July 13, 2009

sobre ser outsider

Autobiografia do diretor Alejandro Jodorowsky, rabiscada em 1988:

“Was born in Bolivia, of Russian parents, lived in Chile, worked in Paris, was the partner of Marcel Marceau, founded the ‘Panic’ movement with Fernando Arrabal, directed 100 plays in Mexico, drew a comic strip, made ‘El Topo,’ and now lives in the United States — having not been accepted anywhere, because in Bolivia I was a Russian, in Chile I was a Jew, in Paris I was a Chilean, in Mexico I was French, and now, in America, I am a Mexican.”

A propósito, finalmente assisti a “El Topo“. Recomendo-o na mesma medida em que sou incapaz de falar coerentemente sobre ele.

July 11, 2009

nunca é fácil

Toda ilusão de caminho fácil está fadada ao fracasso. Trecho da entrevista do Gay Talese na Paris Review:

INTERVIEWER
Why did you choose journalism as a major?

TALESE
The main reason was that it seemed like the easiest thing to do.

Aí você topa com o rascunho de “Frank Sinatra Está Resfriado”, sua reportagem mais conhecida e um clássico incontestável das faculdades de jornalismo:


Clique para ver maior

INTERVIEWER
Did you write as slowly and carefully then as you do now?

TALESE
All the other reporters of my generation would come back from an assignment and be done with their piece in a half hour. For the rest of the afternoon they’d be reading books or playing cards or drinking coffee in the cafeteria, and I was always very much alone. I didn’t carry on conversations during those hours. I just wanted to make my article perfect, or as good as I could get it. So I rewrote and rewrote, feeling that I needed every minute of the working day to improve my work. I did this because I didn’t believe that it was just journalism, thrown away the next day with the trash. I always had a sense of tomorrow. I never turned in anything more than two minutes before deadline. It was never easy, I felt I had only one chance.

July 7, 2009

táxi negro

Muito boa a ideia das Black Cab Sessions: colocar músicos para tocar dentro de um táxi, circular por Londres, gravar tudo. Apresentações acústicas muito boas, em sua maioria. Como a do Ryan Adams com o Neal Casal, por exemplo. Tem ainda Calexico, Walkmen, Grizzly Bear, Spoon, Fleet Foxes, BRIAN WILSON. Bem foda.

timing

Entrevista com Kurt Vonnegut na McSweeney’s:

Q: But at least a couple times, I’ve been moved to tears by your books. The passage in Timequake when you discuss the last conversation you had with your first wife is devastating.

Vonnegut: Yeah. [Long pause] I got that right, didn’t I?

Q: Perhaps hiding those moments between all of the jokes gives them particular impact.

Vonnegut: Well, the telling of jokes is an art of its own, and it always rises from some emotional threat. The best jokes are dangerous, and dangerous because they are in some way truthful. By the way, do you know the secret of telling a joke well?

Q: [Tries to answer, but he beats me to it]

Vonnegut: TIMING! [Laughs]

aquele em que não evito falar sobre jacko

A morte de Michael Jackson me relembra dessa ânsia geral de querermos resumir toda a vida interior das pessoas em uma ou duas frases com pretensões analíticas. “Era freak, mas também atormentado pela infância traumática. Queria refazê-la quando adulto”, e assim por diante. Em última instância, é tudo bobagem.

É algo que o jornalismo absorveu da sociedade e transformou em técnica (não o contrário): decupar massas complexas, muitas vezes ininteligíveis, de informação e vácuos de informação em algo sucinto e ordenado, ornado por agradável cheiro de senso comum. Ou, no trato popular, nada mais do que uma modalidade da fofoca junto ao bebedouro, num intervalo do batente - é preciso um mínimo de concisão pra transmitir o dado/interpretação a tempo de voltar à escrivaninha.

No caso de MJ, há ainda bela mistura de excesso de informação acessória e quase absoluta ausência de informação essencial, combinação que fermenta há anos em nossas cabeças cheias de imagens - os beijos gelados em Lisa Marie, o não-nariz, o bebê chacoalhado da sacada.

Divago, mas meu ponto é simples: não tínhamos, e continuaremos sem ter, como conhecer o cara, ou mesmo a maioria das pessoas que encontramos. É mais do que dizer que as pessoas são complexas: é afirmar que são intermináveis. Ou, empregando frase do Antônio Lobo Antunes na Flip: “Não há profundidade, há infinitas superfícies.”

Meu próprio impulso besta é sentir pena de MJ. Ideia de reação correta: aceitar que não se sabe nada.

July 5, 2009

minivan highway

Conheçam Mark Salud e seu techno tocado num computador Amiga:

Conheçam Tim & Eric e sua paródia de Mark Salud:

Boa noite.

contraste

Fuçando entre vídeos antigos do Who, inevitavelmente topo com aqueles gravados após 1978, ano da morte de seu baterista, Keith Moon. No lugar, foi escalado Kenney Jones, ex-Faces (banda de Rod Stewart e de Ron Wood). A força do contraste torna melancólico assistir a esses vídeos.

O trabalho de Jones foi difícil demais: substituir o maior baterista da história do rock - ou segundo maior, caso o leitor seja partidário de John Bonham. E o mais carismático, louco e anárquico também. Não havia vitória possível.

Não houve, realmente. Jones é lembrado, se tanto, como um elemento que prolongou a existência da banda numa época difícil, apresentando-se de forma digna. E só. Logo ele, um baterista de grande técnica e força, de precisão quase metronômica; total oposto de Moon nesse último quesito. O cara é, e já era então, um puta baterista. À sombra de Moon, porém, ele não deixou marca ou legado na banda, que integrou por alguns poucos anos. Essas coisas acontecem.

July 4, 2009

springsteen


Ouço cada vez mais a Bruce Springsteen. Há grande chance de não fazer apenas pela música em si. É um tipo de rock expansivo, entusiasmado e com grandes ganchos pop; serve tanto a um bar esfumaçado quanto a uma arena cheia de gente aos berros. A E Street Band sem dúvida soa confortável nos dois contextos. É grande música. Mas não é tudo.

O que me atrai mais, começo a constatar, é a ausência total de cinismo em Springsteen. Nem em letras e arranjos nem em performance. Até os exageros emocionais parecem genuínos. Não há notas falsas no discurso blue collar dele, em suas histórias de pobreza material e grandeza moral, em seus relatos de amor entre pessoas machucadas pela vida. É um grande contador de histórias.

A forte identidade americana não me afasta (geralmente não afasta mesmo), Springsteen faz bem mais que filtrar a mentalidade do país em forma de música. Ouço “Thunder Road” cada vez mais transtornado pelas imagens dessa canção. Está tudo lá: amor perdido, medo, coragem, fragilidade, entrega, assombro. Fico emocionado de verdade.

Posso estar chafurdando numa visão melodramática de mundo, mas vejo cada vez menos espaço para esse tipo de enternecimento. Algo mais do que a lágrima socialmente aceita quando induzida por comédias românticas. Pouca coisa além disso, o cinismo geral rotula cafona, brega, ingênuo.

A música de Springsteen é imune a esse ataque. É direta e honesta. E emocional sem abdicar da razão (nunca; quem me conhece sabe minha ênfase nisso). É, em resumo, uma boa forma de encarar a vida. Algo como o clipe de “Dancing in the Dark“.

Abaixo, fiz uma playlist só de pérolas. Apreciem.


January 17, 2009

uma análise crítica da tv no metrô

Há algum tempo há televisores dentro dos vagões do metrô de São Paulo. São vários monitores LCD por trem, ligados o tempo todo, sincronizados na propagação muda do conteúdo da “TV Minuto” (ainda não possuem site). Numa notícia-release publicada em dezembro de 2007 no portal do Governo de SP, afirma-se que ela “informa, educa, diverte e entretém”.

Ora, permitam-me discordar, item por item.

1. “Informa”: Seria, creio, a função básica de um veículo como esse. Incrível como falham miseravelmente. Há notícias, mas geralmentes atrasadas, incompletas ou desatualizadas. Em alguns momentos, simplesmente falaciosas. Um exemplo: estudo divulgado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica afirma que 95% das músicas baixadas pela internet são ilegais. A “TV Minuto” optou por retirar a origem da afirmação e tascou: “95% das músicas baixadas na internet são ilegais” (cito de memória, mas era próximo disso). Sem a fonte da estatística, cria-se uma perspectiva enganosa. É pura desinformação. Não há desculpas para isso. Não há falta de espaço - alguns caracteres a mais resolveriam a situação; poderiam até montar a notícia em 2 frames, já que as famigeradas “dicas de saúde” geralmente tomam 3. Também não é aceitável argumentar que é da natureza do veículo ser breve e superficial. Todo veículo pretensamente jornalístico, qualquer que seja sua linha editorial, tem responsabilidade de informar corretamente.

2. “Educa”: As únicas mensagens realmente úteis que vi dizem respeito a instruções de uso do metrô e de suas instalações. As “dicas de saúde” oscilam entre a obviedade e, claro, a superficialidade incompleta do veículo. Além do mais, qualquer veículo com intenções educativas merece o fracasso.

3. “Diverte”: Apego-me ao significado “fazer esquecer, distrair a atenção” do verbo. Para os que consideram propaganda uma fonte de diversão, a “TV Minuto”, nesse ponto, alcança êxito. Até porque as propagandas não são feitas por eles e, em sua maioria, possuem muito mais poder de síntese e de transmissão de mensagem do que as notícias preparadas pela “TV Minuto”, que acha graça em noticiar o lançamento de um produto “curioso” sem se dar ao trabalho de dizer ao menos o nome do fabricante.

4. “Entretém”: Nesse ponto a “TV Minuto” se sai muito bem. Lembro-me como se fosse hoje da vez em que um velho num terno puído entusiasmou-se com a propaganda de uma peça de teatro veiculada no monitor. Sentava-me ao lado dele. Cutucou-me e disse que por 20 anos trabalhara como ator e, por coincidência, havia interpretado o personagem principal daquela mesma peça de um conhecido autor canadense. Eu, de fones de ouvido pendurado nas orelhas, ouvi a história simulando atenção. Na tela, surge uma imagem do elenco. O velho cerra os punhos e abre a boca, como se gritasse. Apontando para o monitor, sussurra, sem ar: “sou eu nessa foto!”. Olho para a tela e vejo o rosto rejuvenescido do velho na expressão do ator. “SOU EU”, o velho grita. As portas se abrem na estação Brás e o velho corre para fora do trem, corre na direção contrária da entrada dos passageiros, entre empurrões e cotoveladas, posta-se na beira da mureta da plataforma e se atira, de braços abertos em direção ao solo da praça do Largo da Concórdia. Esse fato entreteu-me bastante, graças à “TV Minuto”.

De modo geral, preferiria vagões com o mínimo possível de poluição visual. Às vezes, inadvertidamente, me pego observando os monitores de LCD e seu carrossel de imagens. Minha mente vaga; meus olhos focam-se no vazio. O apito da porta automática me traz de volta à realidade.

January 3, 2009

pipebomb here!

A dúvida fundamental: alguém aí anda jogando Left 4 Dead? Para resumi-lo: jogo multiplayer online COOPERATIVO (fundamental) em que se assume o lugar de um de quatro sobreviventes de um apocalipse zumbi. O objetivo é exterminar o máximo possível de zumbis, cuidar de seus companheiros e, com sorte, sobreviver. Diversão pura.

Quem quiser jogar, me adicione: username generico no Steam.

December 10, 2008

motivação


Vito Corleone’s son Sonny (James Caan) is gunned to death at a tollbooth. Here, Caan’s face and body are wired with 147 tiny explosive ’squibs’, which explode when pulled. Caan was worried about the number - a record at the time - but went along with it rather than lose face with the women on the set

November 20, 2008

deixa estar

Se recebesse um bilhete concedendo de brinde uma faixa personalizada, de 3 metros de largura e duas cores e até 40 caracteres, minha mensagem seria:

NÃO FAÇAM ADAPTAÇÕES.

Percebam que o ponto não estaria incluso na frase, que contaria portanto com metade dos caracteres possíveis e, em nome da simplicidade, dispensaria a cor adicional além do vermelho-sangue. Cor que não falta no jogo Dead Space, blockbuster da jogatina que, por mais que digam que merecia filme - não.

Sugestão obviamente gritada ao vento e para ninguém, pois é próprio da indústria de entretenimento a reciclagem. Nada mais natural. Um elemento escasso - idéias rentáveis - tende a ser preservado.

Mas convenhamos que adaptações são, em princípio, desnecessárias.

Não digo que eventualmente bem-sucedidas e até mesmo úteis, mas simplesmente desnecessárias. Trata-se, por definição, da mesma coisa que você viu antes, só que acomodada para formato diferente.

Se fazem isso com sua comida, por exemplo, você fica incomodado.

Fico imaginando uma possível adaptação do Dead Space. Ou melhor, nem preciso imaginar porque já fizeram algo próximo disso: um desenho animado que serve de “preparação” para a história do jogo.

No jogo, você é um engenheiro enviado para uma nave mineradora que perdeu contato e, aparentemente, foi tomada por uma entidade alienígena que possui e deforma os corpos da tripulação. No desenho, você vê como a bagunça começa.

Na adaptação, tudo que é aparente está lá: o cenário, o mote, parte dos personagens, os vilões, o clima, o sangue. Mas a essência do que torna Dead Space, o jogo, algo mais do que uma seqüência de cliques na memória dos tendões da sua mão é a sensação de caminhar nos corredores vazios da gigantesca nave e, ao avistar um dos inimigos grandões e destrambelhados, pensar em termos de “devo arrancar o braço dele, para que tenha menos chance de me acertar, ou as pernas, para que fique mais lento”?

Não costumo fazer esse tipo de escolha no meu dia a dia, com exceção de algumas refeições.

E não só o prazer insano desse tipo de escolha, mas a viagem de abrir caminho de um ponto a outro do cenário, sem muita certeza de que as decisões que você fez antes podem ser uma boa idéia dali por diante.


Reproduzindo o belo insight dessa crítica de Gears of War 2 do ActionButton: esse tipo de elemento seria justamente um dos primeiros a ser cortado num filme de ação, por exemplo. Teríamos, no máximo, uma ou duas cenas estabelecendo esse tipo de situação, e o resto seria preenchido por algum plot flácido e um interesse romântico qualquer, que culminaria numa batalha final cheia de explosões.

O jogo, tão concentrado numa mecânica simples de progresso linear e combate violento, dispensa adaptações, pois o melhor de si funciona apenas como jogo. É o melhor formato possível.

google + life


Los Angeles, 1964

Com esse arquivo fotográfico online de MILHÕES de fotos da revista Life, o Google continua a ser a melhor empresa-potencialmente-maléfica-mas-que-adoramos do mundo.

November 9, 2008

celulóide anêmico

Em seu remake de Halloween, Rob Zombie junta prelúdio e remanufatura numa coisa só, mas com sua “visão particular” da história e dos personagens - converte uma obra-prima do horror e do suspense numa peça de determinismo e violência crua.

Em Quantum of Solace, seguindo a linha de Casino Royale, 007 é refeito como personagem pretensamente esférico (afe…), mais assassino que agente secreto. A diversão da série, porém, ficou para trás.

Que mal havia no assassino mascarado de presença quase sobrenatural e, na maioria das vezes, inexplicável? E qual era mesmo o problema do Bond irônico, maior-que-a-vida, lutando contra vilões caricatos? Com tanta tentativa de realismo, parecem desconfiar da capacidade do público de suspender a descrença, ou da própria habilidade de viabilizá-la.

October 25, 2008

animais senis

O show do Melvins em SP foi há mais de um mês, mas deixou memorável cicatriz. Se liguem neste vídeo que o camarada Kazu fez.



Melvins - The Kicking Machine - SP from Thiago Kazu on Vimeo.

Música do disco mais recente, Nude With Boots, coisa fina, violenta, indelicada e insuperável.

eterno retorno

Acho que vou voltar a escrever aqui. Assinem o RSS e não desliguem da minha freqüência, amiguinhos.

June 21, 2008

antes de morrer, etc

Os 1.000 melhores filmes já feitos, segundo o New York Times. Com links para as resenhas originais.

