July 13, 2009

sobre ser outsider

Autobiografia do diretor Alejandro Jodorowsky, rabiscada em 1988:

“Was born in Bolivia, of Russian parents, lived in Chile, worked in Paris, was the partner of Marcel Marceau, founded the ‘Panic’ movement with Fernando Arrabal, directed 100 plays in Mexico, drew a comic strip, made ‘El Topo,’ and now lives in the United States — having not been accepted anywhere, because in Bolivia I was a Russian, in Chile I was a Jew, in Paris I was a Chilean, in Mexico I was French, and now, in America, I am a Mexican.”

A propósito, finalmente assisti a “El Topo“. Recomendo-o na mesma medida em que sou incapaz de falar coerentemente sobre ele.

July 11, 2009

nunca é fácil

Toda ilusão de caminho fácil está fadada ao fracasso. Trecho da entrevista do Gay Talese na Paris Review:

INTERVIEWER
Why did you choose journalism as a major?

TALESE
The main reason was that it seemed like the easiest thing to do.

Aí você topa com o rascunho de “Frank Sinatra Está Resfriado”, sua reportagem mais conhecida e um clássico incontestável das faculdades de jornalismo:


Clique para ver maior

INTERVIEWER
Did you write as slowly and carefully then as you do now?

TALESE
All the other reporters of my generation would come back from an assignment and be done with their piece in a half hour. For the rest of the afternoon they’d be reading books or playing cards or drinking coffee in the cafeteria, and I was always very much alone. I didn’t carry on conversations during those hours. I just wanted to make my article perfect, or as good as I could get it. So I rewrote and rewrote, feeling that I needed every minute of the working day to improve my work. I did this because I didn’t believe that it was just journalism, thrown away the next day with the trash. I always had a sense of tomorrow. I never turned in anything more than two minutes before deadline. It was never easy, I felt I had only one chance.

July 7, 2009

táxi negro

Muito boa a ideia das Black Cab Sessions: colocar músicos para tocar dentro de um táxi, circular por Londres, gravar tudo. Apresentações acústicas muito boas, em sua maioria. Como a do Ryan Adams com o Neal Casal, por exemplo. Tem ainda Calexico, Walkmen, Grizzly Bear, Spoon, Fleet Foxes, BRIAN WILSON. Bem foda.

timing

Entrevista com Kurt Vonnegut na McSweeney’s:

Q: But at least a couple times, I’ve been moved to tears by your books. The passage in Timequake when you discuss the last conversation you had with your first wife is devastating.

Vonnegut: Yeah. [Long pause] I got that right, didn’t I?

Q: Perhaps hiding those moments between all of the jokes gives them particular impact.

Vonnegut: Well, the telling of jokes is an art of its own, and it always rises from some emotional threat. The best jokes are dangerous, and dangerous because they are in some way truthful. By the way, do you know the secret of telling a joke well?

Q: [Tries to answer, but he beats me to it]

Vonnegut: TIMING! [Laughs]

aquele em que não evito falar sobre jacko

A morte de Michael Jackson me relembra dessa ânsia geral de querermos resumir toda a vida interior das pessoas em uma ou duas frases com pretensões analíticas. “Era freak, mas também atormentado pela infância traumática. Queria refazê-la quando adulto”, e assim por diante. Em última instância, é tudo bobagem.

É algo que o jornalismo absorveu da sociedade e transformou em técnica (não o contrário): decupar massas complexas, muitas vezes ininteligíveis, de informação e vácuos de informação em algo sucinto e ordenado, ornado por agradável cheiro de senso comum. Ou, no trato popular, nada mais do que uma modalidade da fofoca junto ao bebedouro, num intervalo do batente - é preciso um mínimo de concisão pra transmitir o dado/interpretação a tempo de voltar à escrivaninha.

No caso de MJ, há ainda bela mistura de excesso de informação acessória e quase absoluta ausência de informação essencial, combinação que fermenta há anos em nossas cabeças cheias de imagens - os beijos gelados em Lisa Marie, o não-nariz, o bebê chacoalhado da sacada.

Divago, mas meu ponto é simples: não tínhamos, e continuaremos sem ter, como conhecer o cara, ou mesmo a maioria das pessoas que encontramos. É mais do que dizer que as pessoas são complexas: é afirmar que são intermináveis. Ou, empregando frase do Antônio Lobo Antunes na Flip: “Não há profundidade, há infinitas superfícies.”

Meu próprio impulso besta é sentir pena de MJ. Ideia de reação correta: aceitar que não se sabe nada.

July 5, 2009

minivan highway

Conheçam Mark Salud e seu techno tocado num computador Amiga:

Conheçam Tim & Eric e sua paródia de Mark Salud:

Boa noite.

contraste

Fuçando entre vídeos antigos do Who, inevitavelmente topo com aqueles gravados após 1978, ano da morte de seu baterista, Keith Moon. No lugar, foi escalado Kenney Jones, ex-Faces (banda de Rod Stewart e de Ron Wood). A força do contraste torna melancólico assistir a esses vídeos.

O trabalho de Jones foi difícil demais: substituir o maior baterista da história do rock - ou segundo maior, caso o leitor seja partidário de John Bonham. E o mais carismático, louco e anárquico também. Não havia vitória possível.

Não houve, realmente. Jones é lembrado, se tanto, como um elemento que prolongou a existência da banda numa época difícil, apresentando-se de forma digna. E só. Logo ele, um baterista de grande técnica e força, de precisão quase metronômica; total oposto de Moon nesse último quesito. O cara é, e já era então, um puta baterista. À sombra de Moon, porém, ele não deixou marca ou legado na banda, que integrou por alguns poucos anos. Essas coisas acontecem.

July 4, 2009

springsteen


Ouço cada vez mais a Bruce Springsteen. Há grande chance de não fazer apenas pela música em si. É um tipo de rock expansivo, entusiasmado e com grandes ganchos pop; serve tanto a um bar esfumaçado quanto a uma arena cheia de gente aos berros. A E Street Band sem dúvida soa confortável nos dois contextos. É grande música. Mas não é tudo.

O que me atrai mais, começo a constatar, é a ausência total de cinismo em Springsteen. Nem em letras e arranjos nem em performance. Até os exageros emocionais parecem genuínos. Não há notas falsas no discurso blue collar dele, em suas histórias de pobreza material e grandeza moral, em seus relatos de amor entre pessoas machucadas pela vida. É um grande contador de histórias.

A forte identidade americana não me afasta (geralmente não afasta mesmo), Springsteen faz bem mais que filtrar a mentalidade do país em forma de música. Ouço “Thunder Road” cada vez mais transtornado pelas imagens dessa canção. Está tudo lá: amor perdido, medo, coragem, fragilidade, entrega, assombro. Fico emocionado de verdade.

Posso estar chafurdando numa visão melodramática de mundo, mas vejo cada vez menos espaço para esse tipo de enternecimento. Algo mais do que a lágrima socialmente aceita quando induzida por comédias românticas. Pouca coisa além disso, o cinismo geral rotula cafona, brega, ingênuo.

A música de Springsteen é imune a esse ataque. É direta e honesta. E emocional sem abdicar da razão (nunca; quem me conhece sabe minha ênfase nisso). É, em resumo, uma boa forma de encarar a vida. Algo como o clipe de “Dancing in the Dark“.

Abaixo, fiz uma playlist só de pérolas. Apreciem.