July 13, 2009

sobre ser outsider

Autobiografia do diretor Alejandro Jodorowsky, rabiscada em 1988:

“Was born in Bolivia, of Russian parents, lived in Chile, worked in Paris, was the partner of Marcel Marceau, founded the ‘Panic’ movement with Fernando Arrabal, directed 100 plays in Mexico, drew a comic strip, made ‘El Topo,’ and now lives in the United States — having not been accepted anywhere, because in Bolivia I was a Russian, in Chile I was a Jew, in Paris I was a Chilean, in Mexico I was French, and now, in America, I am a Mexican.”

A propósito, finalmente assisti a “El Topo“. Recomendo-o na mesma medida em que sou incapaz de falar coerentemente sobre ele.

July 7, 2009

aquele em que não evito falar sobre jacko

A morte de Michael Jackson me relembra dessa ânsia geral de querermos resumir toda a vida interior das pessoas em uma ou duas frases com pretensões analíticas. “Era freak, mas também atormentado pela infância traumática. Queria refazê-la quando adulto”, e assim por diante. Em última instância, é tudo bobagem.

É algo que o jornalismo absorveu da sociedade e transformou em técnica (não o contrário): decupar massas complexas, muitas vezes ininteligíveis, de informação e vácuos de informação em algo sucinto e ordenado, ornado por agradável cheiro de senso comum. Ou, no trato popular, nada mais do que uma modalidade da fofoca junto ao bebedouro, num intervalo do batente - é preciso um mínimo de concisão pra transmitir o dado/interpretação a tempo de voltar à escrivaninha.

No caso de MJ, há ainda bela mistura de excesso de informação acessória e quase absoluta ausência de informação essencial, combinação que fermenta há anos em nossas cabeças cheias de imagens - os beijos gelados em Lisa Marie, o não-nariz, o bebê chacoalhado da sacada.

Divago, mas meu ponto é simples: não tínhamos, e continuaremos sem ter, como conhecer o cara, ou mesmo a maioria das pessoas que encontramos. É mais do que dizer que as pessoas são complexas: é afirmar que são intermináveis. Ou, empregando frase do Antônio Lobo Antunes na Flip: “Não há profundidade, há infinitas superfícies.”

Meu próprio impulso besta é sentir pena de MJ. Ideia de reação correta: aceitar que não se sabe nada.

July 5, 2009

contraste

Fuçando entre vídeos antigos do Who, inevitavelmente topo com aqueles gravados após 1978, ano da morte de seu baterista, Keith Moon. No lugar, foi escalado Kenney Jones, ex-Faces (banda de Rod Stewart e de Ron Wood). A força do contraste torna melancólico assistir a esses vídeos.

O trabalho de Jones foi difícil demais: substituir o maior baterista da história do rock - ou segundo maior, caso o leitor seja partidário de John Bonham. E o mais carismático, louco e anárquico também. Não havia vitória possível.

Não houve, realmente. Jones é lembrado, se tanto, como um elemento que prolongou a existência da banda numa época difícil, apresentando-se de forma digna. E só. Logo ele, um baterista de grande técnica e força, de precisão quase metronômica; total oposto de Moon nesse último quesito. O cara é, e já era então, um puta baterista. À sombra de Moon, porém, ele não deixou marca ou legado na banda, que integrou por alguns poucos anos. Essas coisas acontecem.

July 4, 2009

springsteen


Ouço cada vez mais a Bruce Springsteen. Há grande chance de não fazer apenas pela música em si. É um tipo de rock expansivo, entusiasmado e com grandes ganchos pop; serve tanto a um bar esfumaçado quanto a uma arena cheia de gente aos berros. A E Street Band sem dúvida soa confortável nos dois contextos. É grande música. Mas não é tudo.

O que me atrai mais, começo a constatar, é a ausência total de cinismo em Springsteen. Nem em letras e arranjos nem em performance. Até os exageros emocionais parecem genuínos. Não há notas falsas no discurso blue collar dele, em suas histórias de pobreza material e grandeza moral, em seus relatos de amor entre pessoas machucadas pela vida. É um grande contador de histórias.

A forte identidade americana não me afasta (geralmente não afasta mesmo), Springsteen faz bem mais que filtrar a mentalidade do país em forma de música. Ouço “Thunder Road” cada vez mais transtornado pelas imagens dessa canção. Está tudo lá: amor perdido, medo, coragem, fragilidade, entrega, assombro. Fico emocionado de verdade.

Posso estar chafurdando numa visão melodramática de mundo, mas vejo cada vez menos espaço para esse tipo de enternecimento. Algo mais do que a lágrima socialmente aceita quando induzida por comédias românticas. Pouca coisa além disso, o cinismo geral rotula cafona, brega, ingênuo.

A música de Springsteen é imune a esse ataque. É direta e honesta. E emocional sem abdicar da razão (nunca; quem me conhece sabe minha ênfase nisso). É, em resumo, uma boa forma de encarar a vida. Algo como o clipe de “Dancing in the Dark“.

Abaixo, fiz uma playlist só de pérolas. Apreciem.


January 17, 2009

uma análise crítica da tv no metrô

Há algum tempo há televisores dentro dos vagões do metrô de São Paulo. São vários monitores LCD por trem, ligados o tempo todo, sincronizados na propagação muda do conteúdo da “TV Minuto” (ainda não possuem site). Numa notícia-release publicada em dezembro de 2007 no portal do Governo de SP, afirma-se que ela “informa, educa, diverte e entretém”.

Ora, permitam-me discordar, item por item.

