antes de morrer, etc
Os 1.000 melhores filmes já feitos, segundo o New York Times. Com links para as resenhas originais.
- cinema | Time: 6:52 pm (UTC+8) Comments (1)
Os 1.000 melhores filmes já feitos, segundo o New York Times. Com links para as resenhas originais.

Como a maioria dos filmes do Spielberg, esse Indiana Jones e a Caveira de Cristal consegue ser ao mesmo tempo um blockbuster inquestionável e colossal em termos de marketing e finanças (paremos para imaginar quantas árvores são derrubadas apenas para imprimir os milhões de tíquetes de entrada desse filme…; agora paremos de imaginar tal baboseira que não leva a lugar nenhum), mas também uma obra absolutamente contaminada pelos tempos atuais. Ou propositalmente pensada para refleti-los, o que for mais próximo da sua crença religiosa.
No caso do Indiana, a carga de propósito me parece bem maior do que nos episódios anteriores. Aqui, o “ladrão de tumbas” cai de cabeça no maior sintoma dos tempos modernos: a paranóia.
Ela está em todos os cantos do filme, algumas vezes travestida de anacronismo, outras, de metáfora contemporânea. Está tudo lá: o medo do comunismo, versão atualizada do “mal estrangeiro” que nos filmes anteriores foram o nazismo e um culto maluco indiano, mas que numa 15ª versão pode vir a se tornar o extremismo islâmico; a paranóia nuclear, ou da destruição do mundo, revista hoje sob a forma das mudanças climáticas; a paranóia da informação, tanto o medo da falta como do excesso (que, no filme, mata). Fora os aliens, que não deixam de ser uma mistura disso tudo, acrescido do charme intergalático.
Pra mim, mais importante do que o tema da paranóia é a sensação dela. Tudo razoavelmente subterrâneo, apenas o suficiente para sintonizar-se com a frequência do público atual, muito diferente daquele de 20 anos atrás.
O que permanece mais ou menos intacta é a moldura da série, a forma como Spielberg encaixa as mesmas peças cheias de pó. A história, particularmente, não significa muita coisa. Na verdade, parece francamente material de segunda linha, escolhido porque, de tão genérico, poderia ser moldado mais facilmente às necessidades de um Retorno depois de 20 anos, com todas as implicações de envelhecimento de elenco e personagens inclusos.
Coube a Spielberg um trabalho aparentemente não tão difícil para um gênio como ele - filmar com a linguagem e os elementos consagrados dos filmes anteriores. O uso do movimento da câmera para revelar perigos e surpresas, o diálogo canastrão, a preservação dos ícones - o chicote e o chapéu, os personagens abraçando a contragosto caveiras, as teias de aranha iluminadas por tochas, os insetos de tamanho assustador. O homem sabe fazer tudo isso sem precisar olhar no monitor.
Como parte integrante da série, esse episódio dá conta do recado. Mas a contribuição maior foi atualizar a viabilidade do personagem e de seu universo. É bom saber que o chapéu continua com Indiana.

Uma obra como a dele implora por análises e discussões. Não faltam. Gosto muito do Kubrick Site, que inclui algumas ótimas entrevistas com o homem. E essa coletânea de artigos da revista Cult também vale uma olhada. Faixa-bônus: uma interpretação didática de 2001; coisa velha, mas divertida.
É o título do próximo filme do Sacha Baron Cohen.
Todos os “dude” em The Big Lebowski, um dos vários filmes perfeitos dos Coen.

O guitarrista, D. Boon, veio com a idéia de igualdade no som da banda e a resolveu de forma inteligente: quase nunca usava distorção ou power chords e tirava os graves e os médios da guitarra, deixando espaço livre para o baixo de Mike Watt. Cabia ao MONSTRO George Hurley costurar tudo com a bateria. O resultado era uma mistura inclassificável de punk, jazz e funk aplicada em doses ultraconcentradas - as músicas raramente passavam de 2 minutos.
O melhor exemplo é o álbum duplo Double Nickels on the Dime, clássico absoluto, com 45 faixas. Para eles, o que interessava era a essência das músicas e o fluir delas no disco. Impressionismo punk da melhor qualidade. E muito bem tocado. E criativo pra diabo.

