May 24, 2008

paranoid indiana


Spoilers adiante.

Como a maioria dos filmes do Spielberg, esse Indiana Jones e a Caveira de Cristal consegue ser ao mesmo tempo um blockbuster inquestionável e colossal em termos de marketing e finanças (paremos para imaginar quantas árvores são derrubadas apenas para imprimir os milhões de tíquetes de entrada desse filme…; agora paremos de imaginar tal baboseira que não leva a lugar nenhum), mas também uma obra absolutamente contaminada pelos tempos atuais. Ou propositalmente pensada para refleti-los, o que for mais próximo da sua crença religiosa.

No caso do Indiana, a carga de propósito me parece bem maior do que nos episódios anteriores. Aqui, o “ladrão de tumbas” cai de cabeça no maior sintoma dos tempos modernos: a paranóia.

Ela está em todos os cantos do filme, algumas vezes travestida de anacronismo, outras, de metáfora contemporânea. Está tudo lá: o medo do comunismo, versão atualizada do “mal estrangeiro” que nos filmes anteriores foram o nazismo e um culto maluco indiano, mas que numa 15ª versão pode vir a se tornar o extremismo islâmico; a paranóia nuclear, ou da destruição do mundo, revista hoje sob a forma das mudanças climáticas; a paranóia da informação, tanto o medo da falta como do excesso (que, no filme, mata). Fora os aliens, que não deixam de ser uma mistura disso tudo, acrescido do charme intergalático.

Pra mim, mais importante do que o tema da paranóia é a sensação dela. Tudo razoavelmente subterrâneo, apenas o suficiente para sintonizar-se com a frequência do público atual, muito diferente daquele de 20 anos atrás.

O que permanece mais ou menos intacta é a moldura da série, a forma como Spielberg encaixa as mesmas peças cheias de pó. A história, particularmente, não significa muita coisa. Na verdade, parece francamente material de segunda linha, escolhido porque, de tão genérico, poderia ser moldado mais facilmente às necessidades de um Retorno depois de 20 anos, com todas as implicações de envelhecimento de elenco e personagens inclusos.

Coube a Spielberg um trabalho aparentemente não tão difícil para um gênio como ele - filmar com a linguagem e os elementos consagrados dos filmes anteriores. O uso do movimento da câmera para revelar perigos e surpresas, o diálogo canastrão, a preservação dos ícones - o chicote e o chapéu, os personagens abraçando a contragosto caveiras, as teias de aranha iluminadas por tochas, os insetos de tamanho assustador. O homem sabe fazer tudo isso sem precisar olhar no monitor.

Como parte integrante da série, esse episódio dá conta do recado. Mas a contribuição maior foi atualizar a viabilidade do personagem e de seu universo. É bom saber que o chapéu continua com Indiana.

May 10, 2008

síndrome de macgyver

Guardo coisas guiado por um senso meio inconsciente de que posso precisar delas, no futuro, de formas não-convencionais. Aquele plástico com fio de alumínio dentro, usado para fechar sacos de pão de forma; fichas telefônicas de 1984; chaves de fenda com a ponta desgastada; sacos plásticos de lojas diversas e de materiais e formatos diversos; cabos incompatíveis com qualquer aparelho que possuo em casa. É um impulso que sempre tenho, de dispensar ferramentas corretas e preferir as improvisadas, como abrir o pacote de sedex com a haste da tampa da caneta, ou usar um clipe de papel dobrado no lugar de uma chave de fenda. Até misturo objetos aleatórios na tentativa de criar um terceiro objeto potencialmente útil, com resultados variados.

Talvez seja apenas um treinamento para a vida pós-civilização.

April 26, 2008

a la kinks

Sem amplificador, guitarra com parte elétrica em dia nem pedais, comecei a plugar o violão elétrico na entrada de microfone do aparelho de som, que já não serve pra quase nada há alguns anos. Descobri que combinando o volume de entrada no som com o equalizador do violão dá pra tirar um som MANEIRO. Como não tenho interesse em obter tons limpos, já que para isso basta tocar desplugado (é um violão folk, ele foi feito pra isso), percebi que o volume de entrada servia como controle de ganho e que qualquer coisa acima de 20% significa um overdrive de respeito. Daí, tirando os graves do violão e estourando os médios e agudos, o bicho começa a emitir um rugido PRIMAL e absolutamente porco, o suficiente para tocar Search & Destroy, do Stooges, sem me sentir um completo idiota. Ou seja: estragarei as caixas de som num tempo menor, mas atormentarei os vizinhos com mais propriedade.