June 18, 2008

milagres modernos

Do excelente blog See Mike Draw.

June 16, 2008

a âncora da consciência

We’ll do more and more reading on screens, but they won’t replace paper—never mind what your friend with a Kindle tells you. Rather, paper seems to be the new Prozac. A balm for the distracted mind. It’s contained, offline, tactile.

“How we read online”, na Slate.

May 24, 2008

paranoid indiana


Spoilers adiante.

Como a maioria dos filmes do Spielberg, esse Indiana Jones e a Caveira de Cristal consegue ser ao mesmo tempo um blockbuster inquestionável e colossal em termos de marketing e finanças (paremos para imaginar quantas árvores são derrubadas apenas para imprimir os milhões de tíquetes de entrada desse filme…; agora paremos de imaginar tal baboseira que não leva a lugar nenhum), mas também uma obra absolutamente contaminada pelos tempos atuais. Ou propositalmente pensada para refleti-los, o que for mais próximo da sua crença religiosa.

No caso do Indiana, a carga de propósito me parece bem maior do que nos episódios anteriores. Aqui, o “ladrão de tumbas” cai de cabeça no maior sintoma dos tempos modernos: a paranóia.

Ela está em todos os cantos do filme, algumas vezes travestida de anacronismo, outras, de metáfora contemporânea. Está tudo lá: o medo do comunismo, versão atualizada do “mal estrangeiro” que nos filmes anteriores foram o nazismo e um culto maluco indiano, mas que numa 15ª versão pode vir a se tornar o extremismo islâmico; a paranóia nuclear, ou da destruição do mundo, revista hoje sob a forma das mudanças climáticas; a paranóia da informação, tanto o medo da falta como do excesso (que, no filme, mata). Fora os aliens, que não deixam de ser uma mistura disso tudo, acrescido do charme intergalático.

Pra mim, mais importante do que o tema da paranóia é a sensação dela. Tudo razoavelmente subterrâneo, apenas o suficiente para sintonizar-se com a frequência do público atual, muito diferente daquele de 20 anos atrás.

O que permanece mais ou menos intacta é a moldura da série, a forma como Spielberg encaixa as mesmas peças cheias de pó. A história, particularmente, não significa muita coisa. Na verdade, parece francamente material de segunda linha, escolhido porque, de tão genérico, poderia ser moldado mais facilmente às necessidades de um Retorno depois de 20 anos, com todas as implicações de envelhecimento de elenco e personagens inclusos.

Coube a Spielberg um trabalho aparentemente não tão difícil para um gênio como ele - filmar com a linguagem e os elementos consagrados dos filmes anteriores. O uso do movimento da câmera para revelar perigos e surpresas, o diálogo canastrão, a preservação dos ícones - o chicote e o chapéu, os personagens abraçando a contragosto caveiras, as teias de aranha iluminadas por tochas, os insetos de tamanho assustador. O homem sabe fazer tudo isso sem precisar olhar no monitor.

Como parte integrante da série, esse episódio dá conta do recado. Mas a contribuição maior foi atualizar a viabilidade do personagem e de seu universo. É bom saber que o chapéu continua com Indiana.

May 10, 2008

síndrome de macgyver

Guardo coisas guiado por um senso meio inconsciente de que posso precisar delas, no futuro, de formas não-convencionais. Aquele plástico com fio de alumínio dentro, usado para fechar sacos de pão de forma; fichas telefônicas de 1984; chaves de fenda com a ponta desgastada; sacos plásticos de lojas diversas e de materiais e formatos diversos; cabos incompatíveis com qualquer aparelho que possuo em casa. É um impulso que sempre tenho, de dispensar ferramentas corretas e preferir as improvisadas, como abrir o pacote de sedex com a haste da tampa da caneta, ou usar um clipe de papel dobrado no lugar de uma chave de fenda. Até misturo objetos aleatórios na tentativa de criar um terceiro objeto potencialmente útil, com resultados variados.

Talvez seja apenas um treinamento para a vida pós-civilização.

May 2, 2008

cante para mim, hal


Como lembra o G1, essa semana o 2001 - Uma Odisséia no Espaço completa 40 anos. Por princípio, não ligo para efemérides, mas essa serve pelo menos como gancho para voltar à obra do Kubrick, meu ídolo máximo. Seus filmes têm tudo aquilo que mais amo no cinema: a possibilidade de rigor intelectual e catarse emocional montadas à régua, sobrepostas ou contrapostas, conversando ou se mutilando mutuamente.

Uma obra como a dele implora por análises e discussões. Não faltam. Gosto muito do Kubrick Site, que inclui algumas ótimas entrevistas com o homem. E essa coletânea de artigos da revista Cult também vale uma olhada. Faixa-bônus: uma interpretação didática de 2001; coisa velha, mas divertida.

May 1, 2008

a estrada

Lendo The Road, do Cormac McCarthy, em pequenas doses, como se sorvesse uma pequena xícara do café mais caro do mundo. Não sei como está a edição brasileira, traduzida por Adriana Lisboa, mas este é um daqueles livros que implora pela leitura no original. De uma concisão e de uma beleza desconcertantes.

April 29, 2008

sola do sapato do elvis

Depois de ler o Mate-me, Por Favor, livro-reportagem-depoimento sobre o surgimento do punk, de Velvet Underground e Stooges a Sex Pistols, fica a dúvida: entre tantas drogas, onde ficava a música? É um puta livro, mas fica a impressão de que as pessoas apenas subiam no palco e faziam barulho. Tá certo que ler sobre Sid Vicious injetando heroína misturada com água de privada é morbidamente interessante, mas não é possível que só existisse destruição e auto-destruição. Os caras construiram obras, de uma forma ou outra. Ou será que Iggy Pop era “deus” apenas porque rolava sobre cacos de vidro?

interação endêmica

Superávit cognitivo? Em vídeo, Clay Shirky explica. Ou, se quiser, há transcrição.

April 26, 2008

a la kinks

Sem amplificador, guitarra com parte elétrica em dia nem pedais, comecei a plugar o violão elétrico na entrada de microfone do aparelho de som, que já não serve pra quase nada há alguns anos. Descobri que combinando o volume de entrada no som com o equalizador do violão dá pra tirar um som MANEIRO. Como não tenho interesse em obter tons limpos, já que para isso basta tocar desplugado (é um violão folk, ele foi feito pra isso), percebi que o volume de entrada servia como controle de ganho e que qualquer coisa acima de 20% significa um overdrive de respeito. Daí, tirando os graves do violão e estourando os médios e agudos, o bicho começa a emitir um rugido PRIMAL e absolutamente porco, o suficiente para tocar Search & Destroy, do Stooges, sem me sentir um completo idiota. Ou seja: estragarei as caixas de som num tempo menor, mas atormentarei os vizinhos com mais propriedade.

April 22, 2008

your phony rock ‘n’ roll

Como venho enfatizando ocasionalmente, os anos 1980 foram até bem legais em termos de música. Claro que as atrocidades perduram mais tempo e causam mais discussão, mas as maravilhas continuam lá: Minutemen, Hüsker Dü, Mission of Burma, Black Flag, Bad Brains, Minor Threat, o insuperável começo de carreira do Metallica, Smiths, o Guns ‘n Roses e seu sensacional disco de estréia. E muitos outros até, que esqueço.

Mas uma banda especial era o Replacements.



The Replacements - Bastards of Young

Pena que há pouca coisa deles espalhada no You Tube. Merecia mais registros. Uma grande banda de rock, com um líder carismático e algumas das composições mais honestas e emocionantes de toda a década, como Hold My Life, Bastards of Young, Seen Your Video, Kiss Me on the Bus e muitas outras.

April 20, 2008

sobre o abandono

Entro no metrô Vila Madalena às 0h55 do domingo, cinco minutos antes do encerramento de suas operações de sábado. Além de mim, não há ninguém na plataforma. Desço no Paraíso e não vejo alma viva na estação. Nerd ligeiramente bêbado se anima com pouco, e me animo. A plataforma vazia. Cenário do pós-apocalipse, uma das imagens que mais me divertem. Não só a mim; todo mundo que viu Extermínio ou Dia dos Mortos lembra em detalhes das cenas das ruas vazias.

Óbvio que o cenário de desolação e vazio em São Paulo justifica-se com poucas informações a título de contextualização: é um final de semana atípico, enxertado num feriado de segunda, e o horário, no metrô, é notadamente incomum; funciona uns 45 minutos a mais no sábado, fato talvez pouco conhecido. Além do mais, madrugadas são tipicamente desertas. Não há surpresa nisso.

A plataforma vazia, no entanto, tem um charme indiscutível. É o fascínio pelo abandono da cidade. Abandono pressupõe rompimento de relação de posse ou controle. É justamente isso. A cidade abandonada é a cidade sem seus criadores, os homens. É a metáfora da ausência de Deus. Por que perturba? Talvez porque sintamos com mais essa ausência, provavelmente verdadeira…

Seria a experiência religiosa simplesmente a necessidade de presença? De companhia no mundo. Se sim, Deus torna-se contingência. E criação humana, como as cidades.

Ah, vou dormir.

April 17, 2008

o despertar do otimismo

Sempre me supus um pessimista, mas esse conceito caiu por terra após duas demonstrações óbvias de fé na raça humana: na primeira, convenci-me a assistir Alien x Predador 2 imaginando se tratar de um bom filme ruim. Para meu infinito desgosto, é apenas ruim. Digo, ruim de deixar marcas no caráter da pessoa, fazer as glândulas lacrimais verterem Cynar, obliterar o paladar por uma semana.

Dias depois, resolvi conceder uma segunda chance ao St. Anger, disco mais massacrado do Metallica. Não sei dizer porque. Deve ser aí que entra em jogo o otimismo; irracional, cego e sem conhecimento de história (fadado a repetí-la). A crença de que não apenas as coisas em si podem mudar para melhor, mas também nossa percepção delas.

Claro que o disco permanece completamente inaudível.

Respirei fundo e pensei comigo: “tudo bem, é só dessa vez. Devo conseguir evitar o otimismo pro resto da vida.”

April 16, 2008

brüno: delicious journeys through america for the purpose of making heterosexual males visibly uncomfortable in the presence of a gay foreigner in a mesh t-shirt

É o título do próximo filme do Sacha Baron Cohen.

April 15, 2008

aqui, ali, em todo lugar

Caros, um pedido: atualizem seus leitores de rss com este novo feed do blog: http://feeds.feedburner.com/Generico. Aparentemente, ganho mais opções de personalização do feed com esse serviço. Quanto a vocês, espero que tenham uma boa semana. :)

revisão de conceitos

Os Beatles não fizeram tudo que havia para ser feito no rock. Isso seria impraticável em termos quantitativos. Eles esgotaram, sim, as formas de reformular e recombinar o rock, seja consigo mesmo ou com outros gêneros. Ou seja: ainda podem surgir novidades, mas nenhuma que os Beatles não tenham antecipado.

April 14, 2008

perfis de amigos imaginários II

Quando Almir me levou pela primeira vez a seu local de trabalho, eu estava vendado havia cerca de duas horas. É medida de segurança, dizia ele de dez em dez minutos, sempre cantarolando alguma música do Art Popular. Eu cantarolava junto, ou dizia, eu sei que é na Zona Leste, porra, mas ele repetia. É por medida de segurança. Tudo bem. Até parece que o amor não deu… E íamos.

Quando o carro finalmente parou e pude abrir os olhos, estávamos num grande galpão coberto com telhas de alumínio e impregnado de cheiro de lingüiça assada. Os colegas de Almir faziam um churrasco sem trilha sonora, andando como zumbis em torno da churrasqueira, com copos de plástico na mão. Ninguém falava muito. Olhei para o centro do galpão. Erguido sobre uma dezena de cavaletes de metal, estava um vagão do metrô.

A parte mais difícil é trazer pra cá, depois é mais fácil de desmontar que um Corsa, informou-me Almir, antecipando a pergunta óbvia. O desmanche de vagões de metrô era um negócio em plena expansão, ele me disse. A demanda era alta e a oferta, diminuta.

Com um aparelho parecido com uma furadeira, mas com ponta de chave allen, ele desparafusou a moldura de metal em volta de uma porta do vagão. Moleza, ele disse, e me passou o aparelho. Desparafusei a soleira de metal. Saiu facilmente. Almir soltou um “iha!”, como fazia sempre que dizia algo esperto ou surpreendia alguém com um gesto inesperado. Fazia isso sempre. No ponto de ônibus, abordava meninas bonitas perguntando se elas esperavam há muito tempo ali. Geralmente diziam que sim. Sem perder a deixa, assobiava para um amigo próximo, que estacionava seu Voyage 1986 azul-marinho em frente ao ponto. Oferecia à moça uma carona. “Iha!”

Perguntei sobre a cabine. Não, ele disse, nem todos têm cabine. Não operavam desse tipo, apenas os vagões comuns. Repeti minha dúvida sobre como eles traziam o vagão até o galpão.

Essa informação é justamente o que diferencia a gente dos desmanches comuns, ele repondeu, dando a entender que era um pedaço de conhecimento valioso demais para ser discutido. Mesmo entre amigos. O que éramos, apesar das surras que eventualmente me aplicava no primário. A primeira vez que o atingi com uma cotovelada no queixo, ele deixou de me agredir por qualquer motivo. Passamos a nos esmurrar sem motivo, por diversão. Foi nessa época que me disse ter roubado o primeiro carro. Condenei a atitude apenas uma vez, e depois perguntei como era que se fazia. Várias formas, ele disse, mas prefiro usar o ferrinho. Fazia com que se sentisse hábil em alguma coisa, notei. Nunca o encorajei, mas vez ou outra perguntava sobre seu balanço mensal.

Nunca ouvi falar sobre roubos de vagões de metrô, informei-lhe. Ele coçou a cabeça cheia de cabelos pretos e enrolados como porcas e disse, sorrindo: é bom mesmo que não, notícia assim não beneficia ninguém. Concordei com sua lógica. Ele apontou para a churrasqueira e disse, pega lá.

Antes de ir embora, tirou do bolso uma daquelas plaquinhas que ficam rebitadas nas portas do metrô, com o bonequinho e o aviso para que se mantenha a mão longe da porta. “Iha!” Pus a venda por conta própria e entrei no carro.

April 13, 2008

the dude abides


Todos os “dude” em The Big Lebowski, um dos vários filmes perfeitos dos Coen.

o infinito para consumo

Manja o pote do fermento em pó Royal, com o desenho da embalagem se repetindo na própria embalagem? Esse efeito, quem diria, tem nome - efeito Droste - e, embora não exatamente comum, se repete bastante por aí. Quer dizer, o Pink Floyd já fez, então dá pra ter uma idéia. (via waxy.org)

April 12, 2008

subliminar

Essa eu não sabia: o Aphex Twin colocou algumas imagens ocultas nos espectrográficos de músicas dele.

Atualização: Rafael Capanema informa que “essa é mais velha que aquele GIF DO BEBEZINHO 3D DANÇANDO”.

coesão


Por falar em Minutemen, um bom ponto de partida pra quem quer conhecer a banda é o ótimo documentário We Jam Econo - The Story of The Minutemen. Recomendo, até porque é minha banda-fetiche do momento. Os caras não só eram músicos muito acima da média, especialmente para o cenário punk-hardcore americano dos anos 80, como tinham uma postura política e estética muito pessoal.

O guitarrista, D. Boon, veio com a idéia de igualdade no som da banda e a resolveu de forma inteligente: quase nunca usava distorção ou power chords e tirava os graves e os médios da guitarra, deixando espaço livre para o baixo de Mike Watt. Cabia ao MONSTRO George Hurley costurar tudo com a bateria. O resultado era uma mistura inclassificável de punk, jazz e funk aplicada em doses ultraconcentradas - as músicas raramente passavam de 2 minutos.

O melhor exemplo é o álbum duplo Double Nickels on the Dime, clássico absoluto, com 45 faixas. Para eles, o que interessava era a essência das músicas e o fluir delas no disco. Impressionismo punk da melhor qualidade. E muito bem tocado. E criativo pra diabo.

April 10, 2008

the king of kong


Se a história de The King of Kong fosse ficção, soaria pequena, banal e um tanto ridícula: a disputa de dois caras de personalidades opostas pelo recorde mundial no velho arcade Donkey Kong.