Como documentário, tudo muda.
Os personagens são um achado. De um lado, Billy Mitchell, o superstar do professional-retro-gaming, o detentor do recorde absoluto no jogo desde a década de 1980, o empresário bem-sucedido do ramo de molhos, o patriota de gravata com a bandeira dos EUA. Do outro, Steve Wiebe, o pai de família, o professor de escola primária, o cara que tentou a sorte em áreas como o esporte e a música e nunca se realizou em nada, o abnegado com tendências obssessivo-compulsivas e muito a provar a si mesmo.
O antagonismos dos dois, ainda que mostrado em forma de luta entre bem e mal, surpreende pelo humor e pelo suspense. Durante todo o filme, Wiebe se submete ao escrutínio e à pressão da comunidade dos jogos (e pela própria equipe do documentário…) em busca de um duelo direto com Mitchell, que insiste em se manter oculto, rondar de carro os locais de competição, enviar fitas com recordes suspeitos e acionar capangas para monitorar o desempenho do adversário.
Da mesma forma que Murderball, o truque do diretor Seth Gordon é se aprofundar nos personagens e entender seu mundo e o que os motiva, sem julgamentos. Em ambos, a fome por realização pessoal é tudo. A novidade é mostrar que a fonte dessa realização pode vir de qualquer lugar.
Seria ridículo relacionar o excelente documentário Murderball (trailer), sobre atletas tetraplégicos da rúgbi de cadeira de rodas, a baboseiras melodramáticas sobre superação humana, mas também não tem como se emocionar. Como diz um dos personagens principais, o jogador Mark Zupan, eles não jogam pelos tapinhas nas costas e pela comiseração alheia, mas para vencer. E isso num esporte violento e e extremamente competitivo.
Entre cenas de rivalidade entre a seleção norte-americana e o treinador Joe Soares, ex-atleta do time e que foi treinar a seleção canadense, o filme mostra detalhes da vida cotidiana dos cadeirantes, mas vai além do arroz-com-feijão das abordagens habituais do assunto. Destaque o lento processo de recuperação de um recém-acidentado que passa pela reabilitação, volta para casa e se interessa pelo esporte. E também para a cena em que descrevem as recorrentes conversas em que mulheres curiosas sobre a capacidade sexual deles lutam para chegar até a pergunta fatídica: “mas ainda funciona… aí embaixo?”
Um filme que alcança a bela e difícil mistura de delicadeza e agressividade. Se há alguma lição a tirar, talvez seja esta: use o que tiver à disposição, da melhor forma possível, pare de reclamar um pouco e faça alguma coisa que preste na vida.
Em cartaz: Beowulf, segundo sinal (o 1º) de que Robert Zemeckis caminha alegremente para a senilidade. O roteiro de Neil Gaiman e Roger Avary não ajuda, os personagens parecem bonecas de plástico, as cenas de ação são conservadoras e pouco empolgantes - o contrário do que seria de se esperar pela tecnologia tão exaltada por Zemeckis por sua suposta liberdade. Não me entandam mal, não sou contra a tecnologia em si; só espero que a usem quando funcionar.
Quantia desperdiçada: R$ 4,50 e dois passes de metrô.

Tropa de Elite é, realmente, muito bom. Vi no cinema, portanto uma versão ligeiramente diferente da que vazou há algumas semanas, pelo que li. A principal mudança, suponho, é a redução da narração em off do personagem de Wagner Moura. O que é curioso, já essa narração é o ponto fraco do filme, aquilo que o prejudica duplamente: trata-se não só de uma “muleta”, como disse o Hector Babenco, como dá brecha pra crítica de que é um filme fascista.
O lance do fascismo, imagino, surge facilmente porque essa narração mistura didatismo exagerado e ponto de vista do personagem numa coisa só. Em alguns momentos, não parece o Capitão Nascimento dando uma opinião, mas o diretor, José Padilha, querendo validar um argumento. Totalmente desnecessário. Talvez seja uma concessão ao mercado estrangeiro, onde o filme será certamente comercializado pelo Harvey Weinstein.
Pelo ponto de vista formal, a narração em off dilui muito a força do filme - que já é enorme, mas poderia ser ainda maior. A maioria das idéias poderia ser introduzida por diálogos ou encenação.
Fora esses problemas, na verdade pequenos, é um puta filme. Absurdamente bem filmado, fotografado e montado. E há um motivo para que cause tanta discussão: o tema é forte, e a visão de mundo dos personagens é dura. Corajoso, esse Padilha. Preciso urgentemente ver Ônibus 174 para comparar.

