April 9, 2008

perfis de amigos imaginários I

Marcelina gosta de ler, e de fato lê muito. Empresta de diversos amigos, mesmo de uns poucos conhecidos do trabalho, e rapidamente devolve, sem discutir seu conteúdo ou dizer se apreciou o que leu. Ela própria, contudo, não possui nenhum volume, com exceção de um. Não sei o título. Cobriu a capa com plástico preto e raramente o deixa fora da bolsa. Por cima de seu ombro, vejo blocos de texto, talvez dois ou três numa página, sem vincos de travessões. Ela percebe minha presença e o fecha. Descarto a hipótese de poesia, embora ela declame um ou outro Drummond, sempre de cabeça e de forma desorganizada, misturando versos de poemas diferentes e criando imagens únicas. Raramente fazem sentido, e ela sorri com maior intensidade à medida que o absurdo é contemplado.

Sem jeito, pergunto do livro. Seu título, seu autor, seu conteúdo. Ela coça o canto dos lábios planos de seriedade com a ponta da unha negra e começa a contar uma história. Aos 15 anos, sua vizinha em Santos, onde morava, disse ter descoberto o Diabo no guarda-roupas. Marcelina, cínica mas curiosa, vai comprovar a informação. Ao abrir o guarda-roupas, vê o Diabo. Diferente de suas expectativas, parece um boneco feito com cinco pedaços de carvão, sem rosto, boca, rabo, olhos, dedos, orelha ou qualquer outro traço que lhe confira fisionomia. Também não carrega um tridente. Move-se lentamente, em gestos que causariam impressão de ameaçadores, não fossem feitos por tocos de carvão. Marcelina esfrega os dedos no Diabo e suja as pontas. Limpa a mão no vestido e pergunta ao Diabo se ele é mau como se costuma ouvir. A amiga responde que não. O toco de carvão acena com um movimento do tronco, como se confirmasse a informação. O aceno demora cerca meio minuto. Contrariando sua natureza, Marcelina aceita a resposta oferecida e faz um pedido ao Diabo. Neste ponto, Marcelina diz que o conteúdo do pedido está diretamente ligado ao livro que carrega, e que não pode revelá-lo. Estica o braço, aperta meu ombro, diz que está atrasada e vai embora.

Dois meses depois, numa mesa de bar na Augusta, exijo a continuação da história. Digo que perdi algumas noites de sono por causa dela. Alguns mistérios, mesmo inexistentes, merecem resolução. Ela diz que o Diabo, vil, mas receoso em ser demasiadamente mau e chamar atenção desnecessária para sua existência terrena em forma de carvão, concedeu-lhe o pedido com pequenas ressalvas. Uma, a de que não revelaria o conteúdo do livro a ninguém. Outra, que nunca possuísse livro algum além daquele.

As condições, inicialmente prosaicas aos olhos de Marcelina, começaram a lhe causar angústia após alguns anos. Lia tudo com pressa, de pé nas livrarias ou bancas de jornal, e amaldiçoava exemplares selados com plástico. Sem poder possuí-los, devorava sem digestão. Citava frases e parágrafos mas não conseguia contextualizar idéias. Discutia com facilidade apenas aspectos de sua vida diária ou experiências pessoais. Era divertida e inteligente, porém. Mantinha o bom humor e sabia ser agradável. Conhecemo-nos num bar da rua Augusta, falando de qualidades de tecidos.

Morre com duas facadas no pescoço ao se recusar a entregar o livro durante um assalto na Praça da República.

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