1. “Informa”: Seria, creio, a função básica de um veículo como esse. Incrível como falham miseravelmente. Há notícias, mas geralmentes atrasadas, incompletas ou desatualizadas. Em alguns momentos, simplesmente falaciosas. Um exemplo: estudo divulgado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica afirma que 95% das músicas baixadas pela internet são ilegais. A “TV Minuto” optou por retirar a origem da afirmação e tascou: “95% das músicas baixadas na internet são ilegais” (cito de memória, mas era próximo disso). Sem a fonte da estatística, cria-se uma perspectiva enganosa. É pura desinformação. Não há desculpas para isso. Não há falta de espaço - alguns caracteres a mais resolveriam a situação; poderiam até montar a notícia em 2 frames, já que as famigeradas “dicas de saúde” geralmente tomam 3. Também não é aceitável argumentar que é da natureza do veículo ser breve e superficial. Todo veículo pretensamente jornalístico, qualquer que seja sua linha editorial, tem responsabilidade de informar corretamente.

2. “Educa”: As únicas mensagens realmente úteis que vi dizem respeito a instruções de uso do metrô e de suas instalações. As “dicas de saúde” oscilam entre a obviedade e, claro, a superficialidade incompleta do veículo. Além do mais, qualquer veículo com intenções educativas merece o fracasso.

3. “Diverte”: Apego-me ao significado “fazer esquecer, distrair a atenção” do verbo. Para os que consideram propaganda uma fonte de diversão, a “TV Minuto”, nesse ponto, alcança êxito. Até porque as propagandas não são feitas por eles e, em sua maioria, possuem muito mais poder de síntese e de transmissão de mensagem do que as notícias preparadas pela “TV Minuto”, que acha graça em noticiar o lançamento de um produto “curioso” sem se dar ao trabalho de dizer ao menos o nome do fabricante.

4. “Entretém”: Nesse ponto a “TV Minuto” se sai muito bem. Lembro-me como se fosse hoje da vez em que um velho num terno puído entusiasmou-se com a propaganda de uma peça de teatro veiculada no monitor. Sentava-me ao lado dele. Cutucou-me e disse que por 20 anos trabalhara como ator e, por coincidência, havia interpretado o personagem principal daquela mesma peça de um conhecido autor canadense. Eu, de fones de ouvido pendurado nas orelhas, ouvi a história simulando atenção. Na tela, surge uma imagem do elenco. O velho cerra os punhos e abre a boca, como se gritasse. Apontando para o monitor, sussurra, sem ar: “sou eu nessa foto!”. Olho para a tela e vejo o rosto rejuvenescido do velho na expressão do ator. “SOU EU”, o velho grita. As portas se abrem na estação Brás e o velho corre para fora do trem, corre na direção contrária da entrada dos passageiros, entre empurrões e cotoveladas, posta-se na beira da mureta da plataforma e se atira, de braços abertos em direção ao solo da praça do Largo da Concórdia. Esse fato entreteu-me bastante, graças à “TV Minuto”.

De modo geral, preferiria vagões com o mínimo possível de poluição visual. Às vezes, inadvertidamente, me pego observando os monitores de LCD e seu carrossel de imagens. Minha mente vaga; meus olhos focam-se no vazio. O apito da porta automática me traz de volta à realidade.

November 9, 2008

celulóide anêmico

Em seu remake de Halloween, Rob Zombie junta prelúdio e remanufatura numa coisa só, mas com sua “visão particular” da história e dos personagens - converte uma obra-prima do horror e do suspense numa peça de determinismo e violência crua.

Em Quantum of Solace, seguindo a linha de Casino Royale, 007 é refeito como personagem pretensamente esférico (afe…), mais assassino que agente secreto. A diversão da série, porém, ficou para trás.

Que mal havia no assassino mascarado de presença quase sobrenatural e, na maioria das vezes, inexplicável? E qual era mesmo o problema do Bond irônico, maior-que-a-vida, lutando contra vilões caricatos? Com tanta tentativa de realismo, parecem desconfiar da capacidade do público de suspender a descrença, ou da própria habilidade de viabilizá-la.

October 25, 2008

eterno retorno

Acho que vou voltar a escrever aqui. Assinem o RSS e não desliguem da minha freqüência, amiguinhos.

May 24, 2008

paranoid indiana


Spoilers adiante.

Como a maioria dos filmes do Spielberg, esse Indiana Jones e a Caveira de Cristal consegue ser ao mesmo tempo um blockbuster inquestionável e colossal em termos de marketing e finanças (paremos para imaginar quantas árvores são derrubadas apenas para imprimir os milhões de tíquetes de entrada desse filme…; agora paremos de imaginar tal baboseira que não leva a lugar nenhum), mas também uma obra absolutamente contaminada pelos tempos atuais. Ou propositalmente pensada para refleti-los, o que for mais próximo da sua crença religiosa.

No caso do Indiana, a carga de propósito me parece bem maior do que nos episódios anteriores. Aqui, o “ladrão de tumbas” cai de cabeça no maior sintoma dos tempos modernos: a paranóia.

Ela está em todos os cantos do filme, algumas vezes travestida de anacronismo, outras, de metáfora contemporânea. Está tudo lá: o medo do comunismo, versão atualizada do “mal estrangeiro” que nos filmes anteriores foram o nazismo e um culto maluco indiano, mas que numa 15ª versão pode vir a se tornar o extremismo islâmico; a paranóia nuclear, ou da destruição do mundo, revista hoje sob a forma das mudanças climáticas; a paranóia da informação, tanto o medo da falta como do excesso (que, no filme, mata). Fora os aliens, que não deixam de ser uma mistura disso tudo, acrescido do charme intergalático.