April 20, 2008

sobre o abandono

Entro no metrô Vila Madalena às 0h55 do domingo, cinco minutos antes do encerramento de suas operações de sábado. Além de mim, não há ninguém na plataforma. Desço no Paraíso e não vejo alma viva na estação. Nerd ligeiramente bêbado se anima com pouco, e me animo. A plataforma vazia. Cenário do pós-apocalipse, uma das imagens que mais me divertem. Não só a mim; todo mundo que viu Extermínio ou Dia dos Mortos lembra em detalhes das cenas das ruas vazias.

Óbvio que o cenário de desolação e vazio em São Paulo justifica-se com poucas informações a título de contextualização: é um final de semana atípico, enxertado num feriado de segunda, e o horário, no metrô, é notadamente incomum; funciona uns 45 minutos a mais no sábado, fato talvez pouco conhecido. Além do mais, madrugadas são tipicamente desertas. Não há surpresa nisso.

A plataforma vazia, no entanto, tem um charme indiscutível. É o fascínio pelo abandono da cidade. Abandono pressupõe rompimento de relação de posse ou controle. É justamente isso. A cidade abandonada é a cidade sem seus criadores, os homens. É a metáfora da ausência de Deus. Por que perturba? Talvez porque sintamos com mais essa ausência, provavelmente verdadeira…

Seria a experiência religiosa simplesmente a necessidade de presença? De companhia no mundo. Se sim, Deus torna-se contingência. E criação humana, como as cidades.

Ah, vou dormir.

April 17, 2008

o despertar do otimismo

Sempre me supus um pessimista, mas esse conceito caiu por terra após duas demonstrações óbvias de fé na raça humana: na primeira, convenci-me a assistir Alien x Predador 2 imaginando se tratar de um bom filme ruim. Para meu infinito desgosto, é apenas ruim. Digo, ruim de deixar marcas no caráter da pessoa, fazer as glândulas lacrimais verterem Cynar, obliterar o paladar por uma semana.

Dias depois, resolvi conceder uma segunda chance ao St. Anger, disco mais massacrado do Metallica. Não sei dizer porque. Deve ser aí que entra em jogo o otimismo; irracional, cego e sem conhecimento de história (fadado a repetí-la). A crença de que não apenas as coisas em si podem mudar para melhor, mas também nossa percepção delas.

Claro que o disco permanece completamente inaudível.

Respirei fundo e pensei comigo: “tudo bem, é só dessa vez. Devo conseguir evitar o otimismo pro resto da vida.”

April 14, 2008

perfis de amigos imaginários II

Quando Almir me levou pela primeira vez a seu local de trabalho, eu estava vendado havia cerca de duas horas. É medida de segurança, dizia ele de dez em dez minutos, sempre cantarolando alguma música do Art Popular. Eu cantarolava junto, ou dizia, eu sei que é na Zona Leste, porra, mas ele repetia. É por medida de segurança. Tudo bem. Até parece que o amor não deu… E íamos.

Quando o carro finalmente parou e pude abrir os olhos, estávamos num grande galpão coberto com telhas de alumínio e impregnado de cheiro de lingüiça assada. Os colegas de Almir faziam um churrasco sem trilha sonora, andando como zumbis em torno da churrasqueira, com copos de plástico na mão. Ninguém falava muito. Olhei para o centro do galpão. Erguido sobre uma dezena de cavaletes de metal, estava um vagão do metrô.

A parte mais difícil é trazer pra cá, depois é mais fácil de desmontar que um Corsa, informou-me Almir, antecipando a pergunta óbvia. O desmanche de vagões de metrô era um negócio em plena expansão, ele me disse. A demanda era alta e a oferta, diminuta.

Com um aparelho parecido com uma furadeira, mas com ponta de chave allen, ele desparafusou a moldura de metal em volta de uma porta do vagão. Moleza, ele disse, e me passou o aparelho. Desparafusei a soleira de metal. Saiu facilmente. Almir soltou um “iha!”, como fazia sempre que dizia algo esperto ou surpreendia alguém com um gesto inesperado. Fazia isso sempre. No ponto de ônibus, abordava meninas bonitas perguntando se elas esperavam há muito tempo ali. Geralmente diziam que sim. Sem perder a deixa, assobiava para um amigo próximo, que estacionava seu Voyage 1986 azul-marinho em frente ao ponto. Oferecia à moça uma carona. “Iha!”

Perguntei sobre a cabine. Não, ele disse, nem todos têm cabine. Não operavam desse tipo, apenas os vagões comuns. Repeti minha dúvida sobre como eles traziam o vagão até o galpão.