Como documentário, tudo muda.

Os personagens são um achado. De um lado, Billy Mitchell, o superstar do professional-retro-gaming, o detentor do recorde absoluto no jogo desde a década de 1980, o empresário bem-sucedido do ramo de molhos, o patriota de gravata com a bandeira dos EUA. Do outro, Steve Wiebe, o pai de família, o professor de escola primária, o cara que tentou a sorte em áreas como o esporte e a música e nunca se realizou em nada, o abnegado com tendências obssessivo-compulsivas e muito a provar a si mesmo.

O antagonismos dos dois, ainda que mostrado em forma de luta entre bem e mal, surpreende pelo humor e pelo suspense. Durante todo o filme, Wiebe se submete ao escrutínio e à pressão da comunidade dos jogos (e pela própria equipe do documentário…) em busca de um duelo direto com Mitchell, que insiste em se manter oculto, rondar de carro os locais de competição, enviar fitas com recordes suspeitos e acionar capangas para monitorar o desempenho do adversário.

Da mesma forma que Murderball, o truque do diretor Seth Gordon é se aprofundar nos personagens e entender seu mundo e o que os motiva, sem julgamentos. Em ambos, a fome por realização pessoal é tudo. A novidade é mostrar que a fonte dessa realização pode vir de qualquer lugar.

brasil paleoproterozóico

Depois do Counter Strike, proíbem o Bully. Juntando isso com as insanas restrições em relação a campanhas eleitorais na internet e chegamos à conclusão de que a Justiça brasileira se recusa a entrar no século XXI. A campanha digital é mais barata que a impressão de santinhos, a colagem de cartazes e a produção de vídeos para a televisão. Ou seja: mais democrática, já que o acesso é mais amplo.

A justificativa oferecida é simples: como a legislação não prevê essas modalidades de campanha, logo estão proibidas. Preguiça ou incompetência?

Sobre os jogos, então, não tem nem como comentar. Pura indigência mental.

April 9, 2008

a glória do homem


Minutemen em ação com The Glory of Men, clássico de Double Nickels on the Dime. Esse D. Boon realmente era o cara.

perfis de amigos imaginários I

Marcelina gosta de ler, e de fato lê muito. Empresta de diversos amigos, mesmo de uns poucos conhecidos do trabalho, e rapidamente devolve, sem discutir seu conteúdo ou dizer se apreciou o que leu. Ela própria, contudo, não possui nenhum volume, com exceção de um. Não sei o título. Cobriu a capa com plástico preto e raramente o deixa fora da bolsa. Por cima de seu ombro, vejo blocos de texto, talvez dois ou três numa página, sem vincos de travessões. Ela percebe minha presença e o fecha. Descarto a hipótese de poesia, embora ela declame um ou outro Drummond, sempre de cabeça e de forma desorganizada, misturando versos de poemas diferentes e criando imagens únicas. Raramente fazem sentido, e ela sorri com maior intensidade à medida que o absurdo é contemplado.

Sem jeito, pergunto do livro. Seu título, seu autor, seu conteúdo. Ela coça o canto dos lábios planos de seriedade com a ponta da unha negra e começa a contar uma história. Aos 15 anos, sua vizinha em Santos, onde morava, disse ter descoberto o Diabo no guarda-roupas. Marcelina, cínica mas curiosa, vai comprovar a informação. Ao abrir o guarda-roupas, vê o Diabo. Diferente de suas expectativas, parece um boneco feito com cinco pedaços de carvão, sem rosto, boca, rabo, olhos, dedos, orelha ou qualquer outro traço que lhe confira fisionomia. Também não carrega um tridente. Move-se lentamente, em gestos que causariam impressão de ameaçadores, não fossem feitos por tocos de carvão. Marcelina esfrega os dedos no Diabo e suja as pontas. Limpa a mão no vestido e pergunta ao Diabo se ele é mau como se costuma ouvir. A amiga responde que não. O toco de carvão acena com um movimento do tronco, como se confirmasse a informação. O aceno demora cerca meio minuto. Contrariando sua natureza, Marcelina aceita a resposta oferecida e faz um pedido ao Diabo. Neste ponto, Marcelina diz que o conteúdo do pedido está diretamente ligado ao livro que carrega, e que não pode revelá-lo. Estica o braço, aperta meu ombro, diz que está atrasada e vai embora.

Dois meses depois, numa mesa de bar na Augusta, exijo a continuação da história. Digo que perdi algumas noites de sono por causa dela. Alguns mistérios, mesmo inexistentes, merecem resolução. Ela diz que o Diabo, vil, mas receoso em ser demasiadamente mau e chamar atenção desnecessária para sua existência terrena em forma de carvão, concedeu-lhe o pedido com pequenas ressalvas. Uma, a de que não revelaria o conteúdo do livro a ninguém. Outra, que nunca possuísse livro algum além daquele.

As condições, inicialmente prosaicas aos olhos de Marcelina, começaram a lhe causar angústia após alguns anos. Lia tudo com pressa, de pé nas livrarias ou bancas de jornal, e amaldiçoava exemplares selados com plástico. Sem poder possuí-los, devorava sem digestão. Citava frases e parágrafos mas não conseguia contextualizar idéias. Discutia com facilidade apenas aspectos de sua vida diária ou experiências pessoais. Era divertida e inteligente, porém. Mantinha o bom humor e sabia ser agradável. Conhecemo-nos num bar da rua Augusta, falando de qualidades de tecidos.

Morre com duas facadas no pescoço ao se recusar a entregar o livro durante um assalto na Praça da República.

April 8, 2008

auto-promoção

Se a busca pela originalidade musical fosse uma longa corrida de obstáculos, o Dillinger Escape Plan estaria ligeiramente à frente, apesar de haver trombado em todas as hastes ao longo do caminho e invadido as pistas alheias, sem cerimônias e pudores. A viagem desse quinteto americano aparentemente é invadir, saquear e estuprar gêneros, incorporando tudo a uma agenda sonora própria e pessoal - o mathcore/metalcore/grindcore com incursões breves e convolutas sobre áreas diversas como o pop, o jazz e a música eletrônica, sempre com sucesso e, diabos, certa classe peculiar. Por essa verve expansionista, tal qual um Império Romano dos riffs e da quebradeira, são considerados o futuro do metal.

Trecho de resenha para o Banana Mecânica sobre o último do Dillinger Escape Plan, Ire Works. Tem mais coisa minha lá também, nos arquivos: Danielson, Gram, Lenine, Mastodon, The Shins, Wilco, Lobão, Elliott Smith e Ecos Falsos. Mas vale uma boa olhada em tudo mais, há muitas boas indicações ali.

April 6, 2008

one man guy

A turnê do Rufus Wainwright no Brasil ganhou site. Simpático, inclusive o esclarecimento de que se trata de uma “solo performance”. Confesso que não me atrai tanto, já que preferia a apresentação completa, com banda, mas pelo menos não está o olho da cara.

buraco negro, nosso nêmesis

Sabe os aceleradores de partículas? Mais especificamente, o Large Hadron Collider, em Genebra, na Suíça, o maior de todos, com 27 quilômetros de extensão? Pois então: há físicos preocupados que seu funcionamento, marcado para o meio do ano, pode eventualmente criar um buraco negro que sugaria a Terra e aniquilaria toda a existência. Boa oportunidade para contrair dívidas de longo prazo.

murderball

Murderball (2005) Seria ridículo relacionar o excelente documentário Murderball (trailer), sobre atletas tetraplégicos da rúgbi de cadeira de rodas, a baboseiras melodramáticas sobre superação humana, mas também não tem como se emocionar. Como diz um dos personagens principais, o jogador Mark Zupan, eles não jogam pelos tapinhas nas costas e pela comiseração alheia, mas para vencer. E isso num esporte violento e e extremamente competitivo.

Entre cenas de rivalidade entre a seleção norte-americana e o treinador Joe Soares, ex-atleta do time e que foi treinar a seleção canadense, o filme mostra detalhes da vida cotidiana dos cadeirantes, mas vai além do arroz-com-feijão das abordagens habituais do assunto. Destaque o lento processo de recuperação de um recém-acidentado que passa pela reabilitação, volta para casa e se interessa pelo esporte. E também para a cena em que descrevem as recorrentes conversas em que mulheres curiosas sobre a capacidade sexual deles lutam para chegar até a pergunta fatídica: “mas ainda funciona… aí embaixo?”

Um filme que alcança a bela e difícil mistura de delicadeza e agressividade. Se há alguma lição a tirar, talvez seja esta: use o que tiver à disposição, da melhor forma possível, pare de reclamar um pouco e faça alguma coisa que preste na vida.

leeeeeroooy mmmmjenkins!

Só agora, uns três anos depois do surgimento do meme, conheci o Leeroy Jenkins, um clássico da internet.

April 2, 2008

não

Aparentemente, o auto-pioramento pode se tornar uma tendência interessante.

contribuição marginal

Como seriado, Heroes não presta. Atuações inconsistentes, trama mal surrupiada de Watchmen, falta de noção de clímax. Mas a trilha, ah, a trilha: chega a redimir o programa quase completamente ao trazer um belíssimo lado B do Wilco, Glad It’s Over (download).

March 30, 2008

a magia episódica do futebol

Uma diferença fundamental do futebol para grande parte dos outros esportes: a maioria das partidas é entediante pra diabo. E isso é excelente.

Diferente do basquete, por exemplo, em que todas partidas são um espetáculo de indução à dormência pelo seguido virar do placar, o futebol investe na potência do clímax. É como a questão da compressão e da dynamic range na música: cada vez mais, nivelam a experiência e jogam fora a nuance. Sem silêncio não há como apreciar o refrão emotivo e catártico. No futebol, há justamente esse senso de nuance.

A maioria dos jogos não é lá muito digna de nota. Mas quando há um jogo realmente bom, os entusiastas rapidamente o reconhecem como tal. E falam sobre ele, e discutem minúcias, e reproduzem jogadas com as mãos e os pés. O extraordinário se destaca. Resta a nós agradecer pelo jogo de canela e pelo beque pedreiro, nossos instrumentos de calibragem da alegria.

a ►◄ b


Enquanto por aqui a revista Mad volta às bancas em nova editora, lá o NYT relembra algumas grandes contracapas dobráveis do veterano Al Jaffee. Provavelmente a atração mais elaborada, constante e inteligente da revista. Mas Aragonés e Spy vs Spy chegam perto.

March 29, 2008

sociedade de apreciação de nick cave


Cave crooner lúgubre ou Cave roqueiro, o homem sabe o que faz. Muito bom esse Dig, Lazarus, Dig!!!, disco lançado esse mês. E excelente o bigode ostentado no clipe, mais um daqueles em que Cave canta olhando para a câmera (1, 2, 3).

March 23, 2008

OI MAE TO NA RAMPS RS

Enfim, o que faltava na internets: LULALOL.

a mãe do kyle é uma vaca

Todas as temporadas e todos os episódios do South Park, na íntegra, sem comerciais, em boa qualidade, com cenas extras. E oficialmente. Bonito de se ver.

March 22, 2008

seis cordas

Resolvi trocar de violão.

Como boa parte das verdadeiras decisões na vida, é emocional e não envolve cálculos. Pelo menos não cálculos que relacionem a decisão a outras áreas da vida (o dinheiro vai fazer falta? não há coisas mais importantes com que gastar dinheiro? etc), mas apenas avaliações internas da questão: qual modelo, qual formato, qual tamanho.

O importante é fazê-lo. Depois de muito tempo, constatei: o violão é o objeto ao qual dou mais importância e me relaciono. Mais do que o computador, o tocador de música ou o relógio de pulso. Passo bem sem qualquer dessas coisas por muito tempo sem dar pela falta delas. Quando viajo, esqueço o e-mail ou a internet; a música pode vir de várias fontes, inclusive da simples memória; o tempo se impõe naturalmente. Mas o violão é insubstituível. Quando não posso levá-lo, faz falta. É em grande parte o ato físico de empunhá-lo, atingir as cordas, fazer emanar som. Mas também é o ato de afeto, de parceria e de extrema fragilidade que existe na relação entre o tocador e o violão. A mesma fragilidade que mantém a tensão e o fascínio pela figura do trovador - um solitário e seu violão contra o mundo.

A parte menos romântica da história é que também é preciso seguir em frente. Junto com a constatação da importância do instrumento, veio a segunda: preciso de um MELHOR.

O meu Condor CS22, coitado, sempre foi simplório. Como eu continuo sendo, músico amador de técnica limitada e sem repertório. Mas alguém tem que seguir em frente. Há tantos violões por se tocar.

A busca agora é pelo exemplar exato. Tudo importa: o peso, a cor, o cheiro, a textura da madeira contra a pele, a concavidade do braço, o timbre, o volume do som. Todos são diferentes entre si - esse audioslide do NYT sobre a fábrica da Martin é um exemplo perfeito do tipo de magia que um bom violão pode exercer. Aliás, o Martin HD-28 é o sonho de consumo, a 3.300 dólares.

A caça começa em abril.

March 19, 2008

de volta à matriz do monolito


Arthur C. Clarke, RIP…

cortejo à onipotência

Isso é tão revolucionário, maluco, improvável e extraordinário que, ao mesmo tempo em que babo de vontade de experimentar pessoalmente, também desejo com ardor que seja um muitíssimo bem feito boato digital, tamanha a desconcertação.

Como resumiu o Alexandre Matias, é o photoshop do som. Vejam o vídeo:


A julgar pela amostra, não haveria mais limites para a manipulação sonora. Seria o esvaziamento total da performance? Ou justamente o contrário? Tendo a apostar na segunda hipótese.

Imaginem: se até hoje somos iludidos facilmente por manipulações visuais razoavelmente bem-feitas, a nanomanipulação sonora (ou sei lá que termo usar pra isso; supermanipulação?), totalmente inédita nesses termos, seria praticamente indistingüível da coisa real (real onde mais?). Como identificar o que não é manipulado, ou é manipulado em níveis “normais”, do que é ajustado com o Melodyne? (Meu deus, olhem esse nome. Sci-Fi pura, sem gelo)

E qual o papel do instrumento musical? Um periférico qualquer? Mero meio de input grosseiro? Se unirmos o sampling, o sintetizador, o emulador e o Melodyne, caixinha de fósforo pode virar bateria eletrônica…

Ao mesmo tempo, a performance ao vivo pode ganhar mais importância cultural. De cara relembro o conceito de aura dos alemães da Escola de Frankfurt, de como esse senso de importância e relevância que emana da obra artística (que supostamente se esvaiu na “era da reproductibilidade técnica”) retorna com violência na era da simulação e da manipulação digital. Seria o tira-teima, a manifestação “honesta”, sem filtros. É de se perguntar o valor que conferiremos a essas coisas no futuro próximo, ou mesmo que conferimos hoje, mas o impacto dessa performance da música sem mediação ainda está pra ser visto.

Isso sem contar no impacto criativo. Se com mash-ups a coisa já atinge misturas incríveis, com esse programa o limite é infinito. Mais do que misturas, imaginem releituras de músicas conhecidas. Joy Division todo em acordes maiores, alegres e ensolarados. O desafio de fazer a banda A fazer um cover da banda B com suas próprias músicas. É tanta possibilidade, desde as mais imbecis às mais sofisticadas, que não vale a pena gastar todos os neurônios de uma só vez. Ao que parece, gastaremos todos juntos.

Isso se não for o vaporware mais sensacional já pseudofabricado.

Vou lá deitar pra ver se passa a dor de cabeça.

March 18, 2008

dramaturgia milton neves

Essa turma que produz a novela Duas Caras tá PEGANDO PESADO no merchandising. Não bastasse ter personagens importantes empregados pela rede de supermercados Extra, me aparece o Nuno Leal Maia fazendo compras no local. Digo: fazendo compras METODICAMENTE, avaliando qualidades de vidros de azeite e escolhendo um ovo de páscoa. Posicionamento de marca mais sutil que a crítica cinematográfica do baluarte da finesse, o Alborghetti.

