March 30, 2008

a magia episódica do futebol

Uma diferença fundamental do futebol para grande parte dos outros esportes: a maioria das partidas é entediante pra diabo. E isso é excelente.

Diferente do basquete, por exemplo, em que todas partidas são um espetáculo de indução à dormência pelo seguido virar do placar, o futebol investe na potência do clímax. É como a questão da compressão e da dynamic range na música: cada vez mais, nivelam a experiência e jogam fora a nuance. Sem silêncio não há como apreciar o refrão emotivo e catártico. No futebol, há justamente esse senso de nuance.

A maioria dos jogos não é lá muito digna de nota. Mas quando há um jogo realmente bom, os entusiastas rapidamente o reconhecem como tal. E falam sobre ele, e discutem minúcias, e reproduzem jogadas com as mãos e os pés. O extraordinário se destaca. Resta a nós agradecer pelo jogo de canela e pelo beque pedreiro, nossos instrumentos de calibragem da alegria.

a ►◄ b


Enquanto por aqui a revista Mad volta às bancas em nova editora, lá o NYT relembra algumas grandes contracapas dobráveis do veterano Al Jaffee. Provavelmente a atração mais elaborada, constante e inteligente da revista. Mas Aragonés e Spy vs Spy chegam perto.

March 29, 2008

sociedade de apreciação de nick cave


Cave crooner lúgubre ou Cave roqueiro, o homem sabe o que faz. Muito bom esse Dig, Lazarus, Dig!!!, disco lançado esse mês. E excelente o bigode ostentado no clipe, mais um daqueles em que Cave canta olhando para a câmera (1, 2, 3).

March 23, 2008

OI MAE TO NA RAMPS RS

Enfim, o que faltava na internets: LULALOL.

a mãe do kyle é uma vaca

Todas as temporadas e todos os episódios do South Park, na íntegra, sem comerciais, em boa qualidade, com cenas extras. E oficialmente. Bonito de se ver.

March 22, 2008

seis cordas

Resolvi trocar de violão.

Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.

O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador - um solitário e seu violão contra o mundo.

A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.

O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.

A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si - esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.

A caça começa em abril.

March 19, 2008

de volta à matriz do monolito


Arthur C. Clarke, RIP…

cortejo à onipotência

Isso é tão revolucionário, maluco, improvável e extraordinário que, ao mesmo tempo em que babo de vontade de experimentar pessoalmente, também desejo com ardor que seja um muitíssimo bem feito boato digital, tamanha a desconcertação.

Como resumiu o Alexandre Matias, é o photoshop do som. Vejam o vídeo:


A julgar pela amostra, não haveria mais limites para a manipulação sonora. Seria o esvaziamento total da performance? Ou justamente o contrário? Tendo a apostar na segunda hipótese.

Imaginem: se até hoje somos iludidos facilmente por manipulações visuais razoavelmente bem-feitas, a nanomanipulação sonora (ou sei lá que termo usar pra isso; supermanipulação?), totalmente inédita nesses termos, seria praticamente indistingüível da coisa real (real onde mais?). Como identificar o que não é manipulado, ou é manipulado em níveis “normais”, do que é ajustado com o Melodyne? (Meu deus, olhem esse nome. Sci-Fi pura, sem gelo)

E qual o papel do instrumento musical? Um periférico qualquer? Mero meio de input grosseiro? Se unirmos o sampling, o sintetizador, o emulador e o Melodyne, caixinha de fósforo pode virar bateria eletrônica…

Ao mesmo tempo, a performance ao vivo pode ganhar mais importância cultural. De cara relembro o conceito de aura dos alemães da Escola de Frankfurt, de como esse senso de importância e relevância que emana da obra artística (que supostamente se esvaiu na “era da reproductibilidade técnica”) retorna com violência na era da simulação e da manipulação digital. Seria o tira-teima, a manifestação “honesta”, sem filtros. É de se perguntar o valor que conferiremos a essas coisas no futuro próximo, ou mesmo que conferimos hoje, mas o impacto dessa performance da música sem mediação ainda está pra ser visto.

