July 11, 2009

nunca é fácil

Toda ilusão de caminho fácil está fadada ao fracasso. Trecho da entrevista do Gay Talese na Paris Review:

INTERVIEWER
Why did you choose journalism as a major?

TALESE
The main reason was that it seemed like the easiest thing to do.

Aí você topa com o rascunho de “Frank Sinatra Está Resfriado”, sua reportagem mais conhecida e um clássico incontestável das faculdades de jornalismo:


Clique para ver maior

INTERVIEWER
Did you write as slowly and carefully then as you do now?

TALESE
All the other reporters of my generation would come back from an assignment and be done with their piece in a half hour. For the rest of the afternoon they’d be reading books or playing cards or drinking coffee in the cafeteria, and I was always very much alone. I didn’t carry on conversations during those hours. I just wanted to make my article perfect, or as good as I could get it. So I rewrote and rewrote, feeling that I needed every minute of the working day to improve my work. I did this because I didn’t believe that it was just journalism, thrown away the next day with the trash. I always had a sense of tomorrow. I never turned in anything more than two minutes before deadline. It was never easy, I felt I had only one chance.

March 16, 2008

filtro #1

Her cell phone is ringing, but the display is turned off. She lightly pushes a small dot on the skin on her left forearm to suddenly reveal a two by four inch tattoo with the image of the cell phone’s digital display, directly in the skin of her arm.
A tatuagem digital

When the right hemisphere of the brain, the seat of emotion, is stimulated in the cerebral region presumed to control notions of self, and then the left hemisphere, the seat of language, is called upon to make sense of this nonexistent entity, the mind generates a “sensed presence”.
A simulação de Deus

Looking down at the application, it blurred in front of my eyes. Could I really do this? Could I really become a — a car salesman? Me, a law abiding middle-aged American. A — gasp — college graduate (well, barely). A writer. A person sometimes described as soft spoken and reserved? Why was I applying for a job in one of the most loathed professions in our society?
Na pele de um vendedor de carros

Crumb é um tímido rematado que se encurva, magro, se esconde atrás dos óculos e tem ar de quem conheceu mais pessoas do que teria desejado. Mais tarde, à mesa de um restaurante vietnamita da cidadezinha vizinha, ele explica: “Não vejo que interesse há em falar comigo. É muito melhor falar com Aline. Me perguntam: “Por que vocês se mudaram para a França?”. E eu digo: “Não sei. Aline, por que o fizemos?’”.
Visita a Crumbland (só p/ assinantes folha/uol)

June 16, 2007

debaixo das ações judiciais dos seus cabelos

A falsa polêmica sobre o livro do Robertão (falsa, na verdade, até a entrada do Paulo Coelho no meio, isso sim lance inesperado e interessante) teve o desfecho adequado: o livro some, fica a fama ao autor, pesquisador competente (não muito mais que isso) e escritor sofrível. Li que agora ele dá aulas-show (!), contando histórias do livro. À la Suassuna. Fora o constrangimento inicial, se deu muito melhor do que qualquer prognóstico.

Só me incomodou o efeito visual, digamos, da cena toda. Pareceu que o autor, com sua excelência, atingiu profundezas abissais da história do Rei e, portanto, incomodou o biografado, mexeu em feridas antigas e obscuríssimas etc. Como sabem os que leram, não é o caso. É puro transtorno financeiro e conceitual por parte do Rei, que lançou uma provocação interessante: se a vida é minha, porque devo deixar outro cara lucrar com ela? Que lucre eu, que posso (ou não) escrever sobre o que vivi, eventualmente. Afinal, o concreto da obra é produção alheia, o autor só transporta os carrinhos e preenche o molde. Hmm.

Pra mim, Robertão mataria a questão de outra forma: convocar a imprensa, dizer, “é, os fatos estão oquei, mas eita livrinho mal escrito, hein? Comprem por seu próprio risco.” Pronto.

December 24, 2006

tudo vai mal

Após avançar um terço de Roberto Carlos em Detalhes, do Paulo Cesar de Araújo, algumas impressões:

1 - Um dos livros mais mal editados graficamente que já tive em mãos, considerando a importância do lançamento e o tamanho da editora (a espanhola Planeta). Além do tamanho ser incômodo (21 cm x 28 cm), a opção de diagramação em duas colunas é estranha. Sem contar a capa, de causar sobressaltos e taquicardia de tão medonha;

2 - O cuidado com as fotos é mínimo. Além de poucas e visivelmente mal escolhidas, não têm identificada a data. Para completar o horror, trazem legendas risíveis, como “Roberto Carlos olhando além do horizonte”;