Pra mim, mais importante do que o tema da paranóia é a sensação dela. Tudo razoavelmente subterrâneo, apenas o suficiente para sintonizar-se com a frequência do público atual, muito diferente daquele de 20 anos atrás.

O que permanece mais ou menos intacta é a moldura da série, a forma como Spielberg encaixa as mesmas peças cheias de pó. A história, particularmente, não significa muita coisa. Na verdade, parece francamente material de segunda linha, escolhido porque, de tão genérico, poderia ser moldado mais facilmente às necessidades de um Retorno depois de 20 anos, com todas as implicações de envelhecimento de elenco e personagens inclusos.

Coube a Spielberg um trabalho aparentemente não tão difícil para um gênio como ele - filmar com a linguagem e os elementos consagrados dos filmes anteriores. O uso do movimento da câmera para revelar perigos e surpresas, o diálogo canastrão, a preservação dos ícones - o chicote e o chapéu, os personagens abraçando a contragosto caveiras, as teias de aranha iluminadas por tochas, os insetos de tamanho assustador. O homem sabe fazer tudo isso sem precisar olhar no monitor.

Como parte integrante da série, esse episódio dá conta do recado. Mas a contribuição maior foi atualizar a viabilidade do personagem e de seu universo. É bom saber que o chapéu continua com Indiana.

May 10, 2008

síndrome de macgyver

Guardo coisas guiado por um senso meio inconsciente de que posso precisar delas, no futuro, de formas não-convencionais. Aquele plástico com fio de alumínio dentro, usado para fechar sacos de pão de forma; fichas telefônicas de 1984; chaves de fenda com a ponta desgastada; sacos plásticos de lojas diversas e de materiais e formatos diversos; cabos incompatíveis com qualquer aparelho que possuo em casa. É um impulso que sempre tenho, de dispensar ferramentas corretas e preferir as improvisadas, como abrir o pacote de sedex com a haste da tampa da caneta, ou usar um clipe de papel dobrado no lugar de uma chave de fenda. Até misturo objetos aleatórios na tentativa de criar um terceiro objeto potencialmente útil, com resultados variados.

Talvez seja apenas um treinamento para a vida pós-civilização.

April 26, 2008

a la kinks

Sem amplificador, guitarra com parte elétrica em dia nem pedais, comecei a plugar o violão elétrico na entrada de microfone do aparelho de som, que já não serve pra quase nada há alguns anos. Descobri que combinando o volume de entrada no som com o equalizador do violão dá pra tirar um som MANEIRO. Como não tenho interesse em obter tons limpos, já que para isso basta tocar desplugado (é um violão folk, ele foi feito pra isso), percebi que o volume de entrada servia como controle de ganho e que qualquer coisa acima de 20% significa um overdrive de respeito. Daí, tirando os graves do violão e estourando os médios e agudos, o bicho começa a emitir um rugido PRIMAL e absolutamente porco, o suficiente para tocar Search & Destroy, do Stooges, sem me sentir um completo idiota. Ou seja: estragarei as caixas de som num tempo menor, mas atormentarei os vizinhos com mais propriedade.

April 20, 2008

sobre o abandono

Entro no metrô Vila Madalena às 0h55 do domingo, cinco minutos antes do encerramento de suas operações de sábado. Além de mim, não há ninguém na plataforma. Desço no Paraíso e não vejo alma viva na estação. Nerd ligeiramente bêbado se anima com pouco, e me animo. A plataforma vazia. Cenário do pós-apocalipse, uma das imagens que mais me divertem. Não só a mim; todo mundo que viu Extermínio ou Dia dos Mortos lembra em detalhes das cenas das ruas vazias.

Óbvio que o cenário de desolação e vazio em São Paulo justifica-se com poucas informações a título de contextualização: é um final de semana atípico, enxertado num feriado de segunda, e o horário, no metrô, é notadamente incomum; funciona uns 45 minutos a mais no sábado, fato talvez pouco conhecido. Além do mais, madrugadas são tipicamente desertas. Não há surpresa nisso.

A plataforma vazia, no entanto, tem um charme indiscutível. É o fascínio pelo abandono da cidade. Abandono pressupõe rompimento de relação de posse ou controle. É justamente isso. A cidade abandonada é a cidade sem seus criadores, os homens. É a metáfora da ausência de Deus. Por que perturba? Talvez porque sintamos com mais essa ausência, provavelmente verdadeira…

Seria a experiência religiosa simplesmente a necessidade de presença? De companhia no mundo. Se sim, Deus torna-se contingência. E criação humana, como as cidades.

Ah, vou dormir.

April 17, 2008

o despertar do otimismo

Sempre me supus um pessimista, mas esse conceito caiu por terra após duas demonstrações óbvias de fé na raça humana: na primeira, convenci-me a assistir Alien x Predador 2 imaginando se tratar de um bom filme ruim. Para meu infinito desgosto, é apenas ruim. Digo, ruim de deixar marcas no caráter da pessoa, fazer as glândulas lacrimais verterem Cynar, obliterar o paladar por uma semana.

Dias depois, resolvi conceder uma segunda chance ao St. Anger, disco mais massacrado do Metallica. Não sei dizer porque. Deve ser aí que entra em jogo o otimismo; irracional, cego e sem conhecimento de história (fadado a repetí-la). A crença de que não apenas as coisas em si podem mudar para melhor, mas também nossa percepção delas.

Claro que o disco permanece completamente inaudível.

Respirei fundo e pensei comigo: “tudo bem, é só dessa vez. Devo conseguir evitar o otimismo pro resto da vida.”