March 16, 2008

filtro #1

Her cell phone is ringing, but the display is turned off. She lightly pushes a small dot on the skin on her left forearm to suddenly reveal a two by four inch tattoo with the image of the cell phone’s digital display, directly in the skin of her arm.
A tatuagem digital

When the right hemisphere of the brain, the seat of emotion, is stimulated in the cerebral region presumed to control notions of self, and then the left hemisphere, the seat of language, is called upon to make sense of this nonexistent entity, the mind generates a “sensed presence”.
A simulação de Deus

Looking down at the application, it blurred in front of my eyes. Could I really do this? Could I really become a — a car salesman? Me, a law abiding middle-aged American. A — gasp — college graduate (well, barely). A writer. A person sometimes described as soft spoken and reserved? Why was I applying for a job in one of the most loathed professions in our society?
Na pele de um vendedor de carros

Crumb é um tímido rematado que se encurva, magro, se esconde atrás dos óculos e tem ar de quem conheceu mais pessoas do que teria desejado. Mais tarde, à mesa de um restaurante vietnamita da cidadezinha vizinha, ele explica: “Não vejo que interesse há em falar comigo. É muito melhor falar com Aline. Me perguntam: “Por que vocês se mudaram para a França?”. E eu digo: “Não sei. Aline, por que o fizemos?’”.
Visita a Crumbland (só p/ assinantes folha/uol)

anders parker

Outra boa descoberta dos últimos dias: Anders Parker. Entrem no MySpace do cara e ouçam Tell it to the Dust, um refrão bonito de doer. O disco homônimo, de 2004, também vale a pena.

March 15, 2008

a raiz de todo mal

Para minha surpresa, Lewis Black ganhou um programa de televisão: The Root of All Evil.

Lewis Black é a personificação da esquete Eu fico puto!, do Marcelo Mansfield, só que mais elaborado. O estilo… hmm, PUTO do Black é hilário, é a reclamação elevada ao status de arte humorística. Conhecia o cara de participações no Daily Show e de alguns especiais da HBO, em geral muito bons. Mas ver um comediante stand-up com um programa fixo é sempre temerário, já que, pelo que sei, parir 30 minutos de material cômico é mais difícil do que dar à luz um PredAlien.

A solução foi reduzir sua participação. Ele age como juiz que decide qual de duas personalidades ou instituições é mais maligna. No episódio de estréia, os réus eram Oprah e a Igreja Católica. Dois humoristas agem como advogados de acusação. É uma espécie de duelo indireto, já que cada comediante fala do próprio tema, sem dialogar com o outro. Black apenas preenche os espaços com tiradas curtas. Pouco revolucionário, mas engraçado, apesar do cara que acusa a Igreja construir mais da metade de suas punchlines em cima da palavra “boyfucking”.

ronda

Os perigos do mau planejamento
Abandone seu projeto de aposentadoria em Marte
O botox está destruindo Hollywood?
Pixels mortos no céu

feijoada completa

O almoço solitário não ajuda o estômago - acabo comendo rápido demais, o pensamento correndo atrás do próprio rabo, o pedaço mal mastigado goela abaixo - mas é um dos melhores momentos para observação das pessoas ao redor. O João Ubaldo Ribeiro diz que adora. Mas gostamos por motivos diferentes, provavelmente. Enquanto ele busca as histórias, eu fico mais interessado nos gestos. As pequenas coisas que separam o homem de um animal sem graça, como o girafa (a vida besta lá em cima).

A forma de organizar o prato, por exemplo. É um dos gestos com mais significado pois mistura tudo: a cultura, a fisiologia, o instinto, a psique (ou desejo). Poucas coisas são tão pessoais. E, ao mesmo tempo, num refeitório ou restaurante, é algo aberto, à mostra. E dá-lhe conversa, piscadela, piada, olhar atravessado por sobre o bife, alface no dente, soluço contido com esforço.

Ah, terráqueos.

March 14, 2008

no escuro do meu quarto, à meia-noite

Hoje, sou exatamente o que sonhei ser. Envelhecer, pra mim, é um objetivo, e eu juro pelo que há de mais sagrado que eu vou conseguir, e já estou conseguindo. Deus me livre de ficar eternamente jovem, e prefiro mil vezes ser bem esquecido do que mal lembrado.

Texto de 2006 do Guilherme Arantes - um dos mestres do pop brasileiro, há alguns anos meio deixado de canto, infelizmente - refletindo sobre a carreira e suas escolhas (e acasos) na vida. Dica do camarada Sttevam.

March 11, 2008

neal casal para presidente, obama para vice


Neal Casal, sintoma positivo do século XXI

Rompendo com o pessimismo e amargura habituais no que se refere à avaliação da vida como a vivemos hoje - trânsito, armas de destruição em massa portáteis e o fim dos aperfeiçoamentos estruturais do forno microondas -, até que não estamos mal. Veja, é uma avaliação possivelmente comprometida por algum entusiasmo benigno passageiro, mas não deixa de ter alguma validade. Não estamos mal: o Palmeiras finalmente tem não apenas um, mas dois meias-armadores; tornou-se razoavelmente seguro andar pelas ruas com um CD Player portátil (ninguém quer roubar um desses mais); uma novela que mistura mutantes, vampiros, Malhação, Lost e Senhor das Moscas consegue manter-se no ar, gerar seu desdobramento em uma temporada adicional, abalar a liderança de audiência na Globo e prover material para piadas irresistivelmente idiotas, tudo ao mesmo tempo. Citei apenas uma amostra de sinais positivos, aleatoriamente.

E tem o Neal Casal.

Músico obscuro mesmo em seu país de origem, é mais conhecido por tocar guitarra na banda de apoio do Ryan Adams, o Cardinals. É o Richie Sambora do Ryan Adams, numa comparação propositalmente babaca. A diferença é que, por acaso, o Neal Casal é melhor músico e compositor que o Ryan Adams. E lança discos mais consistentes. E parece prescindir de uma fama de bad boy desbocado para justificar sua presença no mundo.

Tomemos seu disco de 2006, por exemplo, No Wish To Reminisce (download). É o equivalente masculino a The Forgotten Arm, da Aimee Mann, de 2005: disco alt-country/folk/rock/pop perfeito, timbragem quente, letras simples, refrões de derreter os glóbulos vermelhos nas artérias. Do tipo que se tornaria fóssil numa prateleira, mas circula silenciosamente pela internet, como um boato implausível.

Não diga que uma época que permite esse tipo de achado não tem algo de irreparavelmente bom.

February 1, 2008

ok computer

O que vem por aí: gadget DIY modular personalizável open-source, editor WYSIWYG de interfaces em Flash… Se preparem para ler muitos tutoriais, fóruns e calhamaços virtuais de documentação.

January 18, 2008

DISINTEGRATOR

Essa METRALHADORA GIRATÓRIA DE ELÁSTICOS é a coisa mais genial/babaca que vi esse ano.

January 13, 2008

nem sei se nada sei, ou réplica a sócrates

“Bem informado” deixou de ter seu valor como elogio ou qualidade pessoal, posto que é uma condição tão ultrapassada quanto a taquigrafia e a pipoqueira a manivela (a qual ainda persiste unicamente por sua portabilidade, maior que a do microondas). Ninguém mais está bem informado sobre coisa alguma, já que a proporção de informação que se absorve, desde alguns anos atrás, será sempre infinitamente menor do que a totalidade disponível. Uma proporção “boa” de informação seria pelo menos metade, dizem os filósofos.

O que não é a mesma coisa que dizer que estamos mal informados. O mal informado é aquele à beira da morte, vítima da própria ignorância. É o cidadão que acende o cigarro sentado sobre um contêiner de dinamite e sorri. O verdadeiro mal informado mal consegue colocar os pés para fora de casa, visto que sua desinformação já o teria matado no caminho de volta do banheiro. Não somos mal informados, portanto.

Estaríamos apenas informados, então? No limite do necessário? Provavelmente. Como o moleque que pula dentro de uma piscina de bolinhas cheia demais e quase morre sufocado por uma de cor amarela que contém, entre outros dados, detalhes biográficos de Benazir Bhutto e nomes de conhecidos líderes da Al-Qaeda paquistanesa.

January 10, 2008

dando uma chance às mulheres

“At first, I thought it was bad that she cried, but then I thought she is a woman, give her a chance,” said Diane Fischel, a tailor and a grandmother, who cited the emotional display for deciding to vote for Mrs. Clinton in the Democratic primary instead of for Senator John McCain on the Republican side.

Clinton’s Message, and Moment, Won the Day (NYT)

January 6, 2008

jeans rock

MagicPensei que nunca ia dizer isso, mas esse último disco do Springsteen, Magic, é sensacional. Na minha cabeça, entra na mesma categoria de rock de arena do U2, mas sem o The Edge enchendo nossa cabeça com harmônicos encharcados em delay e reverb. Fora que respeito qualquer um que empunhe uma Telecaster.

Em contraponto, o camarada Hieronymous T. Poopsnatch faz uma análise mais ponderada em sua resenha no RateYourMusic:

A return to form….or formula, however you want to put it, depending on your relative affinity for cheesy, phony, overemotive vocals, canned arrangements, production that’s engineered within an inch of its life, and lyrics that crossed the line of self-parody long ago, then stepped back and took a shit on it.

January 2, 2008

headshot


Snipercat

Em todos jogos de tiro, tipo Call of Duty, minha maior diversão é executar as missões de SNIPER.

Cê fica lá longe, pagando de Mark Wahlberg, só mirando na cabeça dos outros e sentando o dedo naquela porra [/os tropadelite]. É a coisa mais covarde do mundo.

E justamente por ser algo tão covarde que meio que tenho pesadelos com isso. Às vezes ando na Paulista olhando para as janelas dos prédios, procurando pelo reflexo da mira telescópica (pelo menos na minha paranóia os caras não são tão profissionais), me escondendo atrás de arbustos e jogando bonecos 1:1 de mim mesmo na avenida para desviar atenção (e causar acidentes).

Daí juntei essa lembrança com o artigo abaixo, sobre a descoberta de que sonhos podem ser espécie de “treinamento” do cérebro para situações de risco, e fiquei satisfeito em saber que meu cérebro, ainda que discretamente, compartilha do meu receio.

sonhei que o hulk queria me esmagar

Aprenda a valorizar seus pesadelos.

January 1, 2008

monta desmonta

Blog pra mim sempre foi brinquedo - não diário, não ferramenta, não plataforma, não trampolim, não caixa de ressonância, não megafone sem pilha, não portfólio, não experiênça, não inserção digital, não panfleto, não espelho - e hoje tava lembrando como a gente esquece de usar certos brinquedos. Brinca ali, pôe ao contrário, inventa regras, deixa de marcar os pontos, enxerta noutro brinquedo, taca na parede pra ver se quebra (quebra), monta de novo, tá errado, não funciona daquele jeito, inventa outro, esquece como era, cai atrás do sofá, acha três anos depois, aranha criou ninho dentro dele, cê acha que tá velho demais pra brincar com aquilo de novo, guarda na gaveta, pega de volta um dia ao acaso, fica tentando lembrar onde liga, que graça tinha, tem uma epifania, vai dormir, esquece o que era. Mas brinquedo nunca deixa de fazer sentido.

ponto morto

Engraçado como, por mais simbólica que seja a troca de calendário, o ciclo anual é sempre real e palpável, de curvas ascendentes e descendentes nítidas (ê mão d’homem!). Por falta de sorte e planejamento, no primeiro dia do ano a geladeira está vazia; os mercados e padarias, fechados. A esperança recai sobre algum disk-pizza com espírito capitalista. O País vai de 0 a 100 km/h em dois meses, e hoje é exatamente o zero da escala.

mensagem motivacional

Começou 2008. Vão lá e se esforcem.

December 26, 2007

estou farto

No final da tarde, na véspera do natal, o cheiro de carne assada no apartamento domina tudo, apesar de nada estar sendo preparado no fogão. É o aroma conjunto do condomínio em festa, da rua, da cidade. Diabos, de boa parte do mundo. Tudo um banquete único, o maior festival de gula do planeta.

Em réplica a essa constatação, pela primeira vez em anos não comi até passar mal, mas até ficar apenas moderadamente cheio.

December 24, 2007

a título de síntese

No Banana Mecânica, site de música que ajudo a editar, fizemos uma modesta lista com os cinco melhores álbuns nacionais do ano. Claro, melhores dentro da cena que cobrimos - música alternativa (não lembro mais a que…), independente, “independente”, dependente mas gente fina etc.

A lista foi quase idêntica à minha própria, que só substitui Lucy and the Popsonics por Menino Canta Menina, do Instiga, de Campinas. E com menção honrosa para o Los Porongas, banda do Acre.

Pessoalmente, fiquei bastante satisfeito com a safra de bons discos desse ano. Muitas boas estréias, coisas promissoras surgindo. Ano que vem o ritmo deve se manter, com o primeiro do Bazar Pamplona (citação patrocinada pelo Rafael Capanema), o novo do Numismata (vi algumas novas músicas no show, são sensacionais) e, com sorte, um retorno dos Abimonistas.

Na pilha dos álbuns internacionais, não me preocupei em acompanhar os lançamentos, só os artistas queridos de sempre. O Sky Blue Sky, do Wilco, foi o preferido do ano por motivos puramente afetivos. É a melhor banda do mundo e o disco é praticamente perfeito. Gostei bastante do Wincing the Night Away, do Shins, apesar de ainda preferir o Oh, Inverted World. New Moon, do Elliott Smith, foi uma das grandes surpresas - um disco póstumo de sobras de estúdio que não perde em qualidade para o resto da discografia do cara. Coisa fina.

O Neon Bible, do Arcade Fire, não chamou minha atenção quando saiu e só fui ouvi-lo com atenção há uma semana. E é maravilhoso. Assim como All Hour Cymbals, do Yeasayer, grande banda que não conhecia, lembra um pouco o TV on the Radio (ouçam 2080). E o Midlake, de The Trials os Van Occupanther, belo disco do ano passado (ouçam Roscoe).

No mais, passei boa parte do ano chafurdando nas discografias completas do Neil Young e do Tom Waits, dois gênios absolutos, além de ouvir repetidamente o Blood on the Tracks, do Dylan, o meu favorito do homem.

hark!

Só conheci hoje. Muito maravilhoso.

December 8, 2007

expresso para uncanny valley

Em cartaz: Beowulf, segundo sinal (o 1º) de que Robert Zemeckis caminha alegremente para a senilidade. O roteiro de Neil Gaiman e Roger Avary não ajuda, os personagens parecem bonecas de plástico, as cenas de ação são conservadoras e pouco empolgantes - o contrário do que seria de se esperar pela tecnologia tão exaltada por Zemeckis por sua suposta liberdade. Não me entandam mal, não sou contra a tecnologia em si; só espero que a usem quando funcionar.

Quantia desperdiçada: R$ 4,50 e dois passes de metrô.

November 4, 2007

citation needed

É estranhamente hipnótico ficar vendo esse mapa em tempo real das alterações da Wikipedia.

October 8, 2007

be good

Um blog que celebra os bigodes do século XIX. E a internet ganha mais uma razão de existir. [Via Boing-Boing]

October 7, 2007

faca na caveira

Tropa de Elite é, realmente, muito bom. Vi no cinema, portanto uma versão ligeiramente diferente da que vazou há algumas semanas, pelo que li. A principal mudança, suponho, é a redução da narração em off do personagem de Wagner Moura. O que é curioso, já essa narração é o ponto fraco do filme, aquilo que o prejudica duplamente: trata-se não só de uma “muleta”, como disse o Hector Babenco, como dá brecha pra crítica de que é um filme fascista.

O lance do fascismo, imagino, surge facilmente porque essa narração mistura didatismo exagerado e ponto de vista do personagem numa coisa só. Em alguns momentos, não parece o Capitão Nascimento dando uma opinião, mas o diretor, José Padilha, querendo validar um argumento. Totalmente desnecessário. Talvez seja uma concessão ao mercado estrangeiro, onde o filme será certamente comercializado pelo Harvey Weinstein.

Pelo ponto de vista formal, a narração em off dilui muito a força do filme - que já é enorme, mas poderia ser ainda maior. A maioria das idéias poderia ser introduzida por diálogos ou encenação.