Só febre e gripe pra dar clareza.
Rejeitados Pelo Diabo é um dos filmes mais humanistas dos últimos anos, apesar de mostrar psicopatas sádicos, policiais violentos e mais imoralidade por frame do que a maioria da produção cinematográfica norte-americana recente.
Na história, os membros remanescentes da família Firefly (apresentada no filme anterior de Rob Zombie, A Casa dos 1000 Cadáveres) saem em fuga da polícia após uma emboscada. No caminho, barbarizam alguns viajantes, matam outros por diversão e acabam fuzilados pela polícia.
Não há por quem torcer no filme, visto que todos são canalhas, de uma forma ou outra. Mas é justamente essa falta de referência de moralidade dentro do filme que obriga o espectador a buscá-la dentro de si.
E mais: ao tornar os assassinos protagonistas e examinar sua dinâmica familiar - eles se amam e se importam uns com os outros, cada um à sua maneira -, mostram que os sádicos e malvados, em toda sua brutalidade, são tão humanos quanto qualquer um. Zombie, também roteirista, descarta a idéia (da qual eu também discordo) de que psicopatas e, de uma forma mais abrangente, a violência sejam elementos “inumanos” ou “monstruosos”. O espectro humano abarca isso tudo também.
Não bastasse essa perspectiva completamente inesperada para um filme de terror supostamente irresponsável (bem, não deixa de ser), traz um dos finais mais absolutamente fenomenais que já vi, com os protagonistas rumando em direção à morte ao som de Free Bird, do Lynyrd Skynyrd.
Vi Os Infiltrados, do Scorsese, e cheguei à conclusão de que o filme tem algo de muito certo e algo de muito errado, as duas coisas convivendo em cada plano, cada cena. Não sei definir ambas. Gostei.

X-Men 3 se beneficiou das baixíssimas expectativas em relação a ele. Tudo, como as fotos de divulgação, a sinopse e a escalação do Brett Ratner na direção, indicava o rumo à excrescência plena. Ver um filme menos ruim do que o esperado foi uma surpresa das mais ordinárias, mas ainda sim surpresa.
Algo de que a princípio não gosto, mas achei que funcionou (na medida do possível) foi a estratégia quadrinhesca de encher a trama de personagens em um conflito ridiculamente desenvolvido e forçar situações extremas (morte, castração simbólica, abstinência sexual forçada, essas coisas). O subdesenvolvimento dos personagens veio como resposta infantil, mas até interessante, de estilo em relação aos dois filmes anteriores. Como se Ratner tirasse onda das pretensões artísticas de Bryan Singer com porralouquice sem personalidade e espalhafato acerebrado.
No mais, ao contrário do que parece numa leitura rápida que se baseie na contagem de cadáveres, o “confronto final” do título não se justifica em absoluto, já que um número respeitável de pontas soltas foram deixadas. E estabelececido um clima de estranheza e arbitrariedade narrativa que não existiam antes no filmes, mas que fazem parte da própria cultura de quadrinhos. Me refiro à questão da absoluta despreocupação em relação a justificativas decentes sobre mortes e ressurgimento de personagens. Fiquei com a impressão de que todo mundo que morreu ou foi “castrado” no filme pode perfeitamente retornar alegremente em uma provável seqüência. É muito dinheiro envolvido para a galera do Marvel Studios se preocupar com coerência, pelo amor de deus.
E fica aqui meu repúdio à rasteira referência aos Sentinelas no início do filme. Pra mim, esses seriam os melhores vilões possíveis para um filme dos mutantes. Avi Arad, liga pra mim que eu te explico melhor.
Numa bela coincidência, ao mesmo tempo em que eu vinha estudando a ficção científica para um trabalho, topei com a edição em DVD desse belo exemplar do gênero. Por mais que possam haver críticas sobre a falta de rigor teórico e lógico em relação às causas e efeitos das viagens no tempo de Marty McFly, esse filme realiza exatamente o que se propõe (divertir), com um nível de imaginação, senso de humor e técnica incomuns até hoje.
Vale dizer que uma das discussões mais recorrentes e polêmicas sobre a sci-fi é o caráter científico de suas histórias. O próprio nome do gênero entra em xeque. Alguns defendem a alternativa “ficção de especulação”, com a qual concordo: na sci-fi, em geral, o foco não está na ciência e nos pormenores tecnológicos, mas no exercício de imaginação e reflexão sobre a realidade humana.
De Volta Para o Futuro ignora o lado anal-retentivo desse debate e usa os elementos científicos só até o ponto em que eles não interfiram no roteiro e na fluidez da narrativa. O mais evidente paradoxo está no fato de Marty influir diretamente nos eventos que levaram ao início da relação de seus pais, inclusive alterando-os radicalmente. Esse problema até é mencionado e usado na trama, mas nunca ultrapassando os limites do inteligível.
Talvez a maior contribuição do filme para o gênero seja justamente essa liberdade teórica a serviço do efeito final na tela. Os personagens e as modificações que sofrem ao longo das indas e vindas temporais são o foco do filme, e não as hipotéticas possibilidades científicas da viagem no tempo. Não interessa examinar a lógica do gradual sumiço da mão de Marty na cena do baile, ou o real propósito de um “capacitor de fluxo” (?). Francamente, qual é a graça de se questionar isso?