April 14, 2008

perfis de amigos imaginários II

Quando Almir me levou pela primeira vez a seu local de trabalho, eu estava vendado havia cerca de duas horas. É medida de segurança, dizia ele de dez em dez minutos, sempre cantarolando alguma música do Art Popular. Eu cantarolava junto, ou dizia, eu sei que é na Zona Leste, porra, mas ele repetia. É por medida de segurança. Tudo bem. Até parece que o amor não deu… E íamos.

Quando o carro finalmente parou e pude abrir os olhos, estávamos num grande galpão coberto com telhas de alumínio e impregnado de cheiro de lingüiça assada. Os colegas de Almir faziam um churrasco sem trilha sonora, andando como zumbis em torno da churrasqueira, com copos de plástico na mão. Ninguém falava muito. Olhei para o centro do galpão. Erguido sobre uma dezena de cavaletes de metal, estava um vagão do metrô.

A parte mais difícil é trazer pra cá, depois é mais fácil de desmontar que um Corsa, informou-me Almir, antecipando a pergunta óbvia. O desmanche de vagões de metrô era um negócio em plena expansão, ele me disse. A demanda era alta e a oferta, diminuta.

Com um aparelho parecido com uma furadeira, mas com ponta de chave allen, ele desparafusou a moldura de metal em volta de uma porta do vagão. Moleza, ele disse, e me passou o aparelho. Desparafusei a soleira de metal. Saiu facilmente. Almir soltou um “iha!”, como fazia sempre que dizia algo esperto ou surpreendia alguém com um gesto inesperado. Fazia isso sempre. No ponto de ônibus, abordava meninas bonitas perguntando se elas esperavam há muito tempo ali. Geralmente diziam que sim. Sem perder a deixa, assobiava para um amigo próximo, que estacionava seu Voyage 1986 azul-marinho em frente ao ponto. Oferecia à moça uma carona. “Iha!”

Perguntei sobre a cabine. Não, ele disse, nem todos têm cabine. Não operavam desse tipo, apenas os vagões comuns. Repeti minha dúvida sobre como eles traziam o vagão até o galpão.

Essa informação é justamente o que diferencia a gente dos desmanches comuns, ele repondeu, dando a entender que era um pedaço de conhecimento valioso demais para ser discutido. Mesmo entre amigos. O que éramos, apesar das surras que eventualmente me aplicava no primário. A primeira vez que o atingi com uma cotovelada no queixo, ele deixou de me agredir por qualquer motivo. Passamos a nos esmurrar sem motivo, por diversão. Foi nessa época que me disse ter roubado o primeiro carro. Condenei a atitude apenas uma vez, e depois perguntei como era que se fazia. Várias formas, ele disse, mas prefiro usar o ferrinho. Fazia com que se sentisse hábil em alguma coisa, notei. Nunca o encorajei, mas vez ou outra perguntava sobre seu balanço mensal.

Nunca ouvi falar sobre roubos de vagões de metrô, informei-lhe. Ele coçou a cabeça cheia de cabelos pretos e enrolados como porcas e disse, sorrindo: é bom mesmo que não, notícia assim não beneficia ninguém. Concordei com sua lógica. Ele apontou para a churrasqueira e disse, pega lá.

Antes de ir embora, tirou do bolso uma daquelas plaquinhas que ficam rebitadas nas portas do metrô, com o bonequinho e o aviso para que se mantenha a mão longe da porta. “Iha!” Pus a venda por conta própria e entrei no carro.

April 9, 2008

perfis de amigos imaginários I

Marcelina gosta de ler, e de fato lê muito. Empresta de diversos amigos, mesmo de uns poucos conhecidos do trabalho, e rapidamente devolve, sem discutir seu conteúdo ou dizer se apreciou o que leu. Ela própria, contudo, não possui nenhum volume, com exceção de um. Não sei o título. Cobriu a capa com plástico preto e raramente o deixa fora da bolsa. Por cima de seu ombro, vejo blocos de texto, talvez dois ou três numa página, sem vincos de travessões. Ela percebe minha presença e o fecha. Descarto a hipótese de poesia, embora ela declame um ou outro Drummond, sempre de cabeça e de forma desorganizada, misturando versos de poemas diferentes e criando imagens únicas. Raramente fazem sentido, e ela sorri com maior intensidade à medida que o absurdo é contemplado.

Sem jeito, pergunto do livro. Seu título, seu autor, seu conteúdo. Ela coça o canto dos lábios planos de seriedade com a ponta da unha negra e começa a contar uma história. Aos 15 anos, sua vizinha em Santos, onde morava, disse ter descoberto o Diabo no guarda-roupas. Marcelina, cínica mas curiosa, vai comprovar a informação. Ao abrir o guarda-roupas, vê o Diabo. Diferente de suas expectativas, parece um boneco feito com cinco pedaços de carvão, sem rosto, boca, rabo, olhos, dedos, orelha ou qualquer outro traço que lhe confira fisionomia. Também não carrega um tridente. Move-se lentamente, em gestos que causariam impressão de ameaçadores, não fossem feitos por tocos de carvão. Marcelina esfrega os dedos no Diabo e suja as pontas. Limpa a mão no vestido e pergunta ao Diabo se ele é mau como se costuma ouvir. A amiga responde que não. O toco de carvão acena com um movimento do tronco, como se confirmasse a informação. O aceno demora cerca meio minuto. Contrariando sua natureza, Marcelina aceita a resposta oferecida e faz um pedido ao Diabo. Neste ponto, Marcelina diz que o conteúdo do pedido está diretamente ligado ao livro que carrega, e que não pode revelá-lo. Estica o braço, aperta meu ombro, diz que está atrasada e vai embora.