Fora esses problemas, na verdade pequenos, é um puta filme. Absurdamente bem filmado, fotografado e montado. E há um motivo para que cause tanta discussão: o tema é forte, e a visão de mundo dos personagens é dura. Corajoso, esse Padilha. Preciso urgentemente ver Ônibus 174 para comparar.

October 6, 2007

sonho de consumo

Descobri hoje que o brinquedo mais legal desenvolvido no século XXI (acho) está à venda no Brasil. É o Tickle Me Elmo, o boneco que se racha de dar risada. Se isso não é a felicidade automatizada, eu não sei mais o que pode ser.

A má notícia é que custa proibitivos R$ 299,90. Alcoolismo sai mais barato a curto prazo.

October 1, 2007

HA HA HADIOHEAD

Deus meu.

September 30, 2007

salão oval

O vício reinante é West Wing. Como disse um amigo, devo ser a única pessoa com menos de 45 anos a assistir essa série sobre os bastidores do primeiro escalão da Casa Branca. É uma pena, pois a série tem tudo: atuações memoráveis, tensão, belos insights sobre as engrenagens da política (algumas peças devem ser iguais em todos os países), humor seco e diálogos tão bons que chego a ficar com dor de cabeça. Culpa do criador e principal roteirista, Aaron Sorkin, gênio da raça, o mesmo de Studio 60 on the Sunset Strip - outra ótima série, cancelada prematuramente.

O curioso de West Wing é que se trata de uma utopia de Sorkin: uma administração democrata com um presidente erudito, capaz e honesto; funcionários talentosos e bem-intencionados; uma mídia que, mais freqüentemente do que na realidade, faz perguntas pertinentes. Os erros, crises e escândalos - que acontecem em grande número - são verossímeis, mas nunca (ou até meados da 3ª temporada) deflagrados de má fé. Acho isso bom. Se houvesse traços de incompetência e corrupção nos personagens, imagino, a série seria insuportável. Real demais.

September 26, 2007

olhos azuis

Um modesto desafio de lógica.

the human torch denied a bank loan

Por que William Waack sempre quer pronunciar nomes e palavras estrangeiros de forma mais precisa do que todo o resto do mundo? Há pouco, ao anunciar entrevista com o jornalista Carl Bernstein, não evitou puxar o “sh” em Bernshtein.

AM I RIGHT OR WHAT?

September 24, 2007

dia sem carro 2

Esse Dia Sem Carro, aliás, nunca influenciará gente suficiente para que o volume de automóveis nas ruas diminua. Não adianta apelar ao lado prático das pessoas quando o assunto é carro. Menos ainda a uma suposta consciência ambiental. Todo mundo cresce vendo automóvel como item de status e poder. Alguns até enxergam a metáfora da liberdade naquelas três toneladas de aço e plástico.

Pra mim, o único uso decente dos automóveis em todo século XX foi a cena de perseguição em Operação França.

dia sem carro 1

No Dia Sem Carro, ouvi diversos relatos de pessoas que usaram carro e enfrentaram trânsito. Claro, todos pensaram que não haveria trânsito e saíram de casa com seus veículos. Fiquei satisfeito. Ironia é a única coisa que existe.

September 15, 2007

você reclama do meu apogeu

A melhor apresentação ao vivo da televisão mundial: Neil Young tocando Rockin’ in the Free World no Saturday Night Live, no dia 30 de setembro de 1989.


Esse vídeo é minha droga ultimamente. Nunca falha. E é, de fato, bem histórico.

Young, pelo menos até essa época, sempre evitou aparições na televisão (algo que mudaria na década de 90, quando virou, oficialmente, “lenda do rock” e ícone aparentemente incontestável). Só o fato de ter aceito tocar no SNL já é incomum.

O velhinho ainda teve a manha de aparecer vestido de líder de gangue, com asseclas e tudo mais. O curioso é que essa formação específica - Steve Jordan na bateria, Charley Drayton no baixo e o amigo de longa data Frank ‘Poncho’ Sampedro, do Crazy Horse - só funcionou nessa única apresentação.

Há ainda a música em si. No final dos anos 80, Young saía de uma longa fase de fracassos comerciais e artísticos (trolhas como Trans e Re-ac-tor, em que ele se arriscou com vocoders e música eletrônica) e tinha acabado de perceber que andava funcionando melhor na freqüência da fúria. Rockin’ in the Free World é uma das melhores desse período, ambígua de doer, pseudo-elegia ianque que só um canadense podia fazer.

Essa apresentação no SNL é, de longe, a versão definitiva da música. Até o próprio Young acha isso. Tudo está perfeito: Steve Jordan em combustão, músicos trocando agressões entre si, dois solos completamente inviáveis, Young fugindo da câmera (esta é a versão editada; a transmissão ao vivo teve alguns planos vazios porque Young se mexia demais e saía de quadro), até os erros caem bem. Veja e chore.

June 18, 2007

anaxágoras arranca as unhas de galileu com um alicate e sorri

Só febre e gripe pra dar clareza.

Rejeitados Pelo Diabo é um dos filmes mais humanistas dos últimos anos, apesar de mostrar psicopatas sádicos, policiais violentos e mais imoralidade por frame do que a maioria da produção cinematográfica norte-americana recente.

Na história, os membros remanescentes da família Firefly (apresentada no filme anterior de Rob Zombie, A Casa dos 1000 Cadáveres) saem em fuga da polícia após uma emboscada. No caminho, barbarizam alguns viajantes, matam outros por diversão e acabam fuzilados pela polícia.

Não há por quem torcer no filme, visto que todos são canalhas, de uma forma ou outra. Mas é justamente essa falta de referência de moralidade dentro do filme que obriga o espectador a buscá-la dentro de si.

E mais: ao tornar os assassinos protagonistas e examinar sua dinâmica familiar - eles se amam e se importam uns com os outros, cada um à sua maneira -, mostram que os sádicos e malvados, em toda sua brutalidade, são tão humanos quanto qualquer um. Zombie, também roteirista, descarta a idéia (da qual eu também discordo) de que psicopatas e, de uma forma mais abrangente, a violência sejam elementos “inumanos” ou “monstruosos”. O espectro humano abarca isso tudo também.

Não bastasse essa perspectiva completamente inesperada para um filme de terror supostamente irresponsável (bem, não deixa de ser), traz um dos finais mais absolutamente fenomenais que já vi, com os protagonistas rumando em direção à morte ao som de Free Bird, do Lynyrd Skynyrd.

June 16, 2007

debaixo das ações judiciais dos seus cabelos

A falsa polêmica sobre o livro do Robertão (falsa, na verdade, até a entrada do Paulo Coelho no meio, isso sim lance inesperado e interessante) teve o desfecho adequado: o livro some, fica a fama ao autor, pesquisador competente (não muito mais que isso) e escritor sofrível. Li que agora ele dá aulas-show (!), contando histórias do livro. À la Suassuna. Fora o constrangimento inicial, se deu muito melhor do que qualquer prognóstico.

Só me incomodou o efeito visual, digamos, da cena toda. Pareceu que o autor, com sua excelência, atingiu profundezas abissais da história do Rei e, portanto, incomodou o biografado, mexeu em feridas antigas e obscuríssimas etc. Como sabem os que leram, não é o caso. É puro transtorno financeiro e conceitual por parte do Rei, que lançou uma provocação interessante: se a vida é minha, porque devo deixar outro cara lucrar com ela? Que lucre eu, que posso (ou não) escrever sobre o que vivi, eventualmente. Afinal, o concreto da obra é produção alheia, o autor só transporta os carrinhos e preenche o molde. Hmm.

Pra mim, Robertão mataria a questão de outra forma: convocar a imprensa, dizer, “é, os fatos estão oquei, mas eita livrinho mal escrito, hein? Comprem por seu próprio risco.” Pronto.

May 13, 2007

mote

“I love and treasure individuals as I meet them, I loathe and despise the groups they identify with and belong to.” - George Carlin

Minha filosofia, de forma mais sintética e brilhante.

March 4, 2007

céu azul

Wilco - Sky Blue Sky

Ontem, meio na surdina, o Wilco colocou no site a íntegra do novo disco, Sky Blue Sky, que só sai em maio.

Não adianta olhar de novo, já sumiu.

Era preciso estar em casa, com um fone de ouvido atravessado na cabeça, numa madrugada de sábado, com plena posse de informações & links & quicktime configurado.

Consegue ser ainda mais lindo que A Ghost Is Born, mais melódico, mais direto, mais genial. Jeff Tweedy demonstra uma incapacidade patológica de errar. A adição do guitarrista Nels Cline finalmente prova ser lance de gênio. Maio será um belo mês.

December 24, 2006

nanorresenha calcada na dúvida

Vi Os Infiltrados, do Scorsese, e cheguei à conclusão de que o filme tem algo de muito certo e algo de muito errado, as duas coisas convivendo em cada plano, cada cena. Não sei definir ambas. Gostei.

tudo vai mal

Após avançar um terço de Roberto Carlos em Detalhes, do Paulo Cesar de Araújo, algumas impressões:

1 - Um dos livros mais mal editados graficamente que já tive em mãos, considerando a importância do lançamento e o tamanho da editora (a espanhola Planeta). Além do tamanho ser incômodo (21 cm x 28 cm), a opção de diagramação em duas colunas é estranha. Sem contar a capa, de causar sobressaltos e taquicardia de tão medonha;

2 - O cuidado com as fotos é mínimo. Além de poucas e visivelmente mal escolhidas, não têm identificada a data. Para completar o horror, trazem legendas risíveis, como “Roberto Carlos olhando além do horizonte”;

3 - Como obra que se pretende referencial sobre o Roberto Carlos, é triste ver que sonega a discografia do artista. Seria bacana ver uma lista completa de tudo que o cara lançou, das músicas que gravou, de quem compôs qual etc;

4 - Suspeito que o livro foi editado na pressa de aproveitar o final de ano, principalmente por acompanhar o lançamento do novo disco do RC e a exibição do especial de fim de ano. Não traz um índice onomástico, por exemplo, que seria bem útil. Além disso, o texto contém erros de português (p. 127: “Certa vez, Manoel Carlos pediu Cauby Peixoto e Ângela Maria para cantarem…”), repetições e muitos clichês (o “não precisou pedir duas vezes”, em particular, irrita muito);

5 - É até engraçado que RC venha condenar o livro. O autor é claramente partidário do cantor. Mais do que isso, adota um tom mitificador em vários trechos, com banalidades do tipo “E fulano de tal nunca imaginaria que estava diante daquele que se tornaria o maior artista popular da história do país” etc.

6 - Apesar de tudo, é a história do Rei, e Araújo, apesar de narrador de eficiência inconstante, dá conta do recado. Persistirei.

November 27, 2006

velho oeste

As baratas já estavam no apartamento antes que eu ou o inquilino anterior chegássemos. Estavam aqui antes mesmo que os primeiros operários erguessem os prédios do condomínio. Eu, no entanto, não ligo. O território agora é meu.

Na medida do possível.

É como um filme de faroeste. Eu sou John Wayne (Rastros do Ódio), elas são os peles-vermelhas. É uma terra sem lei. Quando as vejo, tenho a escolha de matá-las ou deixá-las viver. É sempre uma escolha, nunca um ato reflexo. Geralmente, as deixo viver, mas por pura preguiça. Quando escolho matá-las, freqüentemente escapam. Semanas depois, as reencontro, mais gordas, acompanhadas de pequenas proles, do tamanho e da cor de grãos de arroz estragados. Me sinto um canalha, mas as extermino. O método mais simples é esmagá-las. É comum que não morram imediatamente. Não desfiro golpes de misericórdia.

As baratas, flanando de lá pra cá, parecem tão mais dignas do que eu. A seu tempo, as matarei todas.

aguardo

miottorama: vc tem vontade de ver a Terra invadida por monstros?

Daniel: sim, é meu sonho desde criança

November 7, 2006

montanha de sangue

Foto: Ryan Russell A galerinha do metal já de estar ligada, mas vale a dica pra turma shoegazer desmamada com OVOMALTINO: de foder esse Mastodon, puta que pariu. Perfeito equilíbrio entre o CÂNONE headbanger (saca o nome do disco novo: Blood Mountain) e uma pegada moderna, às vezes meio jazz FROM HELL. O álbum anterior era conceitual, baseado em Moby Dick. O novo não é baseado em nada, mas é maldade sonora do início ao fim. Colony of Birchmen e Sleeping Giant são, fácil, duas das melhores músicas que já ouvi no gênero. Desde já entre os favoritos da casa.

donnie darko

October 8, 2006

mancada

Um tanto difícil entender o motivo do cancelamento da série Freaks And Geeks (2000-2001) ainda na primeira temporada, após apenas 18 episódios. Muito se fala de Anos Incríveis, por exemplo, mas Freaks and Geeks é, fácil, a melhor série sobre adolescentes já produzida. Até quando eventualmente cede a moralismos é legal. Personagens maravilhosamente humanos.

Criação do Judd Apatow e com o Seth Rogen no elenco. Agora vou baixar Undeclared e prolongar a mágica.

October 3, 2006

não me elegi porque faltou voto

Para pegar carona no momento de alta eletricidade democrática do país, volto a escrever para legislar em causa própria e anunciar promessas belas, audaciosas e vazias.

Chefiado pelo amigo Luis e com colaboração de uma porção de gente (alguns jornalistas, infelizmente, inclusive eu), tá no ar o Banana Mecânica, site de música que aspira a abrangência GENUINAMENTE nacional. Sim, a idéia é ter colaboradores no Amapá escrevendo sobre a cena local, seja lá o que for que o pessoal da área esteja aprontando. Roberto Justus nos ensinou que ambição é fundamental na vida.

O site ainda passa por fase de ajustes, mas é aquela coisa: os méritos são todos do Luis e da turminha que ajuda, os erros são fruto do capitalismo, da máfia dos sanguessugas, do dossiê de conteúdo invisível e de mim mesmo, que falo que faço isto e aquilo e dou cano.

No mais, prometo a criação de 10 mil novos posts até o final de 2010.

August 13, 2006

melhor show

August 12, 2006

caçadores de mitos

Links provavelmente pouco duráveis, mas vale indicar: 23 episódios (no Google Video) da série Penn & Teller: Bullshit!, em que a dupla ataca mitos e concepções comuns, como, por exemplo, de que reciclagem é uma boa idéia.

Divertido e, em seu melhor, esclarecedor. Basta ficar atento a eventuais manobras retóricas e factuais, à moda Michael Moore.

August 6, 2006

samba canção sub-humano

Há semanas sem ser um livro por prazer, com meses de cinefilia reprimida, cheio de pendências acumuladas nos bolsos da camisa, com a saúde em declínio (os cabelos já começam a abandonar a nau), tendo alucinações em que gafanhotos gigantes com arcadas dentárias cheias de cáries mastigam os pedestres da Paulista.

Chora, cavaco.

zero

O melhor lugar para se estar é no ponto cego.

June 4, 2006

filme de oposição a Bryan Singer


X-Men 3 se beneficiou das baixíssimas expectativas em relação a ele. Tudo, como as fotos de divulgação, a sinopse e a escalação do Brett Ratner na direção, indicava o rumo à excrescência plena. Ver um filme menos ruim do que o esperado foi uma surpresa das mais ordinárias, mas ainda sim surpresa.

Algo de que a princípio não gosto, mas achei que funcionou (na medida do possível) foi a estratégia quadrinhesca de encher a trama de personagens em um conflito ridiculamente desenvolvido e forçar situações extremas (morte, castração simbólica, abstinência sexual forçada, essas coisas). O subdesenvolvimento dos personagens veio como resposta infantil, mas até interessante, de estilo em relação aos dois filmes anteriores. Como se Ratner tirasse onda das pretensões artísticas de Bryan Singer com porralouquice sem personalidade e espalhafato acerebrado.

No mais, ao contrário do que parece numa leitura rápida que se baseie na contagem de cadáveres, o “confronto final” do título não se justifica em absoluto, já que um número respeitável de pontas soltas foram deixadas. E estabelececido um clima de estranheza e arbitrariedade narrativa que não existiam antes no filmes, mas que fazem parte da própria cultura de quadrinhos. Me refiro à questão da absoluta despreocupação em relação a justificativas decentes sobre mortes e ressurgimento de personagens. Fiquei com a impressão de que todo mundo que morreu ou foi “castrado” no filme pode perfeitamente retornar alegremente em uma provável seqüência. É muito dinheiro envolvido para a galera do Marvel Studios se preocupar com coerência, pelo amor de deus.

