente à frente, apesar de haver trombado em todas as hastes ao longo do caminho e invadido as pistas alheias, sem cerimônias e pudores. A viagem desse quinteto americano aparentemente é invadir, saquear e estuprar gêneros, incorporando tudo a uma agenda sonora própria e pessoal - o mathcore/metalcore/grindcore com incursões breves e convolutas sobre áreas diversas como o pop, o jazz e a música eletrônica, sempre com sucesso e, diabos, certa classe peculiar. Por essa verve expansionista, tal qual um Império Romano dos riffs e da quebradeira, são considerados o futuro do metal.
A turnê do Rufus Wainwright no Brasil ganhou site. Simpático, inclusive o esclarecimento de que se trata de uma “solo performance”. Confesso que não me atrai tanto, já que preferia a apresentação completa, com banda, mas pelo menos não está o olho da cara.
Como seriado, Heroes não presta. Atuações inconsistentes, trama mal surrupiada de Watchmen, falta de noção de clímax. Mas a trilha, ah, a trilha: chega a redimir o programa quase completamente ao trazer um belíssimo lado B do Wilco, Glad It’s Over (download).
Cave crooner lúgubre ou Cave roqueiro, o homem sabe o que faz. Muito bom esse Dig, Lazarus, Dig!!!, disco lançado esse mês. E excelente o bigode ostentado no clipe, mais um daqueles em que Cave canta olhando para a câmera (1, 2, 3).
Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.
O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador - um solitário e seu violão contra o mundo.
A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.
O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.
A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si - esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.
Isso é tão revolucionário, maluco, improvável e extraordinário que, ao mesmo tempo em que babo de vontade de experimentar pessoalmente, também desejo com ardor que seja um muitíssimo bem feito boato digital, tamanha a desconcertação.
A julgar pela amostra, não haveria mais limites para a manipulação sonora. Seria o esvaziamento total da performance? Ou justamente o contrário? Tendo a apostar na segunda hipótese.
Imaginem: se até hoje somos iludidos facilmente por manipulações visuais razoavelmente bem-feitas, a nanomanipulação sonora (ou sei lá que termo usar pra isso; supermanipulação?), totalmente inédita nesses termos, seria praticamente indistingüível da coisa real (real onde mais?). Como identificar o que não é manipulado, ou é manipulado em níveis “normais”, do que é ajustado com o Melodyne? (Meu deus, olhem esse nome. Sci-Fi pura, sem gelo)
E qual o papel do instrumento musical? Um periférico qualquer? Mero meio de input grosseiro? Se unirmos o sampling, o sintetizador, o emulador e o Melodyne, caixinha de fósforo pode virar bateria eletrônica…
Ao mesmo tempo, a performance ao vivo pode ganhar mais importância cultural. De cara relembro o conceito de aura dos alemães da Escola de Frankfurt, de como esse senso de importância e relevância que emana da obra artística (que supostamente se esvaiu na “era da reproductibilidade técnica”) retorna com violência na era da simulação e da manipulação digital. Seria o tira-teima, a manifestação “honesta”, sem filtros. É de se perguntar o valor que conferiremos a essas coisas no futuro próximo, ou mesmo que conferimos hoje, mas o impacto dessa performance da música sem mediação ainda está pra ser visto.
Isso sem contar no impacto criativo. Se com mash-ups a coisa já atinge misturas incríveis, com esse programa o limite é infinito. Mais do que misturas, imaginem releituras de músicas conhecidas. Joy Division todo em acordes maiores, alegres e ensolarados. O desafio de fazer a banda A fazer um cover da banda B com suas próprias músicas. É tanta possibilidade, desde as mais imbecis às mais sofisticadas, que não vale a pena gastar todos os neurônios de uma só vez. Ao que parece, gastaremos todos juntos.
Isso se não for o vaporware mais sensacional já pseudofabricado.
Outra boa descoberta dos últimos dias: Anders Parker. Entrem no MySpace do cara e ouçam Tell it to the Dust, um refrão bonito de doer. O disco homônimo, de 2004, também vale a pena.
Hoje, sou exatamente o que sonhei ser. Envelhecer, pra mim, é um objetivo, e eu juro pelo que há de mais sagrado que eu vou conseguir, e já estou conseguindo. Deus me livre de ficar eternamente jovem, e prefiro mil vezes ser bem esquecido do que mal lembrado.
Texto de 2006 do Guilherme Arantes - um dos mestres do pop brasileiro, há alguns anos meio deixado de canto, infelizmente - refletindo sobre a carreira e suas escolhas (e acasos) na vida. Dica do camarada Sttevam.
Rompendo com o pessimismo e amargura habituais no que se refere à avaliação da vida como a vivemos hoje - trânsito, armas de destruição em massa portáteis e o fim dos aperfeiçoamentos estruturais do forno microondas -, até que não estamos mal. Veja, é uma avaliação possivelmente comprometida por algum entusiasmo benigno passageiro, mas não deixa de ter alguma validade. Não estamos mal: o Palmeiras finalmente tem não apenas um, mas dois meias-armadores; tornou-se razoavelmente seguro andar pelas ruas com um CD Player portátil (ninguém quer roubar um desses mais); uma novela que mistura mutantes, vampiros, Malhação, Lost e Senhor das Moscas consegue manter-se no ar, gerar seu desdobramento em uma temporada adicional, abalar a liderança de audiência na Globo e prover material para piadas irresistivelmente idiotas, tudo ao mesmo tempo. Citei apenas uma amostra de sinais positivos, aleatoriamente.