3 - Como obra que se pretende referencial sobre o Roberto Carlos, é triste ver que sonega a discografia do artista. Seria bacana ver uma lista completa de tudo que o cara lançou, das músicas que gravou, de quem compôs qual etc;

4 - Suspeito que o livro foi editado na pressa de aproveitar o final de ano, principalmente por acompanhar o lançamento do novo disco do RC e a exibição do especial de fim de ano. Não traz um índice onomástico, por exemplo, que seria bem útil. Além disso, o texto contém erros de português (p. 127: “Certa vez, Manoel Carlos pediu Cauby Peixoto e Ângela Maria para cantarem…”), repetições e muitos clichês (o “não precisou pedir duas vezes”, em particular, irrita muito);

5 - É até engraçado que RC venha condenar o livro. O autor é claramente partidário do cantor. Mais do que isso, adota um tom mitificador em vários trechos, com banalidades do tipo “E fulano de tal nunca imaginaria que estava diante daquele que se tornaria o maior artista popular da história do país” etc.

6 - Apesar de tudo, é a história do Rei, e Araújo, apesar de narrador de eficiência inconstante, dá conta do recado. Persistirei.

February 13, 2006

sacrilégio

O Ocidente é apaixonadamente comprometido com seu valor de liberdade de expressão e os países islâmicos são apaixonadamente comprometidos com seu conceito de sagrado. Não há formas de mediar essa contradição e encontrar uma solução.

O historiador Robert Darnton resume o conflito simbolizado pela polêmica sobre as charges de Maomé, em entrevista ao caderno Mais!, na Folha de ontem.

(Link só para assinantes UOL)

December 15, 2005

primeiro mundo

Na Inglaterra, uma rede de bancos resolve de forma simples o problema das reclamações dos clientes pela espera nas filas: tirando os relógios das paredes das agências.

Mas a explicação oficial é que, depois de pesquisa, descobriram que os clientes acham que relógios não “aprimoram a experiência bancária”.

(Via BoingBoing)

October 30, 2005

loverbots

Fuckzilla, Orgasmo e Hide-a-Cock são os nomes de algumas engenhocas projetadas para sexo. Com certeza, embriões dos robôs-amantes vistos em A.I.

October 20, 2005

realidade e ilusão

Guilherme tem toda a razão: essa entrevista com Wayne Shorter está imperdível.

October 8, 2005

“ninguém vai se salvar”

Scott Henderson, guitarrista e vocalista do Screaming GentlemenApesar da fama de inacessível, o Screaming Gentlemen revela-se bastante comunicativo quando cortejado do jeito certo. O vocalista, guitarrista e compositor Scott Henderson aceitou conceder a seguinte entrevista – via Skype. Perguntado sobre a escolha, Scott mostrou um lado sensível pouco conhecido: “Achei que seria mais barato pra você, caralho”. De Chicago, onde mora, o músico falou sobre como o novo álbum, Dirty Dawns, foi recebido pelo público e discutiu os rumos da música do grupo.

generico: Acho que a primeira coisa que todo mundo pergunta pra vocês é sobre a mudança musical do primeiro disco para o segundo. Que tipo de reações vocês esperavam do público e dos críticos?
Scott Henderson: Pra falar a verdade, nem ligamos pra isso. Não gosto de fazer música como se manufaturasse um produto, seguindo normas, respeitando o consumidor, sabe, fazendo o que o público espera. Não gosto dessa postura por parte de artista nenhum. Fizemos do jeito que nos pareceu bom.

Mas você esperava algum tipo de reação?
Sim, esperava esse tipo de pergunta dos jornalistas também. (risos) Sabia que muitos fãs torceriam o nariz, mas não quero fãs tapados que gostem de nossa música sem realmente ouvi-la. O ideal é quando existe espontaneidade dos dois lados: de nós, músicos, que devem criar livremente, e do público, que, a cada disco, julga se gosta ou não. Não espero fidelidade canina de ninguém.

Imagino que tenha então certa aversão a fã-clubes.
(risos) Um pouco. Mas há muita gente inteligente ouvindo nossa banda.

Como andam as vendas dos álbuns?
Muito ruins. Nada inesperado. Mas compensamos fazendo alguns shows por aí.

Quantas guitarras destruiu esse ano?
Cara, só três… Descobri que esse tipo de hábito custa dinheiro demais. Nem todo mundo pode ser Pete Townshend, por vários motivos.

Cite alguns.
Bem, o cara realmente sabia tocar guitarra. Hoje não sei, toca mais violão do que qualquer outra coisa, o que é bem triste. Mas talvez seja um problema meu, que sente saudade do vigor e da violência dele e do Who dos anos 60 e 70. Envelhecer é uma merda.