E fica aqui meu repúdio à rasteira referência aos Sentinelas no início do filme. Pra mim, esses seriam os melhores vilões possíveis para um filme dos mutantes. Avi Arad, liga pra mim que eu te explico melhor.

May 14, 2006

blog no âmbar

Às moscas, mais uma vez. Motivos há: obrigações acadêmicas, mudanças profissionais e, principalmente, a falta de uma conexão decente. Não desejo a ninguém o suplício de ser refém da linha discada e das madrugadas. Nessa questão, poderia citar os meandros do karma, mas a bela série cômica My Name Is Earl já trata o assunto com perícia e simpatia.

Para os que, por motivos obscuros para mim, ainda se interessam por algo que porventura venha a ser publicado aqui, sugiro assinar o RSS e viver a vida.

April 2, 2006

hey chicken

Delícia absoluta Born In The USA Again, novo do Loose Fur, projeto paralelo de Jeff Tweedy, Glenn Kotche e Jim O’Rourke (líder, baterista e produtor do Wilco, respectivamente). Essa turminha nunca me decepciona.

(Link para download no Rapidshare, dica do s., meu estranho favorito)

March 26, 2006

‘de volta para o futuro’ e a sci-fi

Numa bela coincidência, ao mesmo tempo em que eu vinha estudando a ficção científica para um trabalho, topei com a edição em DVD desse belo exemplar do gênero. Por mais que possam haver críticas sobre a falta de rigor teórico e lógico em relação às causas e efeitos das viagens no tempo de Marty McFly, esse filme realiza exatamente o que se propõe (divertir), com um nível de imaginação, senso de humor e técnica incomuns até hoje.

Vale dizer que uma das discussões mais recorrentes e polêmicas sobre a sci-fi é o caráter científico de suas histórias. O próprio nome do gênero entra em xeque. Alguns defendem a alternativa “ficção de especulação”, com a qual concordo: na sci-fi, em geral, o foco não está na ciência e nos pormenores tecnológicos, mas no exercício de imaginação e reflexão sobre a realidade humana.

De Volta Para o Futuro ignora o lado anal-retentivo desse debate e usa os elementos científicos só até o ponto em que eles não interfiram no roteiro e na fluidez da narrativa. O mais evidente paradoxo está no fato de Marty influir diretamente nos eventos que levaram ao início da relação de seus pais, inclusive alterando-os radicalmente. Esse problema até é mencionado e usado na trama, mas nunca ultrapassando os limites do inteligível.

Talvez a maior contribuição do filme para o gênero seja justamente essa liberdade teórica a serviço do efeito final na tela. Os personagens e as modificações que sofrem ao longo das indas e vindas temporais são o foco do filme, e não as hipotéticas possibilidades científicas da viagem no tempo. Não interessa examinar a lógica do gradual sumiço da mão de Marty na cena do baile, ou o real propósito de um “capacitor de fluxo” (?). Francamente, qual é a graça de se questionar isso?

silêncio nunca mais

“NASA researchers can hear what you’re saying, even when you don’t make a sound.” (Via Metafilter)

constelação literária

Literature-Map, mapa visual de autores correlacionados. Infelizmente não muito atualizado, porque a busca ‘Bruna Surfistinha’ não retorna resultados. (Via Metafilter)

March 24, 2006

fuck fuck fuck [ad nauseam, fills whole page]

Macaulay Culkin se lança como escritor. Hum.

March 22, 2006

‘o pássaro das plumas de cristal’


Primeiro longa do italiano Dario Argento como diretor, é também o exemplar inaugural do subgênero giallo - thrillers de horror sobre serial killers com tesão por facas reluzentes e peças de couro preto.

Nesta primeira incursão, Argento apenas esboça a estilização extrema e a violência operística em que se transformarão suas cenas de assassinato. Em Suspiria, chega ao patamar do sublime. Aqui, ele ainda está no aquecimento, apesar da força de suas imagens. Poucas vezes o assassinato foi tão carregado de erotismo como nesse filme de Argento.

A história é bastante simples. Sam, um escritor americano, testemunha uma tentativa de assassinato de uma mulher numa galeria de arte, na Itália. Interrogado pela polícia, descobre que o assassino deve ser responsável por outras mortes - e que se tornou um suspeito. Começa então a fazer sua própria investigação sobre os crimes.

O grande cartão de visitas de Argento é a cena da galeria de arte. Num exercício de adorável cinefilia, o protagonista Sam enxerga a tentiva de assassinato através da vitrine transparente da galeria - uma exata representação da tela de cinema. Argento vai ainda mais longe, ao fazer que Sam tente entrar na cena do crime em andamento e fique preso entre as duas lâminas de vidro que separam a galeria da rua. Preciosa lição sobre os limites da relação entre espectador e filme.

Argento prossegue sua divagação cinéfila ao espalhar diversas referências sobre enquadramento sob forma de objetos retangulares que atraem a atenção dos personagens (fotografias, quadros). Pena que esses elementos não tenham sua importância devidamente discutida nos trechos finais. Desde seu primeiro filme, o ponto fraco de Argento está no roteiro. Ainda bem que há muitas compensações.

March 19, 2006

um blog de cinema para você

Depois de muito tempo de hesitação, ruminância, delírio e vertigem, decidi criar um blog só sobre cinema: 35mm.

(A princípio queria chamá-lo MacGuffin, mas achei que ia ficar muito obscuro.)

Meu plano é chutar a sempre sedutora inércia e atualizar o blog diariamente com críticas, links, notícias, artigos e o que mais for interessante. O tom e o ritmo do trabalho deve vir com o tempo, supondo que tenha gás para tocá-lo dessa forma por mais de uma semana (considerando que todo o trabalho será feito de madrugada). Espero que só o fato de escrever minhas intenções aqui sirva como elemento de coação.

E não posso esquecer de uma coisa: colaborações serão mais do que bem-vindas. Quem gostar da idéia e quiser ajudar, mande um e-mail para dlimasouza arroba gmail ponto com.

March 14, 2006

mulheres despencam do céu

Um belo microconto sci-fi encontrado no excelente Introdução ao Estudo da “Science Fiction”, de André Carneiro:

Uma Chuva de Mulheres
Pierre Versins

As primeiras chegaram pelo começo de maio. Eram tão belas e desejáveis que os homens sonhavam todas as noites e as perseguiam todos os dias. Em pouco tempo souberam que jamais elas eram difíceis e até os homens tímidos estavam fascinados. Elas faziam o amor com um refinamento e uma sutileza que suplantavam a mais ardorosa rival terrestre. O número já grande de solteironas aumentava.

E elas continuavam tombando do céu, encantadoras e sensuais, eclipsando sem dúvidas a nossa mulher mais perfeita. O amor tomava todo o tempo dos homens.

Elas continuavam lindas e não envelheciam nunca.

Levou muito tempo para se aperceber que elas eram completamente estéreis. Assim, quando meio século mais tarde seus robustos amantes desembarcaram de Vênus, a maioria sobre a Terra eram homens decrépitos e mulheres muito velhas.

Eles foram muito gentis e trataram a todos sem nenhuma brutalidade…

curtas: “cabana do inferno”, de eli roth

Divertido filme de horror que presta homenagem a muitos clássicos do gênero (em especial ao cenário de mato & chalé claustrofóbicos de Evil Dead e à paranóia de O Enigma de Outro Mundo). Quantidades adoráveis de sangue, sexo e demência, com personagens não exatamente simpáticos, mas adequados ao contexto. Destaque para o policial com obssessão por festas e uma sensual cena de depilação.

curtas: “senhor das armas”, de andrew niccol

Se por um lado este consegue ser um interessante, irregular e cínico filme sobre um traficante de armas, o tema parece ser tão importante que o tratamento soa simplesmente errado e imaturo. Gostaria de ver o assunto de volta à tela, mas nas mãos de alguém menos preocupado em chocar e mais interessado em discutir o problema.

March 13, 2006

the age of aquarius


Que coisa maravilhosa é o DVD de O Virgem de 40 Anos. Extras fantásticos, como um mini-documentário sobre a cena de depilação; cenas descartadas interessantes; toneladas de improvisações não usadas no filme (inclusive a que deu origem à já clássica “how do I know you’re gay?”) e faixa de comentários com o diretor Judd Apatow & quase todo o elenco. Tudo isso legendado em português, o que é ainda melhor (e tragicamente incomum).

Ah, mesmo que não tivesse nada a mais no disco, já valeria a pena pelo filme em si e pelo final mais maravilhoso dos últimos anos.

E caso alguém aí não tenha visto esse filme pensando ser um similar da série American Pie, sugiro pensar novamente. Diferente desse tipo de comédia, que parte de contextos sexualmente liberais (”vida de universitário”, festas etc) para em seguida reprimir o sexo das formas mais histericamente conservadoras e deprimentes, esse aqui toma o caminho inverso: parte da repressão para a liberação (com uma ressalva lá pela conclusão, infelizmente). Melhor comédia do ano passado, ao lado de Amor em Jogo.

March 7, 2006

john locke é o cara


Nesta semana termina a primeira temporada de Lost na Globo. Tem sido divertido acompanhar a série e chafurdar nas incontáveis possibilidades no diz respeito aos mistérios da ilha e de seus personagens. Só me incomoda a dúvida sobre da capacidade de seus roteiristas de amarrar as cada vez mais numerosas pontas soltas.

Imagino que uma das razões dessa política de ferrenha sonegação de informação dos autores da série é a tentativa de alongamento da vida útil do programa. Quanto menos se descobre a cada episódio, mais deles podem ser produzidos; parece ser essa a lógica usada.

Tomara que essa política seja inteligentemente administrada. Acho saudáveis as fartas doses de bizarrice e mistério da série até agora, mas espero que JJ Abrams e turminha tenham em mente que esse tipo de abordagem cansa muito rápido. O masoquismo do público tem limite. Além do mais, informação a conta-gotas é técnica um tanto barata. Funciona muito bem no início, talvez durante as duas primeiras temporadas, mas deveria mudar depois. Aí está o grande desafio dos roteiristas: depois de preparar o terreno, acelerar o ritmo progressivamente. Minha principal referência é 24 Horas (meu seriado favorito), em que a regra é que cada episódio seja mais intenso que o anterior.

Também há outras questões. O uso de flashbacks em cada capítulo tende a cansar. Além disso, deve chegar um ponto em que não seja mais possível extrair flashbacks decentes dos personagens.

Minha idéia de futuro para o seriado envolve o abandono de flashbacks, a mudança de foco - de mistério para ação, drama e thriller - e o amadurecimento dos sobreviventes. Gostaria de vê-los organizando-se mais seriamente, com todas as implicações sociais e hierárquicas que podem surgir nesse tipo de situação.

Opa, vai começar o episódio de hoje. Vou ver se o Locke se salva de um balaço na cara.

March 4, 2006

templo

Ontem prestei uma visita a um dos terrenos sagrados da burocracia: o Poupatempo da Luz. Confesso que fiquei emocionado. Na entrada, um balcão de informações circular, com duas funcionárias e pilhas e pilhas de folhetos com informações sobre procedimentos e a documentação necessária para sua execução. À frente, um amplo balcão de triagem, com quatro filas diferentes. À direita, um guichê para retirada de documentos. À esquerda, a glória: duas longuíssimas fileiras de bancos, com quase todos os lugares preenchidos com gente de fé, agarrando-se aos seus bilhetes impressos com senhas de um caractere e quatro dígitos (229.977 combinações possíveis). Três painéis cor laranja e três cor verde comunicam alegremente o código da redenção, que guia as almas atormentadas a uma das cerca de 50 mesas onde atendentes uniformizados ouvem suas queixas e prescrevem a salvação.

Não pretendo voltar.

February 17, 2006

uma tirinha para você

Nunca é demais repetir: The Perry Bible Fellowship, de Nicholas Gurewitch, é a melhor webcomic pairando no éter digital já há algum tempo.

o povo fala

Uma dúvida: alguém aí usa o Virtua, serviço de banda larga da NET? Algum comentário? Recomenda?

i don’t give shitty jobs


Outra dica de seriado: a versão original, inglesa, de The Office. Não vi nada do remake americano, mas duvido que seja melhor.

Foi lançado em 2001, teve duas temporadas de seis episódios cada e mais um especial de natal em duas partes. Feito como um pseudo-documentário, o seriado mostra o dia a dia dos funcionários do escritório de uma empresa inglesa.

Não bastasse o ambiente e os tipos serem perfeitamente reconhecíveis para qualquer um que já tenha trabalhado, o seriado ainda conta com um dos melhores personagens cômicos já criados: David Brent, o chefe do escritório. A interpretação de Ricky Gervais (também o autor e diretor) é assombrosa e inclemente. Brent é uma força da natureza nos quesitos mau gosto, egocentrismo, covardia e sede por atenção. E, mesmo assim, perfeitamente adorável.

The Office surpreende por não lembrar quase nunca uma sitcom. Humor sutil, que oscila entre o hilário, o patético e o deprimente com uma facilidade assustadora.

February 13, 2006

sacrilégio

O Ocidente é apaixonadamente comprometido com seu valor de liberdade de expressão e os países islâmicos são apaixonadamente comprometidos com seu conceito de sagrado. Não há formas de mediar essa contradição e encontrar uma solução.

O historiador Robert Darnton resume o conflito simbolizado pela polêmica sobre as charges de Maomé, em entrevista ao caderno Mais!, na Folha de ontem.

(Link só para assinantes UOL)

February 11, 2006

37.000 Kbps

Lesmas são mais rápidas do que sua banda larga.

February 8, 2006

it’s ok, i’ve already sent an e-mail

The IT Crowd

Faça a si mesmo um favor: coloque seu bittorrent pra funcionar e baixe os dois três quatro primeiros episódios da sitcom inglesa The IT Crowd. Deve ser a primeira série cômica sobre o universo geek. Ao lado de Freaks and Geeks (valeu, Guilherme), a série é das primeiras a tratar do universo geek. Fonte INFINITA de piadas.

February 6, 2006

perdido, enfim

Depois de visto os dois primeiros episódios de Lost ontem, na Globo, finalmente posso (começar a ) entender todo o hype em torno da série.

Realmente, Lost é foda.

O grande lance do J.J. Abrams foi tomar o conhecido tema da ilha deserta e impor um ritmo de thriller. Aparentemente todos os personagens têm um ou mais segredos espúrios escondidos na manga, o que garante confortável margem de segurança para os roteiristas. O problema de convivência entre os personagens é outra tática conhecida utilizada logo de cara. Mas o mais interessante, por enquanto, é o potencial de terror e bizarrice que as ameaças da ilha podem oferecer. Claro, espero que não sejam dinossauros.

friedkin + ellroy

Filme de William Friedkin com roteiro de James Ellroy? Hmm.

February 3, 2006

Munique


Não sei se, afinal, Spielberg cresceu, mas o homem continua mestre inconteste de som & imagem no cinema. Espero o espetáculo. Seu sempre discutível amadurecimento, pra mim, acaba sendo bônus. Felizmente, é o caso.

Munique, na forma, presta homenagem aos thrillers da década de 70 (Operação França vinha bastante à mente, inclusive com alguns planos idênticos e “realismo” semelhante), mas no conteúdo há uma certa reformulação de conceitos do gênero - a serviço de uma discussão política, claro.

Prefiro enxergar a mensagem num plano humano e geral. Mais do que uma pretensa tentativa de reconstituição do atentato terrorista nas Olimpíadas de 1972 e a posterior retaliação israelense, penso que o filme toma o fato histórico como exemplo de ato de violência gerado por uma cadeia de ódio e que, por si, funciona como catalisador de mais ódio. O conflito poderia ser entre qualquer grupo. A lógica e as consequências incontroláveis da vingança é que são o ponto do filme.