Essa informação é justamente o que diferencia a gente dos desmanches comuns, ele repondeu, dando a entender que era um pedaço de conhecimento valioso demais para ser discutido. Mesmo entre amigos. O que éramos, apesar das surras que eventualmente me aplicava no primário. A primeira vez que o atingi com uma cotovelada no queixo, ele deixou de me agredir por qualquer motivo. Passamos a nos esmurrar sem motivo, por diversão. Foi nessa época que me disse ter roubado o primeiro carro. Condenei a atitude apenas uma vez, e depois perguntei como era que se fazia. Várias formas, ele disse, mas prefiro usar o ferrinho. Fazia com que se sentisse hábil em alguma coisa, notei. Nunca o encorajei, mas vez ou outra perguntava sobre seu balanço mensal.

Nunca ouvi falar sobre roubos de vagões de metrô, informei-lhe. Ele coçou a cabeça cheia de cabelos pretos e enrolados como porcas e disse, sorrindo: é bom mesmo que não, notícia assim não beneficia ninguém. Concordei com sua lógica. Ele apontou para a churrasqueira e disse, pega lá.

Antes de ir embora, tirou do bolso uma daquelas plaquinhas que ficam rebitadas nas portas do metrô, com o bonequinho e o aviso para que se mantenha a mão longe da porta. “Iha!” Pus a venda por conta própria e entrei no carro.

April 9, 2008

perfis de amigos imaginários I

Marcelina gosta de ler, e de fato lê muito. Empresta de diversos amigos, mesmo de uns poucos conhecidos do trabalho, e rapidamente devolve, sem discutir seu conteúdo ou dizer se apreciou o que leu. Ela própria, contudo, não possui nenhum volume, com exceção de um. Não sei o título. Cobriu a capa com plástico preto e raramente o deixa fora da bolsa. Por cima de seu ombro, vejo blocos de texto, talvez dois ou três numa página, sem vincos de travessões. Ela percebe minha presença e o fecha. Descarto a hipótese de poesia, embora ela declame um ou outro Drummond, sempre de cabeça e de forma desorganizada, misturando versos de poemas diferentes e criando imagens únicas. Raramente fazem sentido, e ela sorri com maior intensidade à medida que o absurdo é contemplado.

Sem jeito, pergunto do livro. Seu título, seu autor, seu conteúdo. Ela coça o canto dos lábios planos de seriedade com a ponta da unha negra e começa a contar uma história. Aos 15 anos, sua vizinha em Santos, onde morava, disse ter descoberto o Diabo no guarda-roupas. Marcelina, cínica mas curiosa, vai comprovar a informação. Ao abrir o guarda-roupas, vê o Diabo. Diferente de suas expectativas, parece um boneco feito com cinco pedaços de carvão, sem rosto, boca, rabo, olhos, dedos, orelha ou qualquer outro traço que lhe confira fisionomia. Também não carrega um tridente. Move-se lentamente, em gestos que causariam impressão de ameaçadores, não fossem feitos por tocos de carvão. Marcelina esfrega os dedos no Diabo e suja as pontas. Limpa a mão no vestido e pergunta ao Diabo se ele é mau como se costuma ouvir. A amiga responde que não. O toco de carvão acena com um movimento do tronco, como se confirmasse a informação. O aceno demora cerca meio minuto. Contrariando sua natureza, Marcelina aceita a resposta oferecida e faz um pedido ao Diabo. Neste ponto, Marcelina diz que o conteúdo do pedido está diretamente ligado ao livro que carrega, e que não pode revelá-lo. Estica o braço, aperta meu ombro, diz que está atrasada e vai embora.

Dois meses depois, numa mesa de bar na Augusta, exijo a continuação da história. Digo que perdi algumas noites de sono por causa dela. Alguns mistérios, mesmo inexistentes, merecem resolução. Ela diz que o Diabo, vil, mas receoso em ser demasiadamente mau e chamar atenção desnecessária para sua existência terrena em forma de carvão, concedeu-lhe o pedido com pequenas ressalvas. Uma, a de que não revelaria o conteúdo do livro a ninguém. Outra, que nunca possuísse livro algum além daquele.

As condições, inicialmente prosaicas aos olhos de Marcelina, começaram a lhe causar angústia após alguns anos. Lia tudo com pressa, de pé nas livrarias ou bancas de jornal, e amaldiçoava exemplares selados com plástico. Sem poder possuí-los, devorava sem digestão. Citava frases e parágrafos mas não conseguia contextualizar idéias. Discutia com facilidade apenas aspectos de sua vida diária ou experiências pessoais. Era divertida e inteligente, porém. Mantinha o bom humor e sabia ser agradável. Conhecemo-nos num bar da rua Augusta, falando de qualidades de tecidos.

