March 26, 2006

‘de volta para o futuro’ e a sci-fi

Numa bela coincidência, ao mesmo tempo em que eu vinha estudando a ficção científica para um trabalho, topei com a edição em DVD desse belo exemplar do gênero. Por mais que possam haver críticas sobre a falta de rigor teórico e lógico em relação às causas e efeitos das viagens no tempo de Marty McFly, esse filme realiza exatamente o que se propõe (divertir), com um nível de imaginação, senso de humor e técnica incomuns até hoje.

Vale dizer que uma das discussões mais recorrentes e polêmicas sobre a sci-fi é o caráter científico de suas histórias. O próprio nome do gênero entra em xeque. Alguns defendem a alternativa “ficção de especulação”, com a qual concordo: na sci-fi, em geral, o foco não está na ciência e nos pormenores tecnológicos, mas no exercício de imaginação e reflexão sobre a realidade humana.

De Volta Para o Futuro ignora o lado anal-retentivo desse debate e usa os elementos científicos só até o ponto em que eles não interfiram no roteiro e na fluidez da narrativa. O mais evidente paradoxo está no fato de Marty influir diretamente nos eventos que levaram ao início da relação de seus pais, inclusive alterando-os radicalmente. Esse problema até é mencionado e usado na trama, mas nunca ultrapassando os limites do inteligível.

Talvez a maior contribuição do filme para o gênero seja justamente essa liberdade teórica a serviço do efeito final na tela. Os personagens e as modificações que sofrem ao longo das indas e vindas temporais são o foco do filme, e não as hipotéticas possibilidades científicas da viagem no tempo. Não interessa examinar a lógica do gradual sumiço da mão de Marty na cena do baile, ou o real propósito de um “capacitor de fluxo” (?). Francamente, qual é a graça de se questionar isso?

silêncio nunca mais

“NASA researchers can hear what you’re saying, even when you don’t make a sound.” (Via Metafilter)

constelação literária

Literature-Map, mapa visual de autores correlacionados. Infelizmente não muito atualizado, porque a busca ‘Bruna Surfistinha’ não retorna resultados. (Via Metafilter)

March 24, 2006

fuck fuck fuck [ad nauseam, fills whole page]

Macaulay Culkin se lança como escritor. Hum.

March 22, 2006

‘o pássaro das plumas de cristal’


Primeiro longa do italiano Dario Argento como diretor, é também o exemplar inaugural do subgênero giallo - thrillers de horror sobre serial killers com tesão por facas reluzentes e peças de couro preto.

Nesta primeira incursão, Argento apenas esboça a estilização extrema e a violência operística em que se transformarão suas cenas de assassinato. Em Suspiria, chega ao patamar do sublime. Aqui, ele ainda está no aquecimento, apesar da força de suas imagens. Poucas vezes o assassinato foi tão carregado de erotismo como nesse filme de Argento.

A história é bastante simples. Sam, um escritor americano, testemunha uma tentativa de assassinato de uma mulher numa galeria de arte, na Itália. Interrogado pela polícia, descobre que o assassino deve ser responsável por outras mortes - e que se tornou um suspeito. Começa então a fazer sua própria investigação sobre os crimes.

O grande cartão de visitas de Argento é a cena da galeria de arte. Num exercício de adorável cinefilia, o protagonista Sam enxerga a tentiva de assassinato através da vitrine transparente da galeria - uma exata representação da tela de cinema. Argento vai ainda mais longe, ao fazer que Sam tente entrar na cena do crime em andamento e fique preso entre as duas lâminas de vidro que separam a galeria da rua. Preciosa lição sobre os limites da relação entre espectador e filme.

Argento prossegue sua divagação cinéfila ao espalhar diversas referências sobre enquadramento sob forma de objetos retangulares que atraem a atenção dos personagens (fotografias, quadros). Pena que esses elementos não tenham sua importância devidamente discutida nos trechos finais. Desde seu primeiro filme, o ponto fraco de Argento está no roteiro. Ainda bem que há muitas compensações.

March 19, 2006

um blog de cinema para você

Depois de muito tempo de hesitação, ruminância, delírio e vertigem, decidi criar um blog só sobre cinema: 35mm.

(A princípio queria chamá-lo MacGuffin, mas achei que ia ficar muito obscuro.)

Meu plano é chutar a sempre sedutora inércia e atualizar o blog diariamente com críticas, links, notícias, artigos e o que mais for interessante. O tom e o ritmo do trabalho deve vir com o tempo, supondo que tenha gás para tocá-lo dessa forma por mais de uma semana (considerando que todo o trabalho será feito de madrugada). Espero que só o fato de escrever minhas intenções aqui sirva como elemento de coação.

E não posso esquecer de uma coisa: colaborações serão mais do que bem-vindas. Quem gostar da idéia e quiser ajudar, mande um e-mail para dlimasouza arroba gmail ponto com.

March 14, 2006

mulheres despencam do céu

Um belo microconto sci-fi encontrado no excelente Introdução ao Estudo da “Science Fiction”, de André Carneiro:

Uma Chuva de Mulheres
Pierre Versins

As primeiras chegaram pelo começo de maio. Eram tão belas e desejáveis que os homens sonhavam todas as noites e as perseguiam todos os dias. Em pouco tempo souberam que jamais elas eram difíceis e até os homens tímidos estavam fascinados. Elas faziam o amor com um refinamento e uma sutileza que suplantavam a mais ardorosa rival terrestre. O número já grande de solteironas aumentava.