É evidente que o filme é simpático a Israel, mas não da maneira óbvia. Com um diretor judeu e financiadores judeus, não dá pra se esperar menos que isso. Se não existe imparcialidade absoluta nem no jornalismo, que dirá em uma obra de ficção - que, aliás, nem deve se preocupar com esse tipo de coisa. Munique é parcial, na medida em que assume o ponto de vista de agentes israelenses. Eles próprios questionam ou endossam suas ações e de seu governo. Os dramas de consciência são visíveis e têm consequências na trama. Abordagem madura e muito mais interessante do que outra possível - e que talvez fosse menos vulnerável a críticas -, que seria narrar a história de um ponto de vista afastado, “imparcial”. Spielberg não está em cima do muro: está do lado de Israel, questionando tanto as ações de Israel quanto dos palestinos.

E o filme é duro, seco. A espionagem passa ao largo do glamour. Os agentes são terrivelmente falhos, os planos não são perfeitos, o erro é sempre uma possibilidade próxima e cruel, o assassinato é sempre uma coisa horrenda. Eric Bana, interpretando o agente Daniel Avner, parece sempre o elemento mais frágil em cena. Dificilmente um herói spielberguiano.

Munique não deve agradar ao grande público.

WTF

Lee Tamahori, diretor de cinema e travesti

LOS ANGELES, 2 fev (AFP) - O diretor de cinema neozelandês Lee Tamahori, 55, foi detido em 8 de janeiro, quando, vestido de travesti em Hollywood, ofereceu serviços sexuais a um agente policial à paisana, informou a polícia na quinta-feira.

“O senhor Tamahori foi preso por incitação à prostituição. Posso confirmar que estava vestido com roupa de mulher, quando foi detido”, disse o oficial Jason Lee, do Departamento de Polícia de Los Angeles.

Foto fornecida por Guilherme Gaspar

January 27, 2006

erosão natural das montanhas

Depois de Just Like the Fambly Cat, disco a ser lançado em maio, o Grandaddy acabou-se. Menos uma banda foda tocando por aí.

adoro aliens malvados


Que maravilha: Evil Aliens, ficção científica e pastelão gore, clima que remete ao já clássico absoluto Fome Animal. Trailer arbitrariamente encharcado de quantidades indecentes de sangue. Tipo de filme B que merece mais espaço das distribuidoras nacionais. Deve chegar aos cinemas ingleses em março.

dev2.o

Devo para crianças. Ou melhor: o Devo decide regravar seus clássicos e adicionar vocais infantis (ou nem tanto). E a idéia é atingir justamente o público infantil.

Bom, se eu tivesse filhos, preferiria que eles ouvissem crianças cantando Devo do que qualquer coisa da Eliana.

esperança.pps

“‘A vida não é feita de amanhãs promissores, de crepúsculos encantados e baboseiras como essas. É trabalho. A pessoa a quem você ama raramente é digna do grande amor que você lhe dedica. Porque ninguém é digno disso e talvez ninguém mereça o fardo que isso representa. Você vai ser abandonado. Você vai se decepcionar, vai ter sua confiança traída e vai comer o pão que o diabo amassou. Você perde muito mais do que ganha. Você odeia a pessoa amada na mesma medida em que a ama. Mas, merda, você arregaça as mangas e trabalha - em tudo -, porque envelhecer é isso.’

‘Annabeth’, disse Sean. ‘Alguém já lhe disse que você é uma mulher dura?’

Ela voltou a cabeça para ele, os olhos fechados, um sorriso sonhador na face. ‘O tempo todo.’”

Sobre Meninos e Lobos, de Douglas Lehane. Livro que merece o maravilhoso filme que originou.

January 19, 2006

corpo humano 2.0

Essa auto-entrevista do inventor Ray Kurzweil aumentou meu assombro em relação às possibilidades da biotecnologia, nanotecnologia e inteligências artificiais sobre o corpo e a consciência humana. Kurzweil, considerando que a velocidade dos avanços tecnológicos aumenta de forma exponencial ao longo do tempo, espera que já na metade deste século nano-robôs integrados ao organismo humano multiplicarão nossa inteligência na casa do bilhão.

Dito assim soa delírio completo - o que pode acabar sendo, claro - mas o longo, interessante e convincentemente otimista texto de Kurzweil expõe informações ao mesmo tempo fantásticas e assustadoras. Por um lado sugere que IAs milhões de vezes mais inteligentes que o homem podem nos levar a patamares tecnológicos literalmente inimagináveis hoje, mas também alerta para a possibilidade da criação de IAs terroristas e destrutivas.

Sem falar da possibilidade da IMORTALIDADE por meio da reengenharia genética.

Farei de tudo para me manter vivo até 2045.

January 18, 2006

cotovelada no crânio

Confie nisto: Ong Bak, filme tailandês de PORRADA, merece sua atenção. Claro, se você me garantir que não vai me atormentar depois por ter achado a trama fraca ou coisa do tipo. Afinal, o enredo, na maioria dos filmes desse gênero, é IRRELEVANTE. O ponto nunca foi esse, e sim a eficiência das cenas de ação.

No caso, esse filme de 2003 traz pelo menos uma novidade: um cara chamado Tony Jaa, novo astro asiático dos filmes do gênero por ser uma versão jovem, tailandesa e muito mais violenta do Jackie Chan. E o cara é MUITO bom.

Em vez de kung-fu, muai thai. Só isso muda bastante coisa nas cenas em si. É um estilo que se baseia em cotoveladas e joelhadas. Por isso é um certo choque ver quando um capanga é eliminado em câmera lenta com uma cotovelada no topo da cabeça.

Além disso, é inquietante ver que, aparentemente, boa parte das pancadas são REAIS. Só vendo para entender o que digo. A coisa toda é tão crua que você automaticamente pára de se empolgar com o filme e passa se preocupar com a integridade física dos atores e gritar ARGH quando um deles cai de cinco metros de altura, de costas, num chão de terra batida. Nenhum efeito digital ou cordinhas à vista, creio.

O diretor Prachya Pinkaew pode ter cacoetes irritantes, como inserir replays em câmera lenta de ângulos diferentes de certas cenas, mas acerta decisivamente ao registrar as proezas desse DEMENTE chamado Tony Jaa em planos abertos - o que boa parte dos diretores de ação não faz, infelizmente. Questão de tempo para ser assimilado por Hollywood e fazer dupla com o 50 Cent.

melhores discos de 2005

Sem ordem de preferência:

Aimee Mann - The Forgotten Arm
O mais interessante nesse disco é como se consegue preencher um álbum inteiro de pop/rock sólido, coerente e cativante com canções tão simples e diretas. Belíssima produção também, dá pra ouvir cada instrumento com clareza incomum.

Spoon - Gimme Fiction
Nunca havia escutado essa banda, e levou algumas audições para entender. Vale o esforço. O Spoon vai além do clichê “menos é mais”; no caso, menos é exato. Para entender, baixe I Turn My Camera On.

Supergrass - Road to Rouen
Em sequência ao maravilhoso Life on Other Planets, de 2002, o Supergrass entra na fase em que boa parte das bandas de rock passa: uma caótica revisão das próprias referências musicais. Agora os caras recorrem a Beatles, Stones, Led Zeppelin, Sly & the Family Stone, psicodelia e folk, às vezes em doses literais. Mas é muito bom, que diabos.

Antony and the Johnsons - I am a Bird Now
A voz desse Antony é uma das coisas mais arrepiantes que já ouvi. Acompanhada de piano, é até covardia.

Wilco - Kicking Television

Simplesmente o primeiro disco ao vivo da melhor banda do mundo.

Ed Harcourt - Strangers
Pouco conhecido, mas excelente, esse Ed Harcourt. Tem futuro. Álbum variado, cheio de canções lindas (baixem Let Love Not Weigh Me Down ou This One’s For You).

The Life Aquatic Soundtrack
Esse eu ouvi exaustivamente antes e depois de ter visto o (maravilhoso) filme. Até saiu recentemente o The Life Aquatic Studio Sessions featuring Seu Jorge, incluindo todas as músicas do David Bowie que o Seu Jorge gravou pro filme (só há cinco na trilha), mas tudo nesse disco é fantástico: Stooges (Search and Destroy), MAIS David Bowie (Queen Bitch e Life on Mars), Devo (Gut Feeling), mais instrumentais incríveis de Mark Mothersbaugh e Sven Libaek.

January 4, 2006

2006

Um ano além de expectativas para todos.

December 15, 2005

primeiro mundo

Na Inglaterra, uma rede de bancos resolve de forma simples o problema das reclamações dos clientes pela espera nas filas: tirando os relógios das paredes das agências.

Mas a explicação oficial é que, depois de pesquisa, descobriram que os clientes acham que relógios não “aprimoram a experiência bancária”.

(Via BoingBoing)

December 11, 2005

(sem assunto)

:: Vida quase sem filmes. Aí não tenho assunto COM NINGUÉM.

:: Por outro lado, tirei o pó do videogame. Resident Evil 4, Shadow of the Colossus e Metal Gear 3 têm alegrado minhas madrugadas. Comentários a seguir.

:: Alguém viu o clipe de Just Want You to Know, do Backstreet Boys? Não bastasse ser hilário, me fez baixar a música e, neste instante, ouvi-la pela TERCEIRA VEZ consecutiva.

November 1, 2005

alerta de filme foda, vol. 1


Um filme que merece ser visto e revisto é Três Reis (1999), de David O. Russell (de I Heart Huckabees, o qual preciso ver urgentemente). Por trás de um filme de guerra, uma crítica avassaladora aos EUA e suas relações internacionais. Das coisas mais cáusticas já filmadas, mas com afiado senso de humor e tênue humanidade.

Na trama, um grupo de militares entediados após o fim da Guerra do Golfo - uma guerra “sem ação” - encontram um mapa que mostra onde se esconderiam o ouro kwaitiano roubado pelas tropas de Saddam Hussein. Decidem roubá-lo. O que se segue é uma sucessão de tiros, mesquinhez, corrupção, crueldade, tortura e pseudoredenção. Tudo embalado numa cinematografia fantástica, de cores saturadas, edição formidável e o talento desse diretor, que soube misturar pelo menos três gêneros (guerra, faroeste e “filme de roubo”) numa só obra.

October 30, 2005

loverbots

Fuckzilla, Orgasmo e Hide-a-Cock são os nomes de algumas engenhocas projetadas para sexo. Com certeza, embriões dos robôs-amantes vistos em A.I.

October 28, 2005

meia lua + soco forte

Empresa japonesa afirma ter criado controle remoto de humanos.

Lágrimas.

faça a coisa certa

Os dez principais erros de design, acessibilidade e organização em blogs. Idéias interessantes. O mais legal é notar que este blog satisfaz somente o item 7 (categorização de posts). Tentarei adotar algumas dessas práticas.

salvando a princesa

Taí um jogo que me interessou: Shadow of the Colossus. Parece ser um dos raros títulos que busca experimentar com convenções de jogabilidade e oferecer emoção e diversão ao mesmo tempo. E com belos gráficos.

October 25, 2005

acerca do tim festival


Mundo Livre S/A: CHORA, CAVACO.

M.I.A.: Música chata, batidas fracas, performance de palco bisonha e roupas pouco reveladoras. Os dedos médios em riste de parte da platéia disseram tudo.

Arcade Fire: Impressionante e lindo o show desses canadenses. Tirando a versão de “Aquarela do Brasil”, pela qual o público deve ter apresentado simpatia por mero ufanismo (haha), foi um show perfeito. Abriu com “Wake Up”, fechou com “Rebellion (Lies)”, do jeito que eu imaginava ser o ideal. Nesse meio, “Crown of Love” me surpreendeu por ser MARAVILHOSA ao vivo e quando chegou a hora de “Neighborhood #1 (Tunnels)”, talvez a minha favorita deles, eu já estava em frangalhos. Inesquecível.

Kings of Leon: Como sou um adepto do rock caipira americano (se tivesse uma banda, ia querer fazer esse tipo de som, entre outras misturas bastardas), os caras já chegaram com meio jogo ganho comigo. Mas confesso que achava que o show deles seria morno. Já tinha baixado vídeos e ouvido apresentações e, putz, soava mal. Eles apareciam blasé pra caralho, preguiçosos no palco. Por isso, na abertura, com uma versão enfadonha e lenta de “Molly’s Chambers”, achei que ia ser isso mesmo. Que nada: o que se seguiu foi o tipo de performance que eu queria dos caras. Pelo telão era possível ver o baterista RESFOLEGANDO e SOFRENDO. Deram tudo de si num show absolutamente boçal, rápido, vigoroso e divertido pra caralho. “Soft” deve ter sido o ponto alto e, porra, fechar com “Trani” é sacanagem, MELHOR MÚSICA.

Strokes: IGUAL O DISCO. O que não deixa de ser bom. Todas as músicas soavam como hits. Mas, oras, achei que o ponto alto foi “Juicebox”, uma das músicas novas. Rápida, com seções instrumentais diferentes e meio HARD ROCK. O melhor de tudo foi notar que Strokes - e, por extensão, boa parte da música indie (hã?) - pode se travestir facilmente de ROCK DE ARENA e divertir tanto quanto. Show conciso, belo fim de noite.

October 20, 2005

realidade e ilusão

Guilherme tem toda a razão: essa entrevista com Wayne Shorter está imperdível.

October 19, 2005

pecado


Rodrigo Santoro será o rei persa Xerxes na adaptação para o cinema de 300 de Esparta, HQ do Frank Miller. Escolha inesperada, mas que deverá render várias sessões de bronzeamento artificial no cara. Já Gerard Butler como Leônidas, só vendo.

Considerações sobre elenco à parte, estou curioso para ver como Zack Snyder, diretor do maravilhoso remake de Madrugada dos Mortos, vai lidar com esse material. Pretendendo usar a mesma técnica de cenários digitais de Sin City e baseando-se em obra do mesmo autor, meu medo é que o cara caia no mesmo tipo de bobeira em que o Robert Rodriguez caiu, na minha opinião, que é a imbecilizante proposta de “tradução para a tela” do que está nas HQs.

Em Sin City, a idéia realmente funciona em termos visuais, de enquadramento, mas falha horrivelmente quanto ao ritmo. A impressão que tenho é que, tanto na tentativa de espremer em duas horas três tramas diferentes quanto pela falaciosa idéia de transpor fielmente a HQ para o cinema, o andamento das histórias fica rápido demais, entulhado, freneticamente burro. Com meia hora de filme já sentia meu cérebro dormente.

Algo que não acontece nas HQs por uma particularidade do meio: o tempo da história é controlado pelo leitor. O ato de folhear a página na revista obedece à necessidade de quem lê. Claro que essa necessidade parte de um estímulo: o bom autor (e Miller é) sabe lidar com as espectativas do leitor e contrapõe páginas agitadas, cheias de ação narrativa, a outras de contemplação, com painéis de página inteira.

Sin City, a graphic novel, funciona tão bem porque há, entre coisas como o fabuloso clima noir sem tons de cinza e os personagens deliciosamente irreais (elementos presentes no filme), essa equação entre ação e contemplação, que é justamente o que não banaliza as histórias.

Espero que o Zack Wylder deixe de lado essa bobagem do Rodriguez e adapte com boa infidelidade o material do Miller.

October 17, 2005

é por isso que eu acho deus filho da puta

Foto: Daniel Lima

Puta show o dos Abimonistas. Destaque para as fabulosas canções “Eu Não Tenho Pinto” e “1000 Razões Que Explicam Um Pouco Por Que Eu Te Amo Tanto”.

pré-requisito: gritos de death metal

O metal sobreviverá.

October 13, 2005

é tempo de amar

Quando me dei conta, estava sentado no banco estofado de uma mesa no canto mais escuro da boate com Roberto Carlos ao meu lado, às lágrimas, dando pequenos soquinhos na perna esquerda (ruídos metálicos encobertos pelo som dos Jordans nos auto-falantes), lamentando o broto perdido. “Será que um dia essa tristeza vai ter fim?”, ele me perguntava. Deixei de prestar atenção ao meu ilustre acompanhante ao notar que os garçons abasteciam a mesa com notável diligência e carinho. Pedi mais uísque, disse “Robertão, amigo, liga não que ela não prestava pra você”, dei um gole e antes mesmo de sentir o álcool aquecer minha garganta fui surpreendido pelas coxas da Wanderléia aproximando-se da mesa. Ela se sentou ao lado do Rei e alisou seu cabelo por horas, enquanto bebericava martinis e me lançava olhares lúbricos.