Morre com duas facadas no pescoço ao se recusar a entregar o livro durante um assalto na Praça da República.

March 30, 2008

a magia episódica do futebol

Uma diferença fundamental do futebol para grande parte dos outros esportes: a maioria das partidas é entediante pra diabo. E isso é excelente.

Diferente do basquete, por exemplo, em que todas partidas são um espetáculo de indução à dormência pelo seguido virar do placar, o futebol investe na potência do clímax. É como a questão da compressão e da dynamic range na música: cada vez mais, nivelam a experiência e jogam fora a nuance. Sem silêncio não há como apreciar o refrão emotivo e catártico. No futebol, há justamente esse senso de nuance.

A maioria dos jogos não é lá muito digna de nota. Mas quando há um jogo realmente bom, os entusiastas rapidamente o reconhecem como tal. E falam sobre ele, e discutem minúcias, e reproduzem jogadas com as mãos e os pés. O extraordinário se destaca. Resta a nós agradecer pelo jogo de canela e pelo beque pedreiro, nossos instrumentos de calibragem da alegria.

March 23, 2008

OI MAE TO NA RAMPS RS

Enfim, o que faltava na internets: LULALOL.

March 22, 2008

seis cordas

Resolvi trocar de violão.

Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.

O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador - um solitário e seu violão contra o mundo.

A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.

O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.

A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si - esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.

A caça começa em abril.

March 15, 2008

feijoada completa

O almoço solitário não ajuda o estômago - acabo comendo rápido demais, o pensamento correndo atrás do próprio rabo, o pedaço mal mastigado goela abaixo - mas é um dos melhores momentos para observação das pessoas ao redor. O João Ubaldo Ribeiro diz que adora. Mas gostamos por motivos diferentes, provavelmente. Enquanto ele busca as histórias, eu fico mais interessado nos gestos. As pequenas coisas que separam o homem de um animal sem graça, como o girafa (a vida besta lá em cima).

A forma de organizar o prato, por exemplo. É um dos gestos com mais significado pois mistura tudo: a cultura, a fisiologia, o instinto, a psique (ou desejo). Poucas coisas são tão pessoais. E, ao mesmo tempo, num refeitório ou restaurante, é algo aberto, à mostra. E dá-lhe conversa, piscadela, piada, olhar atravessado por sobre o bife, alface no dente, soluço contido com esforço.

Ah, terráqueos.

March 11, 2008

neal casal para presidente, obama para vice


Neal Casal, sintoma positivo do século XXI

Rompendo com o pessimismo e amargura habituais no que se refere à avaliação da vida como a vivemos hoje - trânsito, armas de destruição em massa portáteis e o fim dos aperfeiçoamentos estruturais do forno microondas -, até que não estamos mal. Veja, é uma avaliação possivelmente comprometida por algum entusiasmo benigno passageiro, mas não deixa de ter alguma validade. Não estamos mal: o Palmeiras finalmente tem não apenas um, mas dois meias-armadores; tornou-se razoavelmente seguro andar pelas ruas com um CD Player portátil (ninguém quer roubar um desses mais); uma novela que mistura mutantes, vampiros, Malhação, Lost e Senhor das Moscas consegue manter-se no ar, gerar seu desdobramento em uma temporada adicional, abalar a liderança de audiência na Globo e prover material para piadas irresistivelmente idiotas, tudo ao mesmo tempo. Citei apenas uma amostra de sinais positivos, aleatoriamente.

E tem o Neal Casal.

Músico obscuro mesmo em seu país de origem, é mais conhecido por tocar guitarra na banda de apoio do Ryan Adams, o Cardinals. É o Richie Sambora do Ryan Adams, numa comparação propositalmente babaca. A diferença é que, por acaso, o Neal Casal é melhor músico e compositor que o Ryan Adams. E lança discos mais consistentes. E parece prescindir de uma fama de bad boy desbocado para justificar sua presença no mundo.

Tomemos seu disco de 2006, por exemplo, No Wish To Reminisce (download). É o equivalente masculino a The Forgotten Arm, da Aimee Mann, de 2005: disco alt-country/folk/rock/pop perfeito, timbragem quente, letras simples, refrões de derreter os glóbulos vermelhos nas artérias. Do tipo que se tornaria fóssil numa prateleira, mas circula silenciosamente pela internet, como um boato implausível.

Não diga que uma época que permite esse tipo de achado não tem algo de irreparavelmente bom.

