Quando Almir me levou pela primeira vez a seu local de trabalho, eu estava vendado havia cerca de duas horas. É medida de segurança, dizia ele de dez em dez minutos, sempre cantarolando alguma música do Art Popular. Eu cantarolava junto, ou dizia, eu sei que é na Zona Leste, porra, mas ele repetia. É por medida de segurança. Tudo bem. Até parece que o amor não deu… E íamos.
Quando o carro finalmente parou e pude abrir os olhos, estávamos num grande galpão coberto com telhas de alumínio e impregnado de cheiro de lingüiça assada. Os colegas de Almir faziam um churrasco sem trilha sonora, andando como zumbis em torno da churrasqueira, com copos de plástico na mão. Ninguém falava muito. Olhei para o centro do galpão. Erguido sobre uma dezena de cavaletes de metal, estava um vagão do metrô.
A parte mais difícil é trazer pra cá, depois é mais fácil de desmontar que um Corsa, informou-me Almir, antecipando a pergunta óbvia. O desmanche de vagões de metrô era um negócio em plena expansão, ele me disse. A demanda era alta e a oferta, diminuta.
Com um aparelho parecido com uma furadeira, mas com ponta de chave allen, ele desparafusou a moldura de metal em volta de uma porta do vagão. Moleza, ele disse, e me passou o aparelho. Desparafusei a soleira de metal. Saiu facilmente. Almir soltou um “iha!”, como fazia sempre que dizia algo esperto ou surpreendia alguém com um gesto inesperado. Fazia isso sempre. No ponto de ônibus, abordava meninas bonitas perguntando se elas esperavam há muito tempo ali. Geralmente diziam que sim. Sem perder a deixa, assobiava para um amigo próximo, que estacionava seu Voyage 1986 azul-marinho em frente ao ponto. Oferecia à moça uma carona. “Iha!”
Perguntei sobre a cabine. Não, ele disse, nem todos têm cabine. Não operavam desse tipo, apenas os vagões comuns. Repeti minha dúvida sobre como eles traziam o vagão até o galpão.
Essa informação é justamente o que diferencia a gente dos desmanches comuns, ele repondeu, dando a entender que era um pedaço de conhecimento valioso demais para ser discutido. Mesmo entre amigos. O que éramos, apesar das surras que eventualmente me aplicava no primário. A primeira vez que o atingi com uma cotovelada no queixo, ele deixou de me agredir por qualquer motivo. Passamos a nos esmurrar sem motivo, por diversão. Foi nessa época que me disse ter roubado o primeiro carro. Condenei a atitude apenas uma vez, e depois perguntei como era que se fazia. Várias formas, ele disse, mas prefiro usar o ferrinho. Fazia com que se sentisse hábil em alguma coisa, notei. Nunca o encorajei, mas vez ou outra perguntava sobre seu balanço mensal.
Nunca ouvi falar sobre roubos de vagões de metrô, informei-lhe. Ele coçou a cabeça cheia de cabelos pretos e enrolados como porcas e disse, sorrindo: é bom mesmo que não, notícia assim não beneficia ninguém. Concordei com sua lógica. Ele apontou para a churrasqueira e disse, pega lá.
Antes de ir embora, tirou do bolso uma daquelas plaquinhas que ficam rebitadas nas portas do metrô, com o bonequinho e o aviso para que se mantenha a mão longe da porta. “Iha!” Pus a venda por conta própria e entrei no carro.