Dois meses depois, numa mesa de bar na Augusta, exijo a continuação da história. Digo que perdi algumas noites de sono por causa dela. Alguns mistérios, mesmo inexistentes, merecem resolução. Ela diz que o Diabo, vil, mas receoso em ser demasiadamente mau e chamar atenção desnecessária para sua existência terrena em forma de carvão, concedeu-lhe o pedido com pequenas ressalvas. Uma, a de que não revelaria o conteúdo do livro a ninguém. Outra, que nunca possuísse livro algum além daquele.

As condições, inicialmente prosaicas aos olhos de Marcelina, começaram a lhe causar angústia após alguns anos. Lia tudo com pressa, de pé nas livrarias ou bancas de jornal, e amaldiçoava exemplares selados com plástico. Sem poder possuí-los, devorava sem digestão. Citava frases e parágrafos mas não conseguia contextualizar idéias. Discutia com facilidade apenas aspectos de sua vida diária ou experiências pessoais. Era divertida e inteligente, porém. Mantinha o bom humor e sabia ser agradável. Conhecemo-nos num bar da rua Augusta, falando de qualidades de tecidos.

Morre com duas facadas no pescoço ao se recusar a entregar o livro durante um assalto na Praça da República.

March 30, 2008

a magia episódica do futebol

Uma diferença fundamental do futebol para grande parte dos outros esportes: a maioria das partidas é entediante pra diabo. E isso é excelente.

Diferente do basquete, por exemplo, em que todas partidas são um espetáculo de indução à dormência pelo seguido virar do placar, o futebol investe na potência do clímax. É como a questão da compressão e da dynamic range na música: cada vez mais, nivelam a experiência e jogam fora a nuance. Sem silêncio não há como apreciar o refrão emotivo e catártico. No futebol, há justamente esse senso de nuance.

A maioria dos jogos não é lá muito digna de nota. Mas quando há um jogo realmente bom, os entusiastas rapidamente o reconhecem como tal. E falam sobre ele, e discutem minúcias, e reproduzem jogadas com as mãos e os pés. O extraordinário se destaca. Resta a nós agradecer pelo jogo de canela e pelo beque pedreiro, nossos instrumentos de calibragem da alegria.

March 23, 2008

OI MAE TO NA RAMPS RS

Enfim, o que faltava na internets: LULALOL.

March 22, 2008

seis cordas

Resolvi trocar de violão.

Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.

O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador - um solitário e seu violão contra o mundo.

A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.

O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.

A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si - esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.

A caça começa em abril.

March 15, 2008

feijoada completa

O almoço solitário não ajuda o estômago - acabo comendo rápido demais, o pensamento correndo atrás do próprio rabo, o pedaço mal mastigado goela abaixo - mas é um dos melhores momentos para observação das pessoas ao redor. O João Ubaldo Ribeiro diz que adora. Mas gostamos por motivos diferentes, provavelmente. Enquanto ele busca as histórias, eu fico mais interessado nos gestos. As pequenas coisas que separam o homem de um animal sem graça, como o girafa (a vida besta lá em cima).

A forma de organizar o prato, por exemplo. É um dos gestos com mais significado pois mistura tudo: a cultura, a fisiologia, o instinto, a psique (ou desejo). Poucas coisas são tão pessoais. E, ao mesmo tempo, num refeitório ou restaurante, é algo aberto, à mostra. E dá-lhe conversa, piscadela, piada, olhar atravessado por sobre o bife, alface no dente, soluço contido com esforço.

Ah, terráqueos.

March 11, 2008

neal casal para presidente, obama para vice


Neal Casal, sintoma positivo do século XXI

Rompendo com o pessimismo e amargura habituais no que se refere à avaliação da vida como a vivemos hoje - trânsito, armas de destruição em massa portáteis e o fim dos aperfeiçoamentos estruturais do forno microondas -, até que não estamos mal. Veja, é uma avaliação possivelmente comprometida por algum entusiasmo benigno passageiro, mas não deixa de ter alguma validade. Não estamos mal: o Palmeiras finalmente tem não apenas um, mas dois meias-armadores; tornou-se razoavelmente seguro andar pelas ruas com um CD Player portátil (ninguém quer roubar um desses mais); uma novela que mistura mutantes, vampiros, Malhação, Lost e Senhor das Moscas consegue manter-se no ar, gerar seu desdobramento em uma temporada adicional, abalar a liderança de audiência na Globo e prover material para piadas irresistivelmente idiotas, tudo ao mesmo tempo. Citei apenas uma amostra de sinais positivos, aleatoriamente.

E tem o Neal Casal.

Músico obscuro mesmo em seu país de origem, é mais conhecido por tocar guitarra na banda de apoio do Ryan Adams, o Cardinals. É o Richie Sambora do Ryan Adams, numa comparação propositalmente babaca. A diferença é que, por acaso, o Neal Casal é melhor músico e compositor que o Ryan Adams. E lança discos mais consistentes. E parece prescindir de uma fama de bad boy desbocado para justificar sua presença no mundo.

Tomemos seu disco de 2006, por exemplo, No Wish To Reminisce (download). É o equivalente masculino a The Forgotten Arm, da Aimee Mann, de 2005: disco alt-country/folk/rock/pop perfeito, timbragem quente, letras simples, refrões de derreter os glóbulos vermelhos nas artérias. Do tipo que se tornaria fóssil numa prateleira, mas circula silenciosamente pela internet, como um boato implausível.

Não diga que uma época que permite esse tipo de achado não tem algo de irreparavelmente bom.

January 13, 2008

nem sei se nada sei, ou réplica a sócrates

“Bem informado” deixou de ter seu valor como elogio ou qualidade pessoal, posto que é uma condição tão ultrapassada quanto a taquigrafia e a pipoqueira a manivela (a qual ainda persiste unicamente por sua portabilidade, maior que a do microondas). Ninguém mais está bem informado sobre coisa alguma, já que a proporção de informação que se absorve, desde alguns anos atrás, será sempre infinitamente menor do que a totalidade disponível. Uma proporção “boa” de informação seria pelo menos metade, dizem os filósofos.