Isso sem contar no impacto criativo. Se com mash-ups a coisa já atinge misturas incríveis, com esse programa o limite é infinito. Mais do que misturas, imaginem releituras de músicas conhecidas. Joy Division todo em acordes maiores, alegres e ensolarados. O desafio de fazer a banda A fazer um cover da banda B com suas próprias músicas. É tanta possibilidade, desde as mais imbecis às mais sofisticadas, que não vale a pena gastar todos os neurônios de uma só vez. Ao que parece, gastaremos todos juntos.

Isso se não for o vaporware mais sensacional já pseudofabricado.

Vou lá deitar pra ver se passa a dor de cabeça.

March 18, 2008

dramaturgia milton neves

Essa turma que produz a novela Duas Caras tá PEGANDO PESADO no merchandising. Não bastasse ter personagens importantes empregados pela rede de supermercados Extra, me aparece o Nuno Leal Maia fazendo compras no local. Digo: fazendo compras METODICAMENTE, avaliando qualidades de vidros de azeite e escolhendo um ovo de páscoa. Posicionamento de marca mais sutil que a crítica cinematográfica do baluarte da finesse, o Alborghetti.

March 16, 2008

filtro #1

Her cell phone is ringing, but the display is turned off. She lightly pushes a small dot on the skin on her left forearm to suddenly reveal a two by four inch tattoo with the image of the cell phone’s digital display, directly in the skin of her arm.
A tatuagem digital

When the right hemisphere of the brain, the seat of emotion, is stimulated in the cerebral region presumed to control notions of self, and then the left hemisphere, the seat of language, is called upon to make sense of this nonexistent entity, the mind generates a “sensed presence”.
A simulação de Deus

Looking down at the application, it blurred in front of my eyes. Could I really do this? Could I really become a — a car salesman? Me, a law abiding middle-aged American. A — gasp — college graduate (well, barely). A writer. A person sometimes described as soft spoken and reserved? Why was I applying for a job in one of the most loathed professions in our society?
Na pele de um vendedor de carros

Crumb é um tímido rematado que se encurva, magro, se esconde atrás dos óculos e tem ar de quem conheceu mais pessoas do que teria desejado. Mais tarde, à mesa de um restaurante vietnamita da cidadezinha vizinha, ele explica: “Não vejo que interesse há em falar comigo. É muito melhor falar com Aline. Me perguntam: “Por que vocês se mudaram para a França?”. E eu digo: “Não sei. Aline, por que o fizemos?’”.
Visita a Crumbland (só p/ assinantes folha/uol)

anders parker

Outra boa descoberta dos últimos dias: Anders Parker. Entrem no MySpace do cara e ouçam Tell it to the Dust, um refrão bonito de doer. O disco homônimo, de 2004, também vale a pena.

March 15, 2008

a raiz de todo mal

Para minha surpresa, Lewis Black ganhou um programa de televisão: The Root of All Evil.

Lewis Black é a personificação da esquete Eu fico puto!, do Marcelo Mansfield, só que mais elaborado. O estilo… hmm, PUTO do Black é hilário, é a reclamação elevada ao status de arte humorística. Conhecia o cara de participações no Daily Show e de alguns especiais da HBO, em geral muito bons. Mas ver um comediante stand-up com um programa fixo é sempre temerário, já que, pelo que sei, parir 30 minutos de material cômico é mais difícil do que dar à luz um PredAlien.