E tem o Neal Casal.
Músico obscuro mesmo em seu país de origem, é mais conhecido por tocar guitarra na banda de apoio do Ryan Adams, o Cardinals. É o Richie Sambora do Ryan Adams, numa comparação propositalmente babaca. A diferença é que, por acaso, o Neal Casal é melhor músico e compositor que o Ryan Adams. E lança discos mais consistentes. E parece prescindir de uma fama de bad boy desbocado para justificar sua presença no mundo.
Tomemos seu disco de 2006, por exemplo, No Wish To Reminisce (download). É o equivalente masculino a The Forgotten Arm, da Aimee Mann, de 2005: disco alt-country/folk/rock/pop perfeito, timbragem quente, letras simples, refrões de derreter os glóbulos vermelhos nas artérias. Do tipo que se tornaria fóssil numa prateleira, mas circula silenciosamente pela internet, como um boato implausível.
Não diga que uma época que permite esse tipo de achado não tem algo de irreparavelmente bom.
Pensei que nunca ia dizer isso, mas esse último disco do Springsteen, Magic, é sensacional. Na minha cabeça, entra na mesma categoria de rock de arena do U2, mas sem o The Edge enchendo nossa cabeça com harmônicos encharcados em delay e reverb. Fora que respeito qualquer um que empunhe uma Telecaster.
Em contraponto, o camarada Hieronymous T. Poopsnatch faz uma análise mais ponderada em sua resenha no RateYourMusic:
A return to form….or formula, however you want to put it, depending on your relative affinity for cheesy, phony, overemotive vocals, canned arrangements, production that’s engineered within an inch of its life, and lyrics that crossed the line of self-parody long ago, then stepped back and took a shit on it.
No Banana Mecânica, site de música que ajudo a editar, fizemos uma modesta lista com os cinco melhores álbuns nacionais do ano. Claro, melhores dentro da cena que cobrimos - música alternativa (não lembro mais a que…), independente, “independente”, dependente mas gente fina etc.
A lista foi quase idêntica à minha própria, que só substitui Lucy and the Popsonics por Menino Canta Menina, do Instiga, de Campinas. E com menção honrosa para o Los Porongas, banda do Acre.
Pessoalmente, fiquei bastante satisfeito com a safra de bons discos desse ano. Muitas boas estréias, coisas promissoras surgindo. Ano que vem o ritmo deve se manter, com o primeiro do Bazar Pamplona (citação patrocinada pelo Rafael Capanema), o novo do Numismata (vi algumas novas músicas no show, são sensacionais) e, com sorte, um retorno dos Abimonistas.
Na pilha dos álbuns internacionais, não me preocupei em acompanhar os lançamentos, só os artistas queridos de sempre. O Sky Blue Sky, do Wilco, foi o preferido do ano por motivos puramente afetivos. É a melhor banda do mundo e o disco é praticamente perfeito. Gostei bastante do Wincing the Night Away, do Shins, apesar de ainda preferir o Oh, Inverted World. New Moon, do Elliott Smith, foi uma das grandes surpresas - um disco póstumo de sobras de estúdio que não perde em qualidade para o resto da discografia do cara. Coisa fina.
O Neon Bible, do Arcade Fire, não chamou minha atenção quando saiu e só fui ouvi-lo com atenção há uma semana. E é maravilhoso. Assim como All Hour Cymbals, do Yeasayer, grande banda que não conhecia, lembra um pouco o TV on the Radio (ouçam 2080). E o Midlake, de The Trials os Van Occupanther, belo disco do ano passado (ouçam Roscoe).
No mais, passei boa parte do ano chafurdando nas discografias completas do Neil Young e do Tom Waits, dois gênios absolutos, além de ouvir repetidamente o Blood on the Tracks, do Dylan, o meu favorito do homem.
A melhor apresentação ao vivo da televisão mundial: Neil Young tocando Rockin’ in the Free World no Saturday Night Live, no dia 30 de setembro de 1989.
Esse vídeo é minha droga ultimamente. Nunca falha. E é, de fato, bem histórico.
Young, pelo menos até essa época, sempre evitou aparições na televisão (algo que mudaria na década de 90, quando virou, oficialmente, “lenda do rock” e ícone aparentemente incontestável). Só o fato de ter aceito tocar no SNL já é incomum.
O velhinho ainda teve a manha de aparecer vestido de líder de gangue, com asseclas e tudo mais. O curioso é que essa formação específica - Steve Jordan na bateria, Charley Drayton no baixo e o amigo de longa data Frank ‘Poncho’ Sampedro, do Crazy Horse - só funcionou nessa única apresentação.
Há ainda a música em si. No final dos anos 80, Young saía de uma longa fase de fracassos comerciais e artísticos (trolhas como Trans e Re-ac-tor, em que ele se arriscou com vocoders e música eletrônica) e tinha acabado de perceber que andava funcionando melhor na freqüência da fúria. Rockin’ in the Free World é uma das melhores desse período, ambígua de doer, pseudo-elegia ianque que só um canadense podia fazer.
Essa apresentação no SNL é, de longe, a versão definitiva da música. Até o próprio Young acha isso. Tudo está perfeito: Steve Jordan em combustão, músicos trocando agressões entre si, dois solos completamente inviáveis, Young fugindo da câmera (esta é a versão editada; a transmissão ao vivo teve alguns planos vazios porque Young se mexia demais e saía de quadro), até os erros caem bem. Veja e chore.