O que não é a mesma coisa que dizer que estamos mal informados. O mal informado é aquele à beira da morte, vítima da própria ignorância. É o cidadão que acende o cigarro sentado sobre um contêiner de dinamite e sorri. O verdadeiro mal informado mal consegue colocar os pés para fora de casa, visto que sua desinformação já o teria matado no caminho de volta do banheiro. Não somos mal informados, portanto.

Estaríamos apenas informados, então? No limite do necessário? Provavelmente. Como o moleque que pula dentro de uma piscina de bolinhas cheia demais e quase morre sufocado por uma de cor amarela que contém, entre outros dados, detalhes biográficos de Benazir Bhutto e nomes de conhecidos líderes da Al-Qaeda paquistanesa.

January 2, 2008

headshot


Snipercat

Em todos jogos de tiro, tipo Call of Duty, minha maior diversão é executar as missões de SNIPER.

Cê fica lá longe, pagando de Mark Wahlberg, só mirando na cabeça dos outros e sentando o dedo naquela porra [/os tropadelite]. É a coisa mais covarde do mundo.

E justamente por ser algo tão covarde que meio que tenho pesadelos com isso. Às vezes ando na Paulista olhando para as janelas dos prédios, procurando pelo reflexo da mira telescópica (pelo menos na minha paranóia os caras não são tão profissionais), me escondendo atrás de arbustos e jogando bonecos 1:1 de mim mesmo na avenida para desviar atenção (e causar acidentes).

Daí juntei essa lembrança com o artigo abaixo, sobre a descoberta de que sonhos podem ser espécie de “treinamento” do cérebro para situações de risco, e fiquei satisfeito em saber que meu cérebro, ainda que discretamente, compartilha do meu receio.

January 1, 2008

monta desmonta

Blog pra mim sempre foi brinquedo - não diário, não ferramenta, não plataforma, não trampolim, não caixa de ressonância, não megafone sem pilha, não portfólio, não experiênça, não inserção digital, não panfleto, não espelho - e hoje tava lembrando como a gente esquece de usar certos brinquedos. Brinca ali, pôe ao contrário, inventa regras, deixa de marcar os pontos, enxerta noutro brinquedo, taca na parede pra ver se quebra (quebra), monta de novo, tá errado, não funciona daquele jeito, inventa outro, esquece como era, cai atrás do sofá, acha três anos depois, aranha criou ninho dentro dele, cê acha que tá velho demais pra brincar com aquilo de novo, guarda na gaveta, pega de volta um dia ao acaso, fica tentando lembrar onde liga, que graça tinha, tem uma epifania, vai dormir, esquece o que era. Mas brinquedo nunca deixa de fazer sentido.

ponto morto

Engraçado como, por mais simbólica que seja a troca de calendário, o ciclo anual é sempre real e palpável, de curvas ascendentes e descendentes nítidas (ê mão d’homem!). Por falta de sorte e planejamento, no primeiro dia do ano a geladeira está vazia; os mercados e padarias, fechados. A esperança recai sobre algum disk-pizza com espírito capitalista. O País vai de 0 a 100 km/h em dois meses, e hoje é exatamente o zero da escala.

mensagem motivacional

Começou 2008. Vão lá e se esforcem.

December 26, 2007

estou farto

No final da tarde, na véspera do natal, o cheiro de carne assada no apartamento domina tudo, apesar de nada estar sendo preparado no fogão. É o aroma conjunto do condomínio em festa, da rua, da cidade. Diabos, de boa parte do mundo. Tudo um banquete único, o maior festival de gula do planeta.

Em réplica a essa constatação, pela primeira vez em anos não comi até passar mal, mas até ficar apenas moderadamente cheio.

November 4, 2007

citation needed

É estranhamente hipnótico ficar vendo esse mapa em tempo real das alterações da Wikipedia.

September 26, 2007

the human torch denied a bank loan

Por que William Waack sempre quer pronunciar nomes e palavras estrangeiros de forma mais precisa do que todo o resto do mundo? Há pouco, ao anunciar entrevista com o jornalista Carl Bernstein, não evitou puxar o “sh” em Bernshtein.

AM I RIGHT OR WHAT?

September 24, 2007

dia sem carro 2

Esse Dia Sem Carro, aliás, nunca influenciará gente suficiente para que o volume de automóveis nas ruas diminua. Não adianta apelar ao lado prático das pessoas quando o assunto é carro. Menos ainda a uma suposta consciência ambiental. Todo mundo cresce vendo automóvel como item de status e poder. Alguns até enxergam a metáfora da liberdade naquelas três toneladas de aço e plástico.

Pra mim, o único uso decente dos automóveis em todo século XX foi a cena de perseguição em Operação França.

dia sem carro 1

No Dia Sem Carro, ouvi diversos relatos de pessoas que usaram carro e enfrentaram trânsito. Claro, todos pensaram que não haveria trânsito e saíram de casa com seus veículos. Fiquei satisfeito. Ironia é a única coisa que existe.

June 18, 2007

anaxágoras arranca as unhas de galileu com um alicate e sorri

Só febre e gripe pra dar clareza.

Rejeitados Pelo Diabo é um dos filmes mais humanistas dos últimos anos, apesar de mostrar psicopatas sádicos, policiais violentos e mais imoralidade por frame do que a maioria da produção cinematográfica norte-americana recente.