A solução foi reduzir sua participação. Ele age como juiz que decide qual de duas personalidades ou instituições é mais maligna. No episódio de estréia, os réus eram Oprah e a Igreja Católica. Dois humoristas agem como advogados de acusação. É uma espécie de duelo indireto, já que cada comediante fala do próprio tema, sem dialogar com o outro. Black apenas preenche os espaços com tiradas curtas. Pouco revolucionário, mas engraçado, apesar do cara que acusa a Igreja construir mais da metade de suas punchlines em cima da palavra “boyfucking”.

ronda

Os perigos do mau planejamento
Abandone seu projeto de aposentadoria em Marte
O botox está destruindo Hollywood?
Pixels mortos no céu

feijoada completa

O almoço solitário não ajuda o estômago - acabo comendo rápido demais, o pensamento correndo atrás do próprio rabo, o pedaço mal mastigado goela abaixo - mas é um dos melhores momentos para observação das pessoas ao redor. O João Ubaldo Ribeiro diz que adora. Mas gostamos por motivos diferentes, provavelmente. Enquanto ele busca as histórias, eu fico mais interessado nos gestos. As pequenas coisas que separam o homem de um animal sem graça, como o girafa (a vida besta lá em cima).

A forma de organizar o prato, por exemplo. É um dos gestos com mais significado pois mistura tudo: a cultura, a fisiologia, o instinto, a psique (ou desejo). Poucas coisas são tão pessoais. E, ao mesmo tempo, num refeitório ou restaurante, é algo aberto, à mostra. E dá-lhe conversa, piscadela, piada, olhar atravessado por sobre o bife, alface no dente, soluço contido com esforço.

Ah, terráqueos.

March 14, 2008

no escuro do meu quarto, à meia-noite

Hoje, sou exatamente o que sonhei ser. Envelhecer, pra mim, é um objetivo, e eu juro pelo que há de mais sagrado que eu vou conseguir, e já estou conseguindo. Deus me livre de ficar eternamente jovem, e prefiro mil vezes ser bem esquecido do que mal lembrado.

Texto de 2006 do Guilherme Arantes - um dos mestres do pop brasileiro, há alguns anos meio deixado de canto, infelizmente - refletindo sobre a carreira e suas escolhas (e acasos) na vida. Dica do camarada Sttevam.

March 11, 2008

neal casal para presidente, obama para vice


Neal Casal, sintoma positivo do século XXI

Rompendo com o pessimismo e amargura habituais no que se refere à avaliação da vida como a vivemos hoje - trânsito, armas de destruição em massa portáteis e o fim dos aperfeiçoamentos estruturais do forno microondas -, até que não estamos mal. Veja, é uma avaliação possivelmente comprometida por algum entusiasmo benigno passageiro, mas não deixa de ter alguma validade. Não estamos mal: o Palmeiras finalmente tem não apenas um, mas dois meias-armadores; tornou-se razoavelmente seguro andar pelas ruas com um CD Player portátil (ninguém quer roubar um desses mais); uma novela que mistura mutantes, vampiros, Malhação, Lost e Senhor das Moscas consegue manter-se no ar, gerar seu desdobramento em uma temporada adicional, abalar a liderança de audiência na Globo e prover material para piadas irresistivelmente idiotas, tudo ao mesmo tempo. Citei apenas uma amostra de sinais positivos, aleatoriamente.

E tem o Neal Casal.

Músico obscuro mesmo em seu país de origem, é mais conhecido por tocar guitarra na banda de apoio do Ryan Adams, o Cardinals. É o Richie Sambora do Ryan Adams, numa comparação propositalmente babaca. A diferença é que, por acaso, o Neal Casal é melhor músico e compositor que o Ryan Adams. E lança discos mais consistentes. E parece prescindir de uma fama de bad boy desbocado para justificar sua presença no mundo.

Tomemos seu disco de 2006, por exemplo, No Wish To Reminisce (download). É o equivalente masculino a The Forgotten Arm, da Aimee Mann, de 2005: disco alt-country/folk/rock/pop perfeito, timbragem quente, letras simples, refrões de derreter os glóbulos vermelhos nas artérias. Do tipo que se tornaria fóssil numa prateleira, mas circula silenciosamente pela internet, como um boato implausível.

Não diga que uma época que permite esse tipo de achado não tem algo de irreparavelmente bom.