E elas continuavam tombando do céu, encantadoras e sensuais, eclipsando sem dúvidas a nossa mulher mais perfeita. O amor tomava todo o tempo dos homens.

Elas continuavam lindas e não envelheciam nunca.

Levou muito tempo para se aperceber que elas eram completamente estéreis. Assim, quando meio século mais tarde seus robustos amantes desembarcaram de Vênus, a maioria sobre a Terra eram homens decrépitos e mulheres muito velhas.

Eles foram muito gentis e trataram a todos sem nenhuma brutalidade…

curtas: “cabana do inferno”, de eli roth

Divertido filme de horror que presta homenagem a muitos clássicos do gênero (em especial ao cenário de mato & chalé claustrofóbicos de Evil Dead e à paranóia de O Enigma de Outro Mundo). Quantidades adoráveis de sangue, sexo e demência, com personagens não exatamente simpáticos, mas adequados ao contexto. Destaque para o policial com obssessão por festas e uma sensual cena de depilação.

curtas: “senhor das armas”, de andrew niccol

Se por um lado este consegue ser um interessante, irregular e cínico filme sobre um traficante de armas, o tema parece ser tão importante que o tratamento soa simplesmente errado e imaturo. Gostaria de ver o assunto de volta à tela, mas nas mãos de alguém menos preocupado em chocar e mais interessado em discutir o problema.

March 13, 2006

the age of aquarius


Que coisa maravilhosa é o DVD de O Virgem de 40 Anos. Extras fantásticos, como um mini-documentário sobre a cena de depilação; cenas descartadas interessantes; toneladas de improvisações não usadas no filme (inclusive a que deu origem à já clássica “how do I know you’re gay?”) e faixa de comentários com o diretor Judd Apatow & quase todo o elenco. Tudo isso legendado em português, o que é ainda melhor (e tragicamente incomum).

Ah, mesmo que não tivesse nada a mais no disco, já valeria a pena pelo filme em si e pelo final mais maravilhoso dos últimos anos.

E caso alguém aí não tenha visto esse filme pensando ser um similar da série American Pie, sugiro pensar novamente. Diferente desse tipo de comédia, que parte de contextos sexualmente liberais (”vida de universitário”, festas etc) para em seguida reprimir o sexo das formas mais histericamente conservadoras e deprimentes, esse aqui toma o caminho inverso: parte da repressão para a liberação (com uma ressalva lá pela conclusão, infelizmente). Melhor comédia do ano passado, ao lado de Amor em Jogo.

March 7, 2006

john locke é o cara


Nesta semana termina a primeira temporada de Lost na Globo. Tem sido divertido acompanhar a série e chafurdar nas incontáveis possibilidades no diz respeito aos mistérios da ilha e de seus personagens. Só me incomoda a dúvida sobre da capacidade de seus roteiristas de amarrar as cada vez mais numerosas pontas soltas.

Imagino que uma das razões dessa política de ferrenha sonegação de informação dos autores da série é a tentativa de alongamento da vida útil do programa. Quanto menos se descobre a cada episódio, mais deles podem ser produzidos; parece ser essa a lógica usada.

Tomara que essa política seja inteligentemente administrada. Acho saudáveis as fartas doses de bizarrice e mistério da série até agora, mas espero que JJ Abrams e turminha tenham em mente que esse tipo de abordagem cansa muito rápido. O masoquismo do público tem limite. Além do mais, informação a conta-gotas é técnica um tanto barata. Funciona muito bem no início, talvez durante as duas primeiras temporadas, mas deveria mudar depois. Aí está o grande desafio dos roteiristas: depois de preparar o terreno, acelerar o ritmo progressivamente. Minha principal referência é 24 Horas (meu seriado favorito), em que a regra é que cada episódio seja mais intenso que o anterior.

Também há outras questões. O uso de flashbacks em cada capítulo tende a cansar. Além disso, deve chegar um ponto em que não seja mais possível extrair flashbacks decentes dos personagens.

Minha idéia de futuro para o seriado envolve o abandono de flashbacks, a mudança de foco - de mistério para ação, drama e thriller - e o amadurecimento dos sobreviventes. Gostaria de vê-los organizando-se mais seriamente, com todas as implicações sociais e hierárquicas que podem surgir nesse tipo de situação.

Opa, vai começar o episódio de hoje. Vou ver se o Locke se salva de um balaço na cara.

March 4, 2006

templo

Ontem prestei uma visita a um dos terrenos sagrados da burocracia: o Poupatempo da Luz. Confesso que fiquei emocionado. Na entrada, um balcão de informações circular, com duas funcionárias e pilhas e pilhas de folhetos com informações sobre procedimentos e a documentação necessária para sua execução. À frente, um amplo balcão de triagem, com quatro filas diferentes. À direita, um guichê para retirada de documentos. À esquerda, a glória: duas longuíssimas fileiras de bancos, com quase todos os lugares preenchidos com gente de fé, agarrando-se aos seus bilhetes impressos com senhas de um caractere e quatro dígitos (229.977 combinações possíveis). Três painéis cor laranja e três cor verde comunicam alegremente o código da redenção, que guia as almas atormentadas a uma das cerca de 50 mesas onde atendentes uniformizados ouvem suas queixas e prescrevem a salvação.

Não pretendo voltar.