Na história, os membros remanescentes da família Firefly (apresentada no filme anterior de Rob Zombie, A Casa dos 1000 Cadáveres) saem em fuga da polícia após uma emboscada. No caminho, barbarizam alguns viajantes, matam outros por diversão e acabam fuzilados pela polícia.

Não há por quem torcer no filme, visto que todos são canalhas, de uma forma ou outra. Mas é justamente essa falta de referência de moralidade dentro do filme que obriga o espectador a buscá-la dentro de si.

E mais: ao tornar os assassinos protagonistas e examinar sua dinâmica familiar - eles se amam e se importam uns com os outros, cada um à sua maneira -, mostram que os sádicos e malvados, em toda sua brutalidade, são tão humanos quanto qualquer um. Zombie, também roteirista, descarta a idéia (da qual eu também discordo) de que psicopatas e, de uma forma mais abrangente, a violência sejam elementos “inumanos” ou “monstruosos”. O espectro humano abarca isso tudo também.

Não bastasse essa perspectiva completamente inesperada para um filme de terror supostamente irresponsável (bem, não deixa de ser), traz um dos finais mais absolutamente fenomenais que já vi, com os protagonistas rumando em direção à morte ao som de Free Bird, do Lynyrd Skynyrd.

May 13, 2007

mote

“I love and treasure individuals as I meet them, I loathe and despise the groups they identify with and belong to.” - George Carlin

Minha filosofia, de forma mais sintética e brilhante.

December 24, 2006

nanorresenha calcada na dúvida

Vi Os Infiltrados, do Scorsese, e cheguei à conclusão de que o filme tem algo de muito certo e algo de muito errado, as duas coisas convivendo em cada plano, cada cena. Não sei definir ambas. Gostei.

November 27, 2006

velho oeste

As baratas já estavam no apartamento antes que eu ou o inquilino anterior chegássemos. Estavam aqui antes mesmo que os primeiros operários erguessem os prédios do condomínio. Eu, no entanto, não ligo. O território agora é meu.

Na medida do possível.

É como um filme de faroeste. Eu sou John Wayne (Rastros do Ódio), elas são os peles-vermelhas. É uma terra sem lei. Quando as vejo, tenho a escolha de matá-las ou deixá-las viver. É sempre uma escolha, nunca um ato reflexo. Geralmente, as deixo viver, mas por pura preguiça. Quando escolho matá-las, freqüentemente escapam. Semanas depois, as reencontro, mais gordas, acompanhadas de pequenas proles, do tamanho e da cor de grãos de arroz estragados. Me sinto um canalha, mas as extermino. O método mais simples é esmagá-las. É comum que não morram imediatamente. Não desfiro golpes de misericórdia.

As baratas, flanando de lá pra cá, parecem tão mais dignas do que eu. A seu tempo, as matarei todas.

aguardo

miottorama: vc tem vontade de ver a Terra invadida por monstros?

Daniel: sim, é meu sonho desde criança

August 6, 2006

samba canção sub-humano

Há semanas sem ser um livro por prazer, com meses de cinefilia reprimida, cheio de pendências acumuladas nos bolsos da camisa, com a saúde em declínio (os cabelos já começam a abandonar a nau), tendo alucinações em que gafanhotos gigantes com arcadas dentárias cheias de cáries mastigam os pedestres da Paulista.

Chora, cavaco.

zero

O melhor lugar para se estar é no ponto cego.

June 4, 2006

filme de oposição a Bryan Singer


X-Men 3 se beneficiou das baixíssimas expectativas em relação a ele. Tudo, como as fotos de divulgação, a sinopse e a escalação do Brett Ratner na direção, indicava o rumo à excrescência plena. Ver um filme menos ruim do que o esperado foi uma surpresa das mais ordinárias, mas ainda sim surpresa.

Algo de que a princípio não gosto, mas achei que funcionou (na medida do possível) foi a estratégia quadrinhesca de encher a trama de personagens em um conflito ridiculamente desenvolvido e forçar situações extremas (morte, castração simbólica, abstinência sexual forçada, essas coisas). O subdesenvolvimento dos personagens veio como resposta infantil, mas até interessante, de estilo em relação aos dois filmes anteriores. Como se Ratner tirasse onda das pretensões artísticas de Bryan Singer com porralouquice sem personalidade e espalhafato acerebrado.

No mais, ao contrário do que parece numa leitura rápida que se baseie na contagem de cadáveres, o “confronto final” do título não se justifica em absoluto, já que um número respeitável de pontas soltas foram deixadas. E estabelececido um clima de estranheza e arbitrariedade narrativa que não existiam antes no filmes, mas que fazem parte da própria cultura de quadrinhos. Me refiro à questão da absoluta despreocupação em relação a justificativas decentes sobre mortes e ressurgimento de personagens. Fiquei com a impressão de que todo mundo que morreu ou foi “castrado” no filme pode perfeitamente retornar alegremente em uma provável seqüência. É muito dinheiro envolvido para a galera do Marvel Studios se preocupar com coerência, pelo amor de deus.

E fica aqui meu repúdio à rasteira referência aos Sentinelas no início do filme. Pra mim, esses seriam os melhores vilões possíveis para um filme dos mutantes. Avi Arad, liga pra mim que eu te explico melhor.

May 14, 2006

blog no âmbar

Às moscas, mais uma vez. Motivos há: obrigações acadêmicas, mudanças profissionais e, principalmente, a falta de uma conexão decente. Não desejo a ninguém o suplício de ser refém da linha discada e das madrugadas. Nessa questão, poderia citar os meandros do karma, mas a bela série cômica My Name Is Earl já trata o assunto com perícia e simpatia.