Rapaz, que noite.

how to fight loneliness

Jeff Tweedy
Se você, como eu, é um dos infelizes fanáticos por Wilco que não estarão ovacionando Jeff Tweedy no TIM Festival, no Rio, console-se baixando bootlegs da banda no Via Chicago. No esquema bit torrent, quase diariamente uns camaradas compartilham gravações de shows inteiros do Wilco, a maioria com qualidade de som muito boa. Só é preciso conexão rápida e/ou muita paciência, pois os arquivos geralmente são .flac (Free Lossless Audio Codec), formato de áudio sem perda que é, em média, umas quatro ou cinco vezes maior que um mp3 (ou seja: uns 600mb por show). Seria legal se alguém gravasse a apresentação daqui.

October 8, 2005

“ninguém vai se salvar”

Scott Henderson, guitarrista e vocalista do Screaming GentlemenApesar da fama de inacessível, o Screaming Gentlemen revela-se bastante comunicativo quando cortejado do jeito certo. O vocalista, guitarrista e compositor Scott Henderson aceitou conceder a seguinte entrevista – via Skype. Perguntado sobre a escolha, Scott mostrou um lado sensível pouco conhecido: “Achei que seria mais barato pra você, caralho”. De Chicago, onde mora, o músico falou sobre como o novo álbum, Dirty Dawns, foi recebido pelo público e discutiu os rumos da música do grupo.

generico: Acho que a primeira coisa que todo mundo pergunta pra vocês é sobre a mudança musical do primeiro disco para o segundo. Que tipo de reações vocês esperavam do público e dos críticos?
Scott Henderson: Pra falar a verdade, nem ligamos pra isso. Não gosto de fazer música como se manufaturasse um produto, seguindo normas, respeitando o consumidor, sabe, fazendo o que o público espera. Não gosto dessa postura por parte de artista nenhum. Fizemos do jeito que nos pareceu bom.

Mas você esperava algum tipo de reação?
Sim, esperava esse tipo de pergunta dos jornalistas também. (risos) Sabia que muitos fãs torceriam o nariz, mas não quero fãs tapados que gostem de nossa música sem realmente ouvi-la. O ideal é quando existe espontaneidade dos dois lados: de nós, músicos, que devem criar livremente, e do público, que, a cada disco, julga se gosta ou não. Não espero fidelidade canina de ninguém.

Imagino que tenha então certa aversão a fã-clubes.
(risos) Um pouco. Mas há muita gente inteligente ouvindo nossa banda.

Como andam as vendas dos álbuns?
Muito ruins. Nada inesperado. Mas compensamos fazendo alguns shows por aí.

Quantas guitarras destruiu esse ano?
Cara, só três… Descobri que esse tipo de hábito custa dinheiro demais. Nem todo mundo pode ser Pete Townshend, por vários motivos.

Cite alguns.
Bem, o cara realmente sabia tocar guitarra. Hoje não sei, toca mais violão do que qualquer outra coisa, o que é bem triste. Mas talvez seja um problema meu, que sente saudade do vigor e da violência dele e do Who dos anos 60 e 70. Envelhecer é uma merda.

Isso significa que os dois anos entre o primeiro disco e Dirty Dawns pesou para que a brutalidade desse espaço à psicodelia?
Depois de uma breve discussão sobre se deveríamos incluir palavrões nas letras por causa de nossos filhos, que já estão na idade de entender o que cantamos, isso só pode ser verdade. Mas essa mudança de foco não significa necessariamente enfraquecimento. Ainda saímos cheios de hematomas e cortes superficiais dos shows.

O que acha das recentes comparações com o Flaming Lips?
Porra, o sangue do Wayne Coyne [vocalista do Flaming Lips] é de mentira. Isso deveria ser levado em consideração! (risos) Adoro o som dos caras, mas todos aqueles sintetizadores não me atraem muito. Gosto da idéia de criar com elementos mínimos. No caso, bateria, baixo, voz e guitarra. Desde o início eu quis trabalhar com esses instrumentos e fazer o máximo possível com eles. Fico pelo menos três horas por dia experimentando timbres, efeitos e outros tipos de maluquice com minhas guitarras, pedais e amplificadores em casa.

Mas boa parte do rock foi feito com esses mesmos instrumentos. O Screaming Gentlemen quer realmente soar diferente de tudo? Você descobriu algum tipo de terreno inexplorado por todos os outros grupos?
Sim, é uma pretensão que gosto de admitir. A guitarra elétrica tem, o que, sessenta anos? Acho pouquíssimo tempo para desenvolver toda a capacidade de uma ferramenta tão complexa. E isso deve valer para os outros instrumentos também. Não estou dizendo que vamos fazer diferente, mas estamos conscientemente tentando inovar. Minha idéia, a princípio, é transformar a banda em uma espécie de mini-orquestra. Em algumas faixas, temos oito canais com guitarras, cada uma tocada de um jeito diferente. Quero levar isso pro palco.

Quantos músicos adicionais seriam necessários?
Uns dez, mais ou menos. Não é muito viável, mas viver também não é.

Estranho otimismo.
Pode crer que essa declaração consumiu toda minha cota semanal. (risos)

As letras do novo disco estão cada vez mais niilistas…
(interrompendo) Ah, sim. Sim.

Por quê?
Simplesmente saem assim. Sabe, gostaria muito de ver algum tipo de esperança na raça humana, mas sou diariamente desencorajado quando leio jornais ou vou ao supermercado. Quase todo dia perguntam pra alguém da banda se somos malucos ou doentes por escrevermos essas letras absurdas… Mas há duas semanas descobriram, a menos de duas quadras de onde moro, um casal que adotou uma criança só para comê-la. A princípio fiquei chocado, mas depois cheguei à conclusão que o mundo inteiro parece estar se ajustando a essa mesma freqüência de pensamento, de nível de insanidade. Não dá pra usar o termo “loucura coletiva” porque loucura é desvio, e o que temos agora parece ser a nova norma do milênio. Ninguém vai se salvar. Nem nós e nossa música. Só estou registrando o clima à minha volta.

October 2, 2005

grande idéia

Doe $100 para as vítimas do Katrina e ganhe um telefonema de Brian Wilson. Você pode fazer uma pergunta ou simplesmente dar um oi pro cara. E, ei, parece que ele liga mesmo.

October 1, 2005

meet jack torrance


Um novo trailer para O Iluminado. Genial.

Atualização: Na mesma linha, Amor Sublime Amor convertido em filme de zumbi. E um do Titanic também.

Via Boing Boing.

September 29, 2005

level up

No início dos jogos de RPG, a idéia era simular uma realidade de fantasia a partir de regras sociais cotidianas. Hoje em dia, parece que é o contrário. As pessoas continuam adquirindo experiência, mas só faltam contabilizá-la por pontos. Você deve se enquadrar em determinado perfil para ser sistematizado e absorvido com mais facilidade pelo jogo. Deve fazer “contatos”: mais ou menos como naquelas fases dos RPGs em que você tem que falar com todos os personagens da tela porque os programadores decidiram que é esse o gatilho para determinado evento mais relevante. Também possuem habilidades (menos fabulosas do que dotar suas flechas com poder congelante etc). Deve ser esse o futuro: relações cada vez mais mediadas pela tecnologia (e não pelo corpo) e definidas por designers de jogos e sistemas de informação.

September 27, 2005

gritaria

Screaming Gentlemen - \"Dirty Dawns\"

Enquanto ainda discutem se o 4 dos barbudos é ou não é como os álbuns anteriores, minha confusão está completamente depositada sobre Dirty Dawns, segundo disco do Screaming Gentlemen, talvez a maior banda desconhecida do mundo. Nem no Pitchforkmedia, maior paraíso indie da web, esses caras ganham resenhas. Ainda não consegui entender o porquê. Provavelmente pelo fato de serem quase tão avessos a mídia quanto o Dalton Trevisan.

Mudando radicalmente de direção, o Screaming Gentlemen trocou o que eu chamo de infernocore (haha) por um irresistível clima psicodélico. Só que, diferente do Flaming Lips, por exemplo, que usam uma infinidade de instrumentos e sintetizadores nas (maravilhosas) músicas, os caras do SG fazem quase tudo com guitarras e microfonias. É quase como se o Slayer mergulhasse no ácido.

O mais engraçado é que as letras continuam tão boçais como sempre. A faixa que abre o disco, Pigeons, é narrada por um cara que aprisiona pombos para amputar suas patas. Exquisite Hug é sobre um cara solitário que passa cola nas mãos e abraça a si mesmo. Grab my Heart é um épico de nove minutos sobre o dia em que as mãos de todos os seres humanos se desprenderam de seus corpos e invadiram a África. Nada faz sentido, mas é tudo fantástico.

September 26, 2005

ócio & vagabundagem #1

Idéia para uma sitcom: Uma Academia Muito Louca. Quatro docentes de uma faculdade de comunicação social vivem as mais divertidas histórias entre negociações absurdas com alunos relapsos, discussões teóricas sem fim, confusões burocráticas e elaboração de teses de doutorado delirantes.

Idéia para um MMORPG: Brasília On Fire, a experiência máxima em simulação da vida política brasileira. O jogador escolhe uma classe para seu personagem e, como é um jogo corporativista, tenta levar seus companheiros ao poder. Classes previstas: cavaleiro da oligarquia, portador da luz empresarial, paladino sindical, sábio intelectual de esquerda, caçador de dízimos, escudeiro da força estudantil, bardo da mídia, mago do judiciário, espião da ABIN, anão de partidos nanicos, trolls do funcionalismo público, elfos do capital internacional.

Idéia para um talk-show:
diariamente, três convidados especiais entrevistam Jô Soares.


Idéia para um filme: Jackson Antunes vive um pai de família que, após ter sua casa invadida por ladrões, decide fazer justiça com as próprias mãos. Uma mistura de Desejo de Matar com Um Dia de Fúria, só que com mais explosões e diálogos em português.

September 25, 2005

inveja #1



Uma guitarra feita de peças de Lego
. Les Paul preta, muito bom gosto.

Via StumbleUpon.

teólogos não sabem nada sobre minha alma

É maravilhoso como, prestando um pouco de atenção, é possível reconhecer padrões ocultos perdidos no ar (preciso ler o tal livro do William Gibson, aliás).

Em uma longa conversa com uma amiga Bianca, uma das pessoas que mais amo nesse planeta, falamos sobre como é importante termos paixões na vida - seja por outras pessoas como por atividades, artes etc; mais tarde, eu lia o seguinte trecho da entrevista do Henfil:

“Eu acho que o cara tem que ser rico interiormente, gostar de fazer, no mínimo, umas seis ou sete coisas. O cara que diz: ‘Eu me realizo fazendo jornalismo’, pô, esse cara é um pobre, é um cara atrofiado.”

Horas atrás, dou de cara com o artigo sobre o fim da monogamia e um novo paradigma de relações afetivas. Tudo isso parece se ligar pra mim. Não consigo imaginar minha vida restrita a uma só paixão. Cinema, música, literatura, chocolate, HQs, instrumentos musicais, culinária italiana, tecnologia, só pra citar coisas facilmente identificáveis, são assuntos pelos quais sou apaixonado. Um tipo muito particular de poligamia: as diferentes amantes conversam entre si, criam laços de amizade, apaixonam-se mutuamente.

bob esponja

Nas últimas semanas, tenho pensado bastante sobre como vou me informar daqui pra frente. Acho que deve ser um tipo de dúvida que, mais cedo ou mais tarde, vai tomar de assalto a cabeça de boa parte dos usuários de internet, pelo menos. As informações se multiplicam exponencialmente a cada minuto e prefiro não delegar a tarefa de selecioná-las exclusivamente a jornalistas…

Além de já ter aderido ao RSS e ao StumbleUpon, acabo de criar minha conta no Audioscrobbler. E ainda acho pouco. Pelo menos por enquanto. Será que a quantidade de estímulos externos um dia vai superar a capacidade do cérebro de absorvê-los?

September 24, 2005

q&a

Este blog recomenda: As 30 Melhores Entrevistas de Playboy, edição especial de título auto-explicativo. Ainda não li tudo, mas só pela entrevista do Henfil já vale os 29,95 investidos. Conversas longas e interessantes com personagens fantásticos como Marlon Brando, Henry Miller, Tom Jobim, Tim Maia e Mohammed Ali.

dona flor e seus dois maridos

Numa série de artigos da Foreign Policy que discutem conceitos que podem desaparecer nos próximos 35 anos, o que mais me chamou a atenção foi um em que Jacques Attali prevê o fim da monogamia.

“I do not believe that society will return to polygamy. Instead, we will move toward a radically new conception of sentimental and love relationships. Nothing forbids a person from being in love with a few people at the same time. Society rejects this possibility today primarily for economic reasons”

Para ele, o aumento da liberdade individual, o avanço dos métodos contraceptivos e o enfraquecimento da hipocrisia da sociedade revelarão algo que sempre esteve conosco, mas costuma ser combatido: a possibilidade de amar (no sentido romântico, imagino) mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

O que me deixou mais fascinado foi como fatores como tecnologia, política e mídia podem contribuir para acabar com um pilar aparentemente sólido da sociedade (branca e ocidental, pelo menos). Fomos orientados desde o berço a encontrar uma pessoa com quem viver o resto da vida. Cada vez mais incapazes disso, o divórcio surgiu como instrumento mais ou menos aceitável de rotatividade nos relacionamentos. Mas até mesmo essa fórmula deve caminhar para o desgaste.

Como serão as canções românticas com o fim da monogamia? Mais longas, talvez.

September 13, 2005

novela da vida real

Teste de Fidelidade

Nada supera o Teste de Fidelidade. João Kléber é o maior gênio da televisão atualmente. Não é à toa que está exportando sua fórmula de sucesso. Deve ser a coisa mais divertida do mundo trabalhar como produtor ou roteirista do seu programa.

Enquanto escrevo, a noiva 19 anos mais nova que o desconfiado noivo está trancada no banheiro da Rede TV! com vergonha por ter sido flagrada dando uns malhos com Oliver, maior ator brasileiro vivo depois do Paulo César Pereio. O noivo esmurra a porta e passa mal.

Antes da imagens do teste, Joao Kléber passava um clipe do GEORGE MICHAEL em dueto com o ELTON JOHN como se os cantores estivessem AO VIVO NO PALCO.

As legendas são 100% honestas: “AS IMAGENS QUE VÃO SER EXIBIDAS AQUI VÃO DEIXAR VOCÊ PARALIZADO”.

Soft porn fake apresentado por um humorista fracassado: não consigo conceber melhor metáfora para o país.

September 12, 2005

METAAAAL

Judas Priest - 09.09.05
Foto: Thiago Padovanni

Eu, um ponto branco em meio ao mar de camisetas negras do Anhembi, vi, com meus olhos verdes carcomidos, Rob Halford surgir no centro de um gigantesco olho vazado de pano e cantar Electric Eye, minha música favorita do Judas Priest.

Sim, estive lá. Cantei quase todas junto.

O metal segue sendo uma coisa enigmática e apaixonante. Se por um lado consegue ultrapassar as fronteiras do ridículo com mais frequência do que qualquer outro gênero, mantém-se um dos mais divertidos. Talvez exatamente por essa oscilação. Até hoje escuto meus discos do Iron Maiden com carinho (apesar de Chemical Wedding, do Bruce Dickinson, continuar melhor do que a maioria das coisas do IM) e mantenho certo interesse pelas novidades.

Mas continuo achando que o metal, ao vivo, ao contrário do que se pensa, é tudo menos pesado. Salvo exceções, claro. O Judas Priest, por acaso, é uma delas.

September 11, 2005

yada

Mudei pra cá saudoso do finado mBlog, casa anterior, muito simpática. Essa aqui usa o sistema WordPress, que não conheço e parece mais hermético do que o já difícil Movable Type. Mas recursos como categorização de posts e afins ainda são tão atraentes…

O honky bach deve permanecer no ar pra que eu volte caso (ou quando) a mamata aqui terminar.