Isso significa que os dois anos entre o primeiro disco e Dirty Dawns pesou para que a brutalidade desse espaço à psicodelia?
Depois de uma breve discussão sobre se deveríamos incluir palavrões nas letras por causa de nossos filhos, que já estão na idade de entender o que cantamos, isso só pode ser verdade. Mas essa mudança de foco não significa necessariamente enfraquecimento. Ainda saímos cheios de hematomas e cortes superficiais dos shows.

O que acha das recentes comparações com o Flaming Lips?
Porra, o sangue do Wayne Coyne [vocalista do Flaming Lips] é de mentira. Isso deveria ser levado em consideração! (risos) Adoro o som dos caras, mas todos aqueles sintetizadores não me atraem muito. Gosto da idéia de criar com elementos mínimos. No caso, bateria, baixo, voz e guitarra. Desde o início eu quis trabalhar com esses instrumentos e fazer o máximo possível com eles. Fico pelo menos três horas por dia experimentando timbres, efeitos e outros tipos de maluquice com minhas guitarras, pedais e amplificadores em casa.

Mas boa parte do rock foi feito com esses mesmos instrumentos. O Screaming Gentlemen quer realmente soar diferente de tudo? Você descobriu algum tipo de terreno inexplorado por todos os outros grupos?
Sim, é uma pretensão que gosto de admitir. A guitarra elétrica tem, o que, sessenta anos? Acho pouquíssimo tempo para desenvolver toda a capacidade de uma ferramenta tão complexa. E isso deve valer para os outros instrumentos também. Não estou dizendo que vamos fazer diferente, mas estamos conscientemente tentando inovar. Minha idéia, a princípio, é transformar a banda em uma espécie de mini-orquestra. Em algumas faixas, temos oito canais com guitarras, cada uma tocada de um jeito diferente. Quero levar isso pro palco.

Quantos músicos adicionais seriam necessários?
Uns dez, mais ou menos. Não é muito viável, mas viver também não é.

Estranho otimismo.
Pode crer que essa declaração consumiu toda minha cota semanal. (risos)

As letras do novo disco estão cada vez mais niilistas…
(interrompendo) Ah, sim. Sim.

Por quê?
Simplesmente saem assim. Sabe, gostaria muito de ver algum tipo de esperança na raça humana, mas sou diariamente desencorajado quando leio jornais ou vou ao supermercado. Quase todo dia perguntam pra alguém da banda se somos malucos ou doentes por escrevermos essas letras absurdas… Mas há duas semanas descobriram, a menos de duas quadras de onde moro, um casal que adotou uma criança só para comê-la. A princípio fiquei chocado, mas depois cheguei à conclusão que o mundo inteiro parece estar se ajustando a essa mesma freqüência de pensamento, de nível de insanidade. Não dá pra usar o termo “loucura coletiva” porque loucura é desvio, e o que temos agora parece ser a nova norma do milênio. Ninguém vai se salvar. Nem nós e nossa música. Só estou registrando o clima à minha volta.

September 24, 2005

q&a

Este blog recomenda: As 30 Melhores Entrevistas de Playboy, edição especial de título auto-explicativo. Ainda não li tudo, mas só pela entrevista do Henfil já vale os 29,95 investidos. Conversas longas e interessantes com personagens fantásticos como Marlon Brando, Henry Miller, Tom Jobim, Tim Maia e Mohammed Ali.

dona flor e seus dois maridos

Numa série de artigos da Foreign Policy que discutem conceitos que podem desaparecer nos próximos 35 anos, o que mais me chamou a atenção foi um em que Jacques Attali prevê o fim da monogamia.

“I do not believe that society will return to polygamy. Instead, we will move toward a radically new conception of sentimental and love relationships. Nothing forbids a person from being in love with a few people at the same time. Society rejects this possibility today primarily for economic reasons”

Para ele, o aumento da liberdade individual, o avanço dos métodos contraceptivos e o enfraquecimento da hipocrisia da sociedade revelarão algo que sempre esteve conosco, mas costuma ser combatido: a possibilidade de amar (no sentido romântico, imagino) mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

O que me deixou mais fascinado foi como fatores como tecnologia, política e mídia podem contribuir para acabar com um pilar aparentemente sólido da sociedade (branca e ocidental, pelo menos). Fomos orientados desde o berço a encontrar uma pessoa com quem viver o resto da vida. Cada vez mais incapazes disso, o divórcio surgiu como instrumento mais ou menos aceitável de rotatividade nos relacionamentos. Mas até mesmo essa fórmula deve caminhar para o desgaste.

Como serão as canções românticas com o fim da monogamia? Mais longas, talvez.