July 7, 2009

aquele em que não evito falar sobre jacko

A morte de Michael Jackson me relembra dessa ânsia geral de querermos resumir toda a vida interior das pessoas em uma ou duas frases com pretensões analíticas. “Era freak, mas também atormentado pela infância traumática. Queria refazê-la quando adulto”, e assim por diante. Em última instância, é tudo bobagem.

É algo que o jornalismo absorveu da sociedade e transformou em técnica (não o contrário): decupar massas complexas, muitas vezes ininteligíveis, de informação e vácuos de informação em algo sucinto e ordenado, ornado por agradável cheiro de senso comum. Ou, no trato popular, nada mais do que uma modalidade da fofoca junto ao bebedouro, num intervalo do batente - é preciso um mínimo de concisão pra transmitir o dado/interpretação a tempo de voltar à escrivaninha.

No caso de MJ, há ainda bela mistura de excesso de informação acessória e quase absoluta ausência de informação essencial, combinação que fermenta há anos em nossas cabeças cheias de imagens - os beijos gelados em Lisa Marie, o não-nariz, o bebê chacoalhado da sacada.

Divago, mas meu ponto é simples: não tínhamos, e continuaremos sem ter, como conhecer o cara, ou mesmo a maioria das pessoas que encontramos. É mais do que dizer que as pessoas são complexas: é afirmar que são intermináveis. Ou, empregando frase do Antônio Lobo Antunes na Flip: “Não há profundidade, há infinitas superfícies.”

Meu próprio impulso besta é sentir pena de MJ. Ideia de reação correta: aceitar que não se sabe nada.

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