January 13, 2008

nem sei se nada sei, ou réplica a sócrates

“Bem informado” deixou de ter seu valor como elogio ou qualidade pessoal, posto que é uma condição tão ultrapassada quanto a taquigrafia e a pipoqueira a manivela (a qual ainda persiste unicamente por sua portabilidade, maior que a do microondas). Ninguém mais está bem informado sobre coisa alguma, já que a proporção de informação que se absorve, desde alguns anos atrás, será sempre infinitamente menor do que a totalidade disponível. Uma proporção “boa” de informação seria pelo menos metade, dizem os filósofos.

O que não é a mesma coisa que dizer que estamos mal informados. O mal informado é aquele à beira da morte, vítima da própria ignorância. É o cidadão que acende o cigarro sentado sobre um contêiner de dinamite e sorri. O verdadeiro mal informado mal consegue colocar os pés para fora de casa, visto que sua desinformação já o teria matado no caminho de volta do banheiro. Não somos mal informados, portanto.

Estaríamos apenas informados, então? No limite do necessário? Provavelmente. Como o moleque que pula dentro de uma piscina de bolinhas cheia demais e quase morre sufocado por uma de cor amarela que contém, entre outros dados, detalhes biográficos de Benazir Bhutto e nomes de conhecidos líderes da Al-Qaeda paquistanesa.

January 2, 2008

headshot


Snipercat

Em todos jogos de tiro, tipo Call of Duty, minha maior diversão é executar as missões de SNIPER.

Cê fica lá longe, pagando de Mark Wahlberg, só mirando na cabeça dos outros e sentando o dedo naquela porra [/os tropadelite]. É a coisa mais covarde do mundo.

E justamente por ser algo tão covarde que meio que tenho pesadelos com isso. Às vezes ando na Paulista olhando para as janelas dos prédios, procurando pelo reflexo da mira telescópica (pelo menos na minha paranóia os caras não são tão profissionais), me escondendo atrás de arbustos e jogando bonecos 1:1 de mim mesmo na avenida para desviar atenção (e causar acidentes).

Daí juntei essa lembrança com o artigo abaixo, sobre a descoberta de que sonhos podem ser espécie de “treinamento” do cérebro para situações de risco, e fiquei satisfeito em saber que meu cérebro, ainda que discretamente, compartilha do meu receio.

January 1, 2008

monta desmonta

Blog pra mim sempre foi brinquedo - não diário, não ferramenta, não plataforma, não trampolim, não caixa de ressonância, não megafone sem pilha, não portfólio, não experiênça, não inserção digital, não panfleto, não espelho - e hoje tava lembrando como a gente esquece de usar certos brinquedos. Brinca ali, pôe ao contrário, inventa regras, deixa de marcar os pontos, enxerta noutro brinquedo, taca na parede pra ver se quebra (quebra), monta de novo, tá errado, não funciona daquele jeito, inventa outro, esquece como era, cai atrás do sofá, acha três anos depois, aranha criou ninho dentro dele, cê acha que tá velho demais pra brincar com aquilo de novo, guarda na gaveta, pega de volta um dia ao acaso, fica tentando lembrar onde liga, que graça tinha, tem uma epifania, vai dormir, esquece o que era. Mas brinquedo nunca deixa de fazer sentido.

ponto morto

Engraçado como, por mais simbólica que seja a troca de calendário, o ciclo anual é sempre real e palpável, de curvas ascendentes e descendentes nítidas (ê mão d’homem!). Por falta de sorte e planejamento, no primeiro dia do ano a geladeira está vazia; os mercados e padarias, fechados. A esperança recai sobre algum disk-pizza com espírito capitalista. O País vai de 0 a 100 km/h em dois meses, e hoje é exatamente o zero da escala.

mensagem motivacional

Começou 2008. Vão lá e se esforcem.

December 26, 2007

estou farto

No final da tarde, na véspera do natal, o cheiro de carne assada no apartamento domina tudo, apesar de nada estar sendo preparado no fogão. É o aroma conjunto do condomínio em festa, da rua, da cidade. Diabos, de boa parte do mundo. Tudo um banquete único, o maior festival de gula do planeta.

Em réplica a essa constatação, pela primeira vez em anos não comi até passar mal, mas até ficar apenas moderadamente cheio.

November 4, 2007

citation needed

É estranhamente hipnótico ficar vendo esse mapa em tempo real das alterações da Wikipedia.

September 26, 2007

the human torch denied a bank loan

Por que William Waack sempre quer pronunciar nomes e palavras estrangeiros de forma mais precisa do que todo o resto do mundo? Há pouco, ao anunciar entrevista com o jornalista Carl Bernstein, não evitou puxar o “sh” em Bernshtein.

AM I RIGHT OR WHAT?