Primeiro longa do italiano Dario Argento como diretor, é também o exemplar inaugural do subgênero giallo - thrillers de horror sobre serial killers com tesão por facas reluzentes e peças de couro preto.
Nesta primeira incursão, Argento apenas esboça a estilização extrema e a violência operística em que se transformarão suas cenas de assassinato. Em Suspiria, chega ao patamar do sublime. Aqui, ele ainda está no aquecimento, apesar da força de suas imagens. Poucas vezes o assassinato foi tão carregado de erotismo como nesse filme de Argento.
A história é bastante simples. Sam, um escritor americano, testemunha uma tentativa de assassinato de uma mulher numa galeria de arte, na Itália. Interrogado pela polícia, descobre que o assassino deve ser responsável por outras mortes - e que se tornou um suspeito. Começa então a fazer sua própria investigação sobre os crimes.
O grande cartão de visitas de Argento é a cena da galeria de arte. Num exercício de adorável cinefilia, o protagonista Sam enxerga a tentiva de assassinato através da vitrine transparente da galeria - uma exata representação da tela de cinema. Argento vai ainda mais longe, ao fazer que Sam tente entrar na cena do crime em andamento e fique preso entre as duas lâminas de vidro que separam a galeria da rua. Preciosa lição sobre os limites da relação entre espectador e filme.
Argento prossegue sua divagação cinéfila ao espalhar diversas referências sobre enquadramento sob forma de objetos retangulares que atraem a atenção dos personagens (fotografias, quadros). Pena que esses elementos não tenham sua importância devidamente discutida nos trechos finais. Desde seu primeiro filme, o ponto fraco de Argento está no roteiro. Ainda bem que há muitas compensações.
Depois de muito tempo de hesitação, ruminância, delírio e vertigem, decidi criar um blog só sobre cinema: 35mm.
(A princípio queria chamá-lo MacGuffin, mas achei que ia ficar muito obscuro.)
Meu plano é chutar a sempre sedutora inércia e atualizar o blog diariamente com críticas, links, notícias, artigos e o que mais for interessante. O tom e o ritmo do trabalho deve vir com o tempo, supondo que tenha gás para tocá-lo dessa forma por mais de uma semana (considerando que todo o trabalho será feito de madrugada). Espero que só o fato de escrever minhas intenções aqui sirva como elemento de coação.
E não posso esquecer de uma coisa: colaborações serão mais do que bem-vindas. Quem gostar da idéia e quiser ajudar, mande um e-mail para dlimasouza arroba gmail ponto com.
Divertido filme de horror que presta homenagem a muitos clássicos do gênero (em especial ao cenário de mato & chalé claustrofóbicos de Evil Dead e à paranóia de O Enigma de Outro Mundo). Quantidades adoráveis de sangue, sexo e demência, com personagens não exatamente simpáticos, mas adequados ao contexto. Destaque para o policial com obssessão por festas e uma sensual cena de depilação.
Se por um lado este consegue ser um interessante, irregular e cínico filme sobre um traficante de armas, o tema parece ser tão importante que o tratamento soa simplesmente errado e imaturo. Gostaria de ver o assunto de volta à tela, mas nas mãos de alguém menos preocupado em chocar e mais interessado em discutir o problema.

Que coisa maravilhosa é o DVD de O Virgem de 40 Anos. Extras fantásticos, como um mini-documentário sobre a cena de depilação; cenas descartadas interessantes; toneladas de improvisações não usadas no filme (inclusive a que deu origem à já clássica “how do I know you’re gay?”) e faixa de comentários com o diretor Judd Apatow & quase todo o elenco. Tudo isso legendado em português, o que é ainda melhor (e tragicamente incomum).
Ah, mesmo que não tivesse nada a mais no disco, já valeria a pena pelo filme em si e pelo final mais maravilhoso dos últimos anos.
E caso alguém aí não tenha visto esse filme pensando ser um similar da série American Pie, sugiro pensar novamente. Diferente desse tipo de comédia, que parte de contextos sexualmente liberais (”vida de universitário”, festas etc) para em seguida reprimir o sexo das formas mais histericamente conservadoras e deprimentes, esse aqui toma o caminho inverso: parte da repressão para a liberação (com uma ressalva lá pela conclusão, infelizmente). Melhor comédia do ano passado, ao lado de Amor em Jogo.
Filme de William Friedkin com roteiro de James Ellroy? Hmm.