Para os que, por motivos obscuros para mim, ainda se interessam por algo que porventura venha a ser publicado aqui, sugiro assinar o RSS e viver a vida.

March 19, 2006

um blog de cinema para você

Depois de muito tempo de hesitação, ruminância, delírio e vertigem, decidi criar um blog só sobre cinema: 35mm.

(A princípio queria chamá-lo MacGuffin, mas achei que ia ficar muito obscuro.)

Meu plano é chutar a sempre sedutora inércia e atualizar o blog diariamente com críticas, links, notícias, artigos e o que mais for interessante. O tom e o ritmo do trabalho deve vir com o tempo, supondo que tenha gás para tocá-lo dessa forma por mais de uma semana (considerando que todo o trabalho será feito de madrugada). Espero que só o fato de escrever minhas intenções aqui sirva como elemento de coação.

E não posso esquecer de uma coisa: colaborações serão mais do que bem-vindas. Quem gostar da idéia e quiser ajudar, mande um e-mail para dlimasouza arroba gmail ponto com.

December 11, 2005

(sem assunto)

:: Vida quase sem filmes. Aí não tenho assunto COM NINGUÉM.

:: Por outro lado, tirei o pó do videogame. Resident Evil 4, Shadow of the Colossus e Metal Gear 3 têm alegrado minhas madrugadas. Comentários a seguir.

:: Alguém viu o clipe de Just Want You to Know, do Backstreet Boys? Não bastasse ser hilário, me fez baixar a música e, neste instante, ouvi-la pela TERCEIRA VEZ consecutiva.

October 13, 2005

é tempo de amar

Quando me dei conta, estava sentado no banco estofado de uma mesa no canto mais escuro da boate com Roberto Carlos ao meu lado, às lágrimas, dando pequenos soquinhos na perna esquerda (ruídos metálicos encobertos pelo som dos Jordans nos auto-falantes), lamentando o broto perdido. “Será que um dia essa tristeza vai ter fim?”, ele me perguntava. Deixei de prestar atenção ao meu ilustre acompanhante ao notar que os garçons abasteciam a mesa com notável diligência e carinho. Pedi mais uísque, disse “Robertão, amigo, liga não que ela não prestava pra você”, dei um gole e antes mesmo de sentir o álcool aquecer minha garganta fui surpreendido pelas coxas da Wanderléia aproximando-se da mesa. Ela se sentou ao lado do Rei e alisou seu cabelo por horas, enquanto bebericava martinis e me lançava olhares lúbricos.

Rapaz, que noite.

September 26, 2005

ócio & vagabundagem #1

Idéia para uma sitcom: Uma Academia Muito Louca. Quatro docentes de uma faculdade de comunicação social vivem as mais divertidas histórias entre negociações absurdas com alunos relapsos, discussões teóricas sem fim, confusões burocráticas e elaboração de teses de doutorado delirantes.

Idéia para um MMORPG: Brasília On Fire, a experiência máxima em simulação da vida política brasileira. O jogador escolhe uma classe para seu personagem e, como é um jogo corporativista, tenta levar seus companheiros ao poder. Classes previstas: cavaleiro da oligarquia, portador da luz empresarial, paladino sindical, sábio intelectual de esquerda, caçador de dízimos, escudeiro da força estudantil, bardo da mídia, mago do judiciário, espião da ABIN, anão de partidos nanicos, trolls do funcionalismo público, elfos do capital internacional.

Idéia para um talk-show:
diariamente, três convidados especiais entrevistam Jô Soares.


Idéia para um filme: Jackson Antunes vive um pai de família que, após ter sua casa invadida por ladrões, decide fazer justiça com as próprias mãos. Uma mistura de Desejo de Matar com Um Dia de Fúria, só que com mais explosões e diálogos em português.

September 25, 2005

teólogos não sabem nada sobre minha alma

É maravilhoso como, prestando um pouco de atenção, é possível reconhecer padrões ocultos perdidos no ar (preciso ler o tal livro do William Gibson, aliás).

Em uma longa conversa com uma amiga Bianca, uma das pessoas que mais amo nesse planeta, falamos sobre como é importante termos paixões na vida - seja por outras pessoas como por atividades, artes etc; mais tarde, eu lia o seguinte trecho da entrevista do Henfil:

“Eu acho que o cara tem que ser rico interiormente, gostar de fazer, no mínimo, umas seis ou sete coisas. O cara que diz: ‘Eu me realizo fazendo jornalismo’, pô, esse cara é um pobre, é um cara atrofiado.”

Horas atrás, dou de cara com o artigo sobre o fim da monogamia e um novo paradigma de relações afetivas. Tudo isso parece se ligar pra mim. Não consigo imaginar minha vida restrita a uma só paixão. Cinema, música, literatura, chocolate, HQs, instrumentos musicais, culinária italiana, tecnologia, só pra citar coisas facilmente identificáveis, são assuntos pelos quais sou apaixonado. Um tipo muito particular de poligamia: as diferentes amantes conversam entre si, criam laços de amizade, apaixonam-se mutuamente.

bob esponja

Nas últimas semanas, tenho pensado bastante sobre como vou me informar daqui pra frente. Acho que deve ser um tipo de dúvida que, mais cedo ou mais tarde, vai tomar de assalto a cabeça de boa parte dos usuários de internet, pelo menos. As informações se multiplicam exponencialmente a cada minuto e prefiro não delegar a tarefa de selecioná-las exclusivamente a jornalistas…

Além de já ter aderido ao RSS e ao StumbleUpon, acabo de criar minha conta no Audioscrobbler. E ainda acho pouco. Pelo menos por enquanto. Será que a quantidade de estímulos externos um dia vai superar a capacidade do cérebro de absorvê-los?