February 3, 2006

Munique


Não sei se, afinal, Spielberg cresceu, mas o homem continua mestre inconteste de som & imagem no cinema. Espero o espetáculo. Seu sempre discutível amadurecimento, pra mim, acaba sendo bônus. Felizmente, é o caso.

Munique, na forma, presta homenagem aos thrillers da década de 70 (Operação França vinha bastante à mente, inclusive com alguns planos idênticos e “realismo” semelhante), mas no conteúdo há uma certa reformulação de conceitos do gênero - a serviço de uma discussão política, claro.

Prefiro enxergar a mensagem num plano humano e geral. Mais do que uma pretensa tentativa de reconstituição do atentato terrorista nas Olimpíadas de 1972 e a posterior retaliação israelense, penso que o filme toma o fato histórico como exemplo de ato de violência gerado por uma cadeia de ódio e que, por si, funciona como catalisador de mais ódio. O conflito poderia ser entre qualquer grupo. A lógica e as consequências incontroláveis da vingança é que são o ponto do filme.

É evidente que o filme é simpático a Israel, mas não da maneira óbvia. Com um diretor judeu e financiadores judeus, não dá pra se esperar menos que isso. Se não existe imparcialidade absoluta nem no jornalismo, que dirá em uma obra de ficção - que, aliás, nem deve se preocupar com esse tipo de coisa. Munique é parcial, na medida em que assume o ponto de vista de agentes israelenses. Eles próprios questionam ou endossam suas ações e de seu governo. Os dramas de consciência são visíveis e têm consequências na trama. Abordagem madura e muito mais interessante do que outra possível - e que talvez fosse menos vulnerável a críticas -, que seria narrar a história de um ponto de vista afastado, “imparcial”. Spielberg não está em cima do muro: está do lado de Israel, questionando tanto as ações de Israel quanto dos palestinos.

E o filme é duro, seco. A espionagem passa ao largo do glamour. Os agentes são terrivelmente falhos, os planos não são perfeitos, o erro é sempre uma possibilidade próxima e cruel, o assassinato é sempre uma coisa horrenda. Eric Bana, interpretando o agente Daniel Avner, parece sempre o elemento mais frágil em cena. Dificilmente um herói spielberguiano.

Munique não deve agradar ao grande público.

3 Comments »

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  1. Achei a melhor cosia que este filha da puta já fez. Seria um dos meus filmes preferidos se tivesse só aquela cena da espiã pelada abraçando o gato enquanto esguicha sangue de sua garganta. Mas tem tanto mais que isto.

    Comment by Guilherme Gaspar — February 5, 2006 @ 3:18 am

  2. O velho Steve vem me fazendo bastante feliz ultimamente. Mas ainda prefiro não bater o martelo sobre qual o melhor dele. Muitas opções fantásticas.

    Comment by Daniel Lima — February 5, 2006 @ 3:12 pm

  3. Daniel, saiu “The Searchers” em dvd, dos Johns Ford e Wayne. Assiste!

    Comment by Rodrigo — February 6, 2006 @